• Ricardo Bonacorci

Livros: A Conjura - O romance de estreia de José Eduardo Agualusa


Em novembro, o Desafio Literário irá se dedicar à análise da produção ficcional de José Eduardo Agualusa, um dos principais nomes da literatura angolana e da literatura contemporânea em língua portuguesa. E esse estudo tem início, hoje, com a avaliação crítica do romance de estreia de Agualusa: “A Conjura” (Gryphus Editora). Para aqueles que aportaram só agora no Bonas Histórias, aviso que este é o primeiro dos seis títulos do angolano que serão investigados nas próximas quatro semanas. As outras obras são: “Nação Crioula” (Gryphus Editora), “O Vendedor de Passados” (Tusquets), “As Mulheres do Meu Pai” (Língua Geral), "Nweti e o Mar" (Gryphus Editora) e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”. Sou um tanto suspeito para falar, mas a programação deste mês me parece imperdível para quem curte o melhor da moderna ficção lusófona.


Publicado em 1989, “A Conjura” foi escrito ao longo de 1987 e concluído, em Lisboa, em janeiro de 1988. Neste romance histórico ambientado entre o final do século XIX e o início do século XX, José Eduardo Agualusa apresenta o drama dos integrantes de um dos primeiros movimentos de independência de Angola, então colônia de exploração de Portugal. Naquela época, o governo português via suas terras na África (não apenas Angola, mas também Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau) invariavelmente como seu quintal. Era para lá que eram enviados os criminosos degredados, a população pobre que alimentava o sonho de empreender e os comerciantes mais ambiciosos da Península Ibérica. “A Conjura” descreve a insatisfação latente dos angolanos em relação ao comportamento predatório e às ideologias racistas dos colonizadores.


Enquanto narra a realidade (os amores/desamores, as intrigas cotidianas, os sonhos/desilusões, a cultura, os hábitos e as crenças religiosas) dos moradores de Luanda, a capital angolana, José Eduardo Agualusa denuncia, em “A Conjura”, o racismo, a violência, a escravidão e a exploração que seus conterrâneos, principalmente os negros e os mulatos, eram vítimas em sua própria terra. Os vilões da trama são, obviamente, os europeus (portugueses, ingleses, franceses, belgas e holandeses), uma gente interessada apenas em se apropriar dos recursos naturais, humanos e financeiros da nação africana. Daí o desejo de um grupo de nativos em pegar em armas e promover a independência de Angola.

Em uma comparação informal que os brasileiros vão entender perfeitamente, “A Conjura” relata uma espécie de inconfidência luandense. O movimento conspiratório foi promovido, assim como a Inconfidência Mineira no século XVIII, por um grupo secreto constituído por intelectuais e prósperos comerciantes da região mais rica da colônia. Os revoltosos estavam insatisfeitos com o status político, social e econômico que sua nação recebia do então Reino português. Justamente aí reside uma das belezas da narrativa de Agualusa. Enquanto trata da política (temas do macroambiente), o romance também aborda o dia a dia na colônia, com suas tragicomédias de âmbito pessoal (assuntos do microambiente).


Vale a pena ressaltar que “A Conjura” é um dos primeiros livros da literatura africana em língua portuguesa a promover a negritude/empoderamento negro. Os protagonistas desta obra são, na maioria das vezes, homens e mulheres negros ou mulatos, cultos, ativos politicamente, empreendedores, bem-sucedidos economicamente e/ou com uma posição de destaque na sociedade local. Além disso, este título é pioneiro ao denunciar o racismo estrutural da sociedade angolana no período colonial. Misturando episódios e figuras reais a acontecimentos e indivíduos fictícios, Agualusa mergulha nos dramas da população negra e aponta as atrocidades cometidas pelos europeus brancos no processo de exploração do continente africano. Lembremos que o escritor angolano fez isso no final da década de 1980, uma época da nossa história em que a campanha Black Lives Matter - Vidas Negras Importam ainda estava muito longe de eclodir e de despertar a atenção da mídia dos países desenvolvidos.


Quando foi lançado em Portugal e em Angola, “A Conjura” recebeu excelentes avaliações da imprensa especializada e ganhou rasgados elogios da crítica literária. Em seu país natal, José Eduardo Agualusa conquistou o Prêmio Sinangol de Literatura, um dos principais de Angola, na categoria Autor Revelação. Em Portugal, não foram poucos os profissionais do mercado editorial que anunciaram o surgimento de um autor de língua portuguesa com grande potencial criativo e narrativo. Hoje, sabemos que essas previsões não eram exageradas e estavam certas.

