• Marcela Bonacorci

Dança: Dançarinas Históricas - Isadora Duncan, Anna Pavlova, Martha Graham e Márcia Haydée

Conheça a trajetória profissional e pessoal de quatro das mais importantes dançarinas da história.

Dançarinas Históricas - Isadora Duncan, Anna Pavlova, Martha Graham e Márcia Haydée

A coluna Dança aproveita a celebração do mês das mulheres (8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher) para homenagear quatro das mais importantes dançarinas da história. Na seleta lista de personalidades femininas que revolucionaram a arte dançante, coloco Isadora Duncan, Anna Pavlova, Martha Graham e Márcia Haydée como figuras de destaque. Cada uma dessas mulheres teve papel decisivo para a consolidação da dança como uma prática moderna, expressiva/passional e libertária.


A seguir, vamos conhecer um pouco dos legados artísticos e das trajetórias pessoais de Duncan, Pavlova, Graham e Haydée. Impossível não se emocionar com a dedicação, a paixão e o pioneirismo dessas dançarinas inesquecíveis. Sou suspeita para falar, mas o conteúdo de hoje do Bonas Histórias percorre as páginas mais emocionantes da história da dança no século XX.


1. Isadora Duncan (1877 – 1927):

Isadora Duncan é uma dançarina norte-americana de Dança Moderna

Isadora Duncan, nome artístico de Dora Angela Duncanon, nasceu em São Francisco, Califórnia, em 26 de maio de 1877. Você deve se lembrar dela. Eu já a citei na coluna Dança, mais especificamente no post Dança Moderna e Dança Contemporânea - Surgimento e características. Duncan foi muito importante para a dança na primeira metade do século XX. Entre outros feitos, ela é uma das pioneiras da Dança Moderna.


Desde muito pequena, Isadora Duncan praticava assiduamente a arte dançante. Filha da pianista e professora de música Dora Gray Duncanon e do poeta Joseph Charles, a pequena Isadora dançava enquanto a mãe tocava piano. E assim, com apenas seis anos de idade, ela já ensinava as crianças de sua idade as práticas de vários passos dançantes. Com o passar dos anos, Isadora Duncan largou os estudos formais para se dedicar exclusivamente à carreira de dançarina. Ela foi coreógrafa, bailarina e professora.


Com muita personalidade, a adolescente Duncan se apresentava nos palcos norte-americanos. Nesses espetáculos, ela quebrava grande parte dos rígidos padrões que vigoravam na dança da época. Precisando apenas de um palco e de uma cortina, Isadora Duncan bailava descalça e vestindo apenas uma túnica leve. Contudo, seu estilo revolucionário não agradou ao conservador público dos Estados Unidos. Seus conterrâneos nunca viram com bons olhos as inovações trazidas pela jovem dançarina.


Assim, aos 17 anos, Isadora se mudou para a Europa com a família. Ela partiu em busca do reconhecimento artístico e da valorização do seu jeito peculiar de dançar. No velho continente, ela fez diversas apresentações. Contudo, o estrelato seria alcançado em Paris. Aos 21 anos, Duncan se tornou estrela de primeira grandeza da dança assim que estreou no Teatro Sarah Bemhardt. Enfim, o público reconhecia e aplaudia suas ousadias estéticas.


Isadora Duncan fundou, tempos mais tarde, sua primeira escola de dança. Destinada às crianças carentes, a companhia ficava no subúrbio de Berlim. O objetivo da escola era educar através da arte. Ainda na Alemanha, a norte-americana foi convidada por Cosima Wagner, a segunda esposa do compositor Richard Wagner, a coreografar e a interpretar o “Bacanal de Tannhauser” no Festival de Bayreuth. O sucesso foi retumbante.

Isadora Duncan é uma dançarina norte-americana de Dança Moderna

Na Rússia, Duncan montou sua segunda escola. Em 1905, em Moscou, ela teve contato com os mais renomados artistas e pesquisadores do Império Russo, então a capital mundial da dança. A forma de dançar da californiana logo chamou a atenção das bailarinas russas do porte de Anna Pavlova (que falaremos mais a seguir) e Matilde Kschessinska. Alguns compositores de Ballet, como Igor Stravinsky, também ficaram encantados com sua proposta artística.