O enredo de “A Conjura” inicia-se em 1880. Após aprender o ofício de barbeiro em Bengala, sua terra natal, com o português Acácio Pestana, Jerónimo Caninguili chega à Luanda para montar o próprio negócio. Seu estabelecimento tem um nome peculiar: Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade. O termo fraternidade é uma óbvia referência a um dos ideais da Revolução Francesa. Não demora para a barbearia de Caninguili cair no gosto da elite luandense. Enquanto cuidam da estética facial, os homens aproveitam para debater muita política. Assim, o negócio do benguelense vira o centro de calorosos debates que vão de discussões políticas e comerciais até artes e literatura, passando obviamente pelas fofocas de Luanda.


Ao longo das três décadas seguintes, os fregueses da Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade vão protagonizar várias histórias tragicômicas na capital angolana. Manaus, o papagaio do Velho Gama, estava acostumado a imitar as palavras do dono. Por isso, a ave falante provocou um grande rebuliço no enterro do Gama. Alice, a filha do falecido, ficou incumbida de cuidar de Manaus após a morte do pai e se tornou presença constante na barbearia de Caninguili. Diferentemente dos clientes do estabelecimento, ela ia até lá para conversar com o dono do lugar e para compartilhar seu gosto pela literatura.


Inocêncio Mattoso da Câmara se candidatou à presidência do Município de Luanda em uma eleição marcada por muita corrupção e confusão. Arantes Braga, apaixonado por Josephine, morreu, segundo dizem, literal e figurativamente do coração. Rocha Camuquembi era um polêmico mercador de corpos que se transformou em um improvável herói nacional. Judite, filha de Hipólito Viera Dias, queria se casar com Severino de Sousa, mas seu pai queria uni-la ao velho Carmo Ferreira, um próspero comerciante da capital angolana.

César Augusto do Carmo Ferreira, filho do velho Carmo Ferreira, tinha o sonho de ser militar e de desbravar o interior do país combatendo os revoltosos do Reino português. Adolfo Vieira Dias, irmão de Judite, se envolveu em um ruidoso escândalo ao namorar uma mulher casada, Ana Maria Barata. Ela era a esposa lisboeta do comissário português Dantas Barata, importante figura política da metrópole que estava à serviço na colônia. Maria da Enunciação, a filha de Severino e Judite, apresenta desde pequena os dons mediúnicos de Vavó Uála das Ingombotas, uma falecida vidente de Luanda.


Enquanto acompanhamos a vida sentimental e profissional das personagens de “A Conjura”, também assistimos ao enrubescimento da situação política em Angola. Após o surgimento de alguns jornais e de movimentos de oposição ao governo português, um grupo de influentes clientes da barbearia de Jerónimo Caninguili forma a Sociedade, o grupo político secreto que tem como objetivo a luta pela independência do país. A ação mais ambiciosa da Sociedade está marcada para 16 de junho de 1911. Nesta data, os revoltosos planejam tomar à força o controle da capital da nação. O romance de José Eduardo Agualusa vai exatamente até este dia e apresenta o desfecho da ação dos conjurados.


“A Conjura” possui 192 páginas. O livro está dividido em seis capítulos. Levei aproximadamente cinco horas para concluir esta leitura no último domingo. Comecei a obra no meio da manhã e no fim da tarde já havia chegado à sua última página. Ou seja, é possível ler este título em um único dia (em duas ou três sentadas) ou em duas noites.


Para começo de conversa, vamos falar do nome desta obra de Agualusa. Em uma perspectiva denotativa, conjura significa conspiração, intriga e rebelião. Do ponto de vista conotativo, podemos ver este termo como sinônimo de fracasso, invocação aos espíritos e exorcismo às más influências. Citei as múltiplas designações do título deste romance de estreia de José Eduardo Agualusa para demonstrar o quão completa é a sua significação. Em outras palavras, acredito que não haveria melhor título do que este.