Isadora Duncan foi responsável por criar um estilo de dança revolucionário. Ela quebrou os rígidos padrões da época. Por exemplo, em contraponto ao penteado das dançarinas clássicas, sempre com cabelos presos com um coque, ela dançava de cabelos soltos. Sem as vestimentas exigidas pelo Ballet, sapatilhas e vestidos formais, a norte-americana se apresentava descalça e com figurinos leves e inspirados na Grécia Antiga. Sua dança não exigia tanta técnica nem se prendia aos movimentos tradicionais. Com um jeito espontâneo, Duncan buscava incorporar em sua dança vários movimentos do cotidiano, como andar, correr e saltar.


Curiosamente, a leveza e a alegria da dança de Isadora Duncan contrastavam com a dureza e a tristeza que marcaram sua trajetória pessoal. Ela teve o primeiro filho com o coreografo inglês Edward Henry Gordon Graig. O segundo filho veio do segundo casamento, com o milionário francês Eugéne Singer. Em 1913, as duas crianças morreram quando o carro em que estavam caiu no rio Sena. Abalada, Isadora ficou afastada da dança e dos palcos por um bom tempo. Em 1922, a norte-americana casou-se pela terceira vez, agora com o poeta soviético Serguei Iessienin. Três anos depois do matrimônio, ele se suicidou.


Depois dessa nova catástrofe, Isadora se mudou para a França. E em setembro de 1927, foi a vez da própria dançarina morrer em uma tragédia. Ela estava viajando em um carro com a capota aberta e em alta velocidade pela Riviera Francesa quando sua echarpe, que trazia no pescoço, se enrolou em uma das rodas do carro. Isadora Duran morreu estrangulada.


2. Anna Pavlova (1881 – 1931):

Anna Pavlova foi a mais importante bailarina russa de todos os tempos

Anna Matveievna Pavlova foi a mais importante bailarina russa de todos os tempos. Nascida em São Petersburgo, em 12 de fevereiro de 1881, Pavlova já teve seu nome mencionado aqui na coluna Dança. No post sobre o Ballet Clássico – História, curiosidades e características, eu a citei algumas vezes.


Anna era filha única e praticamente foi educada apenas pela mãe, pois aos dois anos de idade seu pai faleceu. Sua infância foi simples e humilde. Somente aos oito anos, ela teve a oportunidade de ir, pela primeira vez, a um teatro. Esse dia mudaria para sempre a vida de Anna Pavlova. Sua mãe quis fazer uma surpresa e, como presente de aniversário, a levou para assistir a “A Bela Adormecida” no Teatro Mariinsky. A menina ficou tão maravilhada com o espetáculo de Ballet que não pensava em mais nada além de se dedicar a dança. Seu sonho passou a ser o Ballet. Ela queria estar em cima do palco se apresentando para as plateias.


Anna Pavlova foi imediatamente atrás de seu sonho. E alguns dias depois de sua ida ao teatro, ela buscou uma escola de Ballet. Tentou ingressar na Escola Imperial de Ballet de São Petersburgo, mas foi rejeitada. Aos oito anos de idade, ela era considerada muito nova e de baixa estatura para poder iniciar os estudos na dança. Porém, Anna não desistiu. E aos dez anos, voltou para tentar uma vaga na mesma instituição. Dessa vez, não apenas foi aceita, como também teve seu talento precoce reconhecido. Anna concluiu sua formação aos 18 anos, em 1899, e entrou para o Ballet Imperial Russo. Coincidentemente, a companhia tinha como seu palco principal o Teatro Mariinsky, onde o sonho da jovem dançarina nasceu.


Em 1906, Anna Pavlova se tornou prima ballerina, a primeira bailarina de sua companhia. Esse título é muito difícil de ser conquistado – apenas as bailarinas mais brilhantes e diferenciadas conseguem alcançá-lo. Ser uma prima ballerina representa se tornar a bailarina mais importante e com os papéis centrais das peças daquela companhia. A partir desse momento, Anna Pavlova começou a escrever de fato seu nome na História do Ballet. Sua trajetória foi curta, mas intensa. Ao longo de 15 anos, a russa fez apresentações por diversos países e em mais de quatro mil cidades.


Sua peça mais famosa é “A Morte do Cisne”. Para quem conhece um pouco de Ballet, com certeza já ouviu falar dessa obra-prima da dança. O que poucos sabem é que “A Morte do Cisne” foi escrito para a própria Anna Pavlova. Anna inclusive tinha como bicho de estimação um cisne. Esse espetáculo foi escrito, em 1905, pelo mestre de Anna, o russo Mikhail Fokine. A música era “O Cisne”, do francês Camille Saint-Saëns. Esse é simplesmente o solo de Ballet mais famoso do mundo. Anna Pavlova deixou sua marca nessa obra ao interpretá-la com dramaticidade, força e expressividade. Estava, assim, criado um estilo marcante e inconfundível de dançar, que influenciaria gerações e gerações de bailarinas.

Anna Pavlova foi a mais importante bailarina russa de todos os tempos

Sem dúvida nenhuma, Anna Pavlova foi responsável por inspirar muitas bailarinas na Rússia e em todas as partes do mundo. Ela viajou por muitos países e com isso pôde disseminar essa arte pela Europa, América e Ásia. Ela esteve aqui no Brasil por diversas vezes. Em 1918, se apresentou no Teatro da Paz, em Belém do Pará, e na década de 1920, subiu aos palcos dos teatros municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro.


Graças à Anna Pavlova, o Ballet passou por sensíveis modificações. A russa foi a responsável por transformar direta ou indiretamente vários aspectos dessa dança: a forma de se expressar no palco, as exigências físicas dos corpos dos dançarinos e o figurino usado nos espetáculos. Anna tinha uma aparência delicada e graciosa. Com um corpo magro e com uma estatura pequena, ela se contrapunha ao estereótipo das bailarinas de então, que eram mulheres altas, fortes e musculosas.


Anna valorizava e respeitava as técnicas da dança impostas na época. Sua performance era, inclusive, brilhante, executada sempre com maestria. Porém, ela ia muito além da mera execução dos passos e dos movimentos programados. A russa entregava-se literalmente de corpo e alma às suas atuações. Dessa forma, costumava deixar cravada sua personalidade e sua expressividade dramática em cada apresentação. Até então, o que se esperava de uma bailarina era uma atuação mais discreta, sóbria, em que apenas a técnica podia se destacar no palco. Com atuações evidentemente mais calorosas, Anna Pavlova revolucionou o Ballet Clássico. Com movimentos tecnicamente perfeitos e uma expressividade até ali nunca vista nos espetáculos, ela mostrou que as almas dos artistas não podiam ficar reprimidas dentro dos corpos.


Por iniciativa de Pavlova, as sapatilhas de ponta também sofreram modificações. Ou seja, os bailarinos contemporâneos devem agradecer à russa pelo tipo de calçado que possuem hoje em dia. Ela inovou ao inserir um reforço de couro nas sapatilhas. Assim, conseguiu minimizar os estresses nos dedos e facilitou os movimentos que precisavam ser executados na ponta. Na época, essa inovação não foi bem-vista pelos dançarinos. Afinal, essas mudanças deixavam as sapatilhas com uma base mais larga, o que ia contra o aspecto romântico de se dançar nas pontas de pés finos e delicados. Porém, o tempo foi o responsável por mostrar que Anna Pavlova tinha razão. Atualmente, o tipo de sapatilha que ela concebeu é o padrão usado pelos bailarinos do mundo inteiro.


Em 1931, aos 49 anos, no auge de sua notoriedade como bailarina clássica, Anna Pavlova morreu de pneumonia. Voltando para a Holanda, depois de uma turnê pela Europa, o trem em que a russa estava se descarrilou. Ela resolveu sair para ver o que tinha acontecido no lado de fora sem se preocupar com as roupas que estava usando. O frio era intenso e ela vestia apenas roupas leves. Como consequência, a dançarina pegou uma forte pneumonia. Dias mais tarde, os médicos queriam operá-la, mas ela sabendo que depois ficaria impossibilitada de dançar, rejeitou a intervenção cirúrgica. Só a morte poderia separá-la da dança. Então, Anna fez seu último pedido. Mesmo debilitada, ela queria vestir o traje de “A Morte do Cisne” e executar o último compasso do seu espetáculo mais famoso. Seu desejo foi atendido. E um dia depois de sua morte, a orquestra tocou “O Cisne” para um palco vazio.