O que mais gostei em “A Conjura” foi do retrato da língua, da cultura, da geografia, da população e da realidade angolana. O cotidiano sociocultural deste país salta das páginas com um brilho intenso e com muita força. Agualusa tece uma crônica sobre a vida, os hábitos, as crenças e a estrutura social de sua terra natal durante o período colonial. E esse panorama não é apenas belo como é também extremamente verossímil. De forma inteligente, o autor mistura o português típico de Angola (ngueta, bofeta, xuaxualhar, makas, muximado, matuba, quindumba, sunguilar, cazuela, mata-bicho etc.) a termos, palavras e expressões do quimbundu, uma das línguas nativas daquela região. Esse recurso linguístico faz com que o leitor seja atirado diretamente à realidade local, sem escalas ou intermediários. É interessante acompanhar também os detalhes da cultura (bebidas, instrumentos musicais, alimentos, crenças, superstições) e das diferenças regionais de Angola.


Aproveitando-se do misticismo da cultura africana, “A Conjura” explora de maneira inteligente o lado sobrenatural, mágico e espiritual dos angolanos. Assim, este romance adquire várias características do Realismo Fantástico. As personagens de Agualusa falam com espíritos, clamam pelas divindades, conseguem prever o futuro, têm premonições e usam (e abusam) das superstições para evitar tragédias e para conquistar o que tanto desejam. Parte da graça deste livro está na liberdade narrativa das pessoas em se comunicar e de interagir com outros planos espirituais.


Para intensificar o tom de romance histórico de sua publicação, José Eduardo Agualusa abre cada capítulo de “A Conjura” com um pequeno resumo do que virá a seguir. Esse expediente textual era típico dos livros da época em que a trama está ambientada (século XIX). Apesar de ultrapassado e sem sentido aos olhos dos leitores contemporâneos, o resumo na abertura do capítulo confere um tom antigo ao enredo (como o preto e branco dos filmes atuais remetem à nostalgia dos longas-metragens da primeira metade do século XX). Para intensificar ainda mais o caráter histórico, o autor angolano ainda apresenta na abertura de cada capítulo um fragmento textual da época retratada (poesia, notícia de jornal, panfleto político etc.). Assim, temos uma mistura intensa de realidade e ficção.

Juntamente com a pegada de crônicas de costumes, “A Conjura” exalta uma contundente crítica político-social. A necessidade de independência da colônia e a urgência da promoção do abolicionismo que os angolanos sentiam eram legítimas e fruto do racismo, da exploração e do egoísmo dos invasores europeus. Por falar nisso, é importante destacar que a escravidão também existia no continente africano (muitas pessoas no Brasil pensam que essa prática foi imposta exclusivamente aos negros nas colônias americanas). Ou seja, até mesmo em sua própria terra, os negros eram aprisionados, transformados em mercadoria e explorados como força motriz da economia dos brancos.


As partes mais fortes deste romance de Agualusa são justamente aquelas em que se apontam os preconceitos raciais, sexistas, econômicos e religiosos da Angola colonial. Por pior que possa parecer, alguns nativos apoiavam as atitudes, as crenças e a ideologia dos dominadores, em uma insensatez interminável. Veja um trecho que escancara o racismo de uma parcela dos portugueses na África:


“(...) um artigo inserto no número quatro d´A Gazeta de Loanda, único periódico que, ao mesmo tempo, se publicava na capital da colônia. O dito artigo multiplicava-se em insultos soezes contra a raça negra, não sendo daí, porém, que vinha a maior novidade; de novo havia que, tomando por base tais dantas-baratismos, o audaz croniqueiro se atrevia a construir teorias e a avançar com propostas que até então ninguém havia ousado publicamente apadrinhar. Por exemplo, propunha que se substituíssem as penas de prisão por castigos corporais, pois “meter em ferros d´El Rei um preto que delinquiu assassinando, roubando, ferindo, ofendendo a moral por ações ou palavras, não é aplicar um castigo, é antes incitá-lo ao crime, é lisonjear-lhe o instinto, é dar-lhe o prêmio. Pois qual é o ideal do preto senão comer sem trabalhar? Qual é a sua lei, a sua norma de vida, o seu superior anseio? Não somos apologistas dos castigos corporais. Achamo-los uma barbaridade, pelo mesmo motivo que achamos a pena de morte um crime oficial. Mas umas palmatoadas nos mesmos termos, protestando ainda contra a condenação de europeus que ofendessem indígenas, já que “antes de tudo, o castigo severo do branco por motivo de