E vamos a mais uma curiosidade: você já degustou a sobremesa Pavlova? Esse é um bolo com base de merengue, crocante por fora e macio por dentro e coberto com frutas geralmente vermelhas. Esse doce foi criado especialmente para Anna Pavlova. Dizem que ele teria sido inventado depois de uma visita da dançarina russa à Nova Zelândia. O merengue representa o tutu do figurino de Ballet, com suas ondas e movimento, e as frutas fazem o papel da dança intensa e expressiva.


3. Martha Graham (1894 – 1991)

Martha Graham foi uma das bailarinas e coreógrafas norte-americanas mais importantes do século XX

Martha Graham, bailarina e coreógrafa norte-americana, nasceu em 11 de maio de 1894, na Pensilvânia. Seu objetivo maior era desvendar e revelar a alma humana através da arte dançante. Ela teve papel fundamental na história da Dança e é conhecida até hoje como a mãe da Dança Moderna. Se você estiver acompanhando assiduamente o conteúdo da coluna Dança aqui no Bonas Histórias, com certeza se lembrará desse nome. No post sobre a Dança Moderna e Dança Contemporânea – Surgimento e características, como não podia deixar de ser, mencionamos Martha Graham. E agora, nesse material produzido especialmente em homenagem ao mês das mulheres, não poderíamos deixar de falar mais um pouco sobre ela.


Martha Graham teve um papel tão fundamental para a dança que sua influência sobre essa arte é comparada à influência que Pablo Picasso teve nas artes visuais, a que Ígor Stravinsky teve na música e a que Frank Lloyd Wright exerceu na arquitetura (aliás, a arquitetura é uma das minhas outras paixões além da dança!). Duas revistas importantes demonstraram toda a magnitude de Graham: a Time a chamou de “A Dançarina do Século” e a People a colocou na lista das mulheres “Ícones do Século XX”.


Martha Graham não foi efetivamente a primeira dançarina a iniciar as mudanças impostas pela Dança Moderna. Porém, seu trabalho não só ajudou a disseminar os novos paradigmas dessa modalidade, que abandonou a formalidade e a rigidez da dança clássica, como ainda revolucionou a própria Dança Moderna. Ela foi a responsável por influenciar as bailarinas de sua geração e teve seu trabalho reconhecido pelas gerações seguintes.


A dança entrou na vida de Martha só na adolescência. E seu interesse por essa arte se deve muito ao seu pai. Ele era médico, especialista em disfunções neurológicas, e tinha uma atenção especial aos movimentos corporais de seus pacientes. Martha herdou do pai a crença de que o corpo é capaz de expressar os sentimentos e as sensações mais íntimas. Uma das frases mais famosas de Martha e que representa muito bem seus conceitos da dança é “O corpo diz o que as palavras não podem dizer”.

Martha Graham foi uma das bailarinas e coreógrafas norte-americanas mais importantes do século XX

Em 1911, Martha Graham teve seu primeiro contato com a dança ao assistir à apresentação da bailarina Ruth S. Denis realizada no Mason Opera House, em Los Angeles. Fascinada pelo espetáculo, Martha se matriculou em um colégio voltado às artes. Assim que Ruth S. Denis fundou sua própria escola, a Denishawn, juntamente com seu marido Ted Shawn, a experiente dançarina recebeu uma nova e entusiasmada aluna – Martha Graham. A jovem que aspirava dançar profissionalmente fez parte da escola de Ruth S. Denis e Ted Shawn por oito anos, primeiramente como aluna e depois como professora.


Esse momento foi muito importante para a formação de Martha, pois ela teve contato com danças do mundo inteiro, o que era uma novidade para as escolas norte-americanas. Assim, Martha Graham pôde conhecer a dança folclórica, a clássica, a experimental, a asiática, entre outras. O principal mestre de Graham foi Ted Shawm, que descobriu a força e a intensidade expressiva da pupila. Ele usou todo o potencial da jovem aluna em sua obra de balé asteca, “Xochitl”. Nessa peça, a atuação de Martha foi formidável, o que despertou grande repercussão entre o público e os profissionais da dança. A partir daí, Martha Graham se tornou a grande estrela da Denishawn.


Em 1923, ela deixou a Denishawn e entrou para a revista Greenwich Village Follies, onde ficou por dois anos como a dançarina de destaque. Greenwich Village Follie foi uma revista musical que se apresentou de 1919 a 1927 no Teatro Greenwich Village. Em seguida, Graham foi para Eastman School of Music, companhia de Rochester, em Nova Iorque. Lá, ela deu aulas e fez experimentações no palco.


Apenas em 1926, Martha Graham, então com 32 anos, lançou-se na carreira de dançarina solo em Nova Iorque. Nesse ano, ela fundou sua própria companhia de dança, a Martha Graham Dance Company. Dirigida por sua fundadora até o último dia de vida, a Martha Graham Dance Company existe ainda hoje e é considerada a companhia de dança com mais tempo ininterrupto de atuação nos Estados Unidos.


Martha Graham foi responsável por coreografar mais de 200 peças. Suas obras apresentavam inovações nos movimentos e trabalhavam diversos temas como o folclore americano, a mitologia grega, questões sociais e políticas, a psicologia humana, a sexualidade e a sensibilidade feminina.

Martha Graham foi uma das bailarinas e coreógrafas norte-americanas mais importantes do século XX

O Ballet não era malvisto por Graham. Entretanto, aos seus olhos, essa era uma modalidade muito limitada, pois impossibilitava ao dançarino expor suas emoções, desejos, paixões e dramas. Os passos que Martha criou para sua dança queriam sempre expor seus sentimentos e buscavam prioritariamente leveza, explosão e dramaticidade. Ela fez uso de movimentos básicos do corpo associando-os à respiração. Seu estilo era caracterizado por gestos amplos e pelo contato direto do corpo com o chão.


Sua atuação não se limitava apenas à dança. Ela produzia e desenhava o próprio figurino e tinha papel importante na criação das músicas dos espetáculos. Martha Graham foi responsável por revelar grandes bailarinos e coreógrafos como Alvin Ailey, Anna Sokolow, Twyla Tharp, Elisa Monte, Paul Taylor, Merce Cunningham, entre outros.


Em seus mais de 70 anos de carreira, Graham ganhou muitos prêmios e foi homenageada várias vezes. Ela foi a primeira bailarina a dançar na Casa Branca e a viajar para fora do país como embaixadora cultural. Em 1959, ganhou o prêmio The Laurel Leaf da American Composers Alliance por seus serviços prestados à música. Em 1976, o presidente norte-americano Gerald R. Ford, reconhecendo o papel relevante de Martha Graham na cultura de seu país, concedeu à dançarina o maior prêmio civil dos Estados Unidos, a Medalha Presidencial da Liberdade, e a declarou um “tesouro nacional”. Em 1985, RonaldReagan fez questão que Martha fosse uma das primeiras a receber a Medalha Nacional das Artes. Fora da América do Norte, Martha Graham também recebeu homenagens e prêmios. A Chave da Cidade de Paris e a Ordem da Coroa Preciosa do Império Japonês foram algumas honrarias entregues à dançarina.


Martha traçou uma das mais importantes e longevas trajetórias da dança no século XX. Considerada por muitos como uma dançarina à frente de seu tempo, ela disse em uma entrevista ao Observer de Londres, em 8 de julho de 1979: “Nenhum artista está à frente do seu tempo. Ele é o seu tempo. Os outros é que estão atrás”. Ela faleceu em 1º de abril de 1991, em Nova Iorque, aos 96 anos.


4. Márcia Haydée (1937)

Márcia Haydée é uma das mais importantes bailarinas e coreógrafas do Brasil

Depois de apresentar a trajetória artística de três dançarinas estrangeiras, eu preciso falar agora de uma brasileira. Então, vamos tratar logo de Márcia Haydée, uma das mais importantes bailarinas e coreógrafas da história do nosso país. Vale a pena esclarecer que o prestígio de Haydée não ficou restrito ao Brasil. Ela é uma das maiores referências internacionais da dança do século XX. Não à toa, seu nome já desfilou no Bonas Histórias quando apresentei a história, as curiosidades e as características do Ballet Clássico.


Márcia Haydée Salaverry Pereira da Silva nasceu em Niterói, no Rio de Janeiro, em 18 de abril de 1937. Desde muito pequena, ela teve como sua grande paixão o Ballet. A menina adorava assistir aos espetáculos de dança. Aos três anos de idade, Márcia já experimentava os primeiros passinhos no Ballet. A garota passou a maior parte da infância sob os cuidados dos avós. Afinal, sua mãe era muito nova, tinha 19 anos quando ela nasceu.


Em 1943, Márcia Haydée, então com seis anos, começou a ter aulas de Ballet com Yuco Lindberg, Vaslav Veltchek e Tatiana Leskova, professores estrangeiros que viviam no Rio de Janeiro. E foi justamente nesse ano em que a pequena bailarina, acredite se quiser, ganhou seu primeiro contrato como dançarina, devidamente assinado pelo avô. Com esse registro, a menina se apresentou pela primeira vez no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A obra apresentada ali era a comédia “Era o Cavaleiro da Rosa”, de Richard Strauss. A aparição da pequena Márcia se deu apenas na primeira e na última cena do espetáculo. E mesmo sem entender nenhuma palavra de alemão, seu dom musical e seu talento precoce para a dança a ajudaram a se sair muito bem no palco.


Em Londres, para onde se mudou em 1954, a adolescente Márcia Haydée foi estudar na The Royal Ballet School. E durante os quase três anos que permaneceu na capital inglesa, ela teve aulas com Winifred Edwards, ex-bailarina da companhia de Anna Pavlova, e com Harold Turner. Nesse período, a brasileira conheceu o coreógrafo sul-africano John Cranko, diretor do Stuttgart Ballet, companhia de dança alemã. Márcia se tornou a principal discípula de Cranko. Depois de se mudar para Paris, em 1957, ela teve aulas com Lubov Egorova e Olga Preobrajenska. Nesse ano, participou também do Grand Ballet du Marquis de Cuevas.


A carreira profissional de Márcia Haydée na dança começou para valer em 1961 quando ela entrou para o Ballet de Stuttgart. Um ano após seu ingresso na companhia alemã, a brasileira se tornou a primeira bailarina do grupo de John Cranko. Trabalhando ao lado do sul-africano durante doze anos, Haydée fez apresentações em diversos países e se tornou uma estrela internacional do Ballet. Cranko, inspirado na dança de Márcia Haydée, coreografou diversas obras para ela, como “Romeu e Julieta” (1962), “Onegin” (1965), “Présence” (1968), “A Megera Domada” (1969), “Carmen” (1971) e “Spuren” (1973). A dançarina brasileira assumiu a direção do Ballet de Stuttgart em 1976, dois anos após a morte de John Cranko. Ela ocupou esse cargo até 1996.

Márcia Haydée é uma das mais importantes bailarinas e coreógrafas do Brasil

Márcia trabalhou ainda com coreógrafos renomados como Kenneth MacMillan, Glen Tetley, John Neumeier e Maurice Béjart. Assim como John Cranko havia feito anteriormente, todos esses artistas fizeram peças inspiradas na dança de Haydée. As mais importantes foram: “Las Hermanas” (1963), “Lied von der Erde” (1965), “Fräulien Julie” (1970) e “Requiem” (1977), de Kenneth MacMillan; “Voluntaires” (1973), de Glen Tetley; “Hamlet Connotations” (1976), “Die Kameliendame” (1978) e “Endstation Sehnsucht” (1983) de John Neumeier; “Leda y el Cisne” (1980), “Divine” (1981), “Nur du Allein” (1982), “Die Stühle” (1984) e “Madre Teresa et les Enfants du Monde” (2002), de Maurice Béjart.


Márcia Haydée foi considerada pela crítica internacional como a Maria Callas da dança por sua força interpretativa e por sua capacidade de atuar em todos os papéis (ela interpretava comédia e tragédia com a mesma excelência). A brasileira teve como partenaires importantes bailarinos internacionais como Mikhail Baryshnikov, Rudolf Nureyev, Paolo Bertoluzzi, Anthony Dowel, Jorge Donn e Richard Cragum. Inclusive, Richard Cragum foi marido de Márcia por 16 anos.


Ainda como diretora do Ballet de Stuttgar, Márcia Haydée foi convidada pelo Balé Nacional do Chile, em 1992, para montar “Pássaro de Fogo”, uma das peças criadas para ela por John Cranko. No ano seguinte, Márcia assumiu a direção do Ballet de Santiago. E ainda em 1993, ela se apresentou no Rio de Janeiro com coreografia de Roberto de Oliveira. Haydée recebeu o título honorífico de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro.


De volta aos palcos alemães, Márcia Haydée dançou “Tristão e Isolda” com o também bailarino brasileiro Ismael Ivo. Em 2001, participou do Festival de Artes, em Hong Kong. Em 2004, voltou a dirigir o Ballet de Santiago. Na Alemanha, em 2009, recebeu a Cruz Federal de Mérito, prêmio concedido às personalidades que contribuíram significativamente para a política, a economia e a cultura. E no ano passado, Márcia deixou a direção do Ballet de Santiago. Aos 83 anos, ela não pensa em parar de trabalhar com a dança. Márcia irá atuar como assessora internacional do Ballet assim que a pandemia do novo coronavírus der uma trégua.


Márcia Haydée é casada atualmente com Günther Schöber, professor de Yoga vinte anos mais novo que a esposa. Por ter se dedicado quase que exclusivamente à sua arte, a bailarina brasileira preferiu não ter filhos. Em sua mais recente entrevista, concedida ao The Clinic em janeiro deste ano, Márcia se diz perdida por não poder pisar em um teatro. A pandemia está fazendo com que ela aprenda a conviver mais com ela mesma. E às vésperas de completar 84 anos, Haydée voltará a residir na Alemanha, onde deseja aprender a cozinhar. Certa vez ela disse: “Não existe idade. A gente é que cria. Se você não acredita na idade, não envelhece até o dia da morte”. Pelo visto, ela está levando essas palavras bem à sério. Sorte nossa e dos admiradores do Ballet.

Principais dançarinas da história

Há ainda muitas mulheres que fizeram parte da história da dança. Essa é apenas uma pequena amostra de bailarinas e dançarinas talentosas que nos brindaram com sua arte e seu talento. Ainda falaremos no Bonas Histórias de outras mulheres importantes para a dança. A apresentação das trajetórias profissionais e pessoais de Isadora Duncan, Anna Pavlova, Martha Graham e Márcia Haydée foi uma homenagem a todas as mulheres que mostraram força, talento e determinação no universo da dança. Afinal, como falei no início deste post, estamos no mês das mulheres.


Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. Tal data nos ajuda a lembrar as lutas e as conquistas sociais e políticas que a mulherada precisou travar ao longo da história. Diferentemente de outras celebrações mundo à fora, essa efeméride não foi inventada pelo comércio visando simplesmente o lucro ou o aumento do consumo. Não! Ela teve origem no engajamento ativo das mulheres por seus direitos.


Acredita-se que o primeiro Dia das Mulheres se deu em 1909. Em 26 de fevereiro daquele ano, houve em Nova Iorque uma grande passeata de aproximadamente 15 mil mulheres. Elas reivindicaram melhores condições de trabalho. Desde então, muitas manifestações se repetiram nos quatro cantos do planeta.


Em 23 de fevereiro de 1917, data referente ao antigo calendário russo (e correspondente ao 8 de março do calendário gregoriano), realizou-se uma grande passeata feminina em Moscou contra o desemprego, a fome e a Primeira Guerra Mundial. Essa manifestação foi ganhando mais força com a inclusão dos metalúrgicos e durou vários dias. Sua força foi tão grande que, segundo os historiadores, ela precipitou na Revolução Russa de 1917. A partir daí, se convencionou celebrar essa data, o tal 8 de março, como o Dia Internacional da Mulher. A oficialização da ONU mais tarde apenas ratificou a importância desse momento histórico. Hoje, essa data é comemorada em mais de 100 países.

Participação feminina na dança

Espero que essa singela homenagem a quatro importantes dançarinas sirva de inspiração para todos que desejam se lançar na dança. Se não iremos fazer parte da história da dança como Isadora Duncan, Anna Pavlova, Martha Graham e Márcia Haydée, ao menos nós podemos deixar que a dança faça parte da nossa história pessoal. A vida dessas artistas já é por si só uma grande inspiração para que comecemos a dançar agora mesmo, não é?


Para finalizar este post da coluna Dança, deixo aqui uma frase do nosso poeta e escritor Augusto Branco: “Não é o ritmo nem os passos que fazem a dança. Mas a paixão que vai na alma de quem dança”. Um maravilhoso mês das mulheres para todos e até a próxima!


Dança é a coluna de Marcela Bonacorci, dançarina, coreógrafa, professora e diretora artística da Dança & Expressão. Esta seção do Bonas Histórias apresenta mensalmente as novidades do universo dançante. Gostou deste conteúdo? Não se esqueça de deixar seu comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre este tema, clique na coluna Dança. E aproveite também para nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Mandarina é a livraria diferenciada que está localizada em Pinheiros, na cidade de São Paulo
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Comunicação Integrada é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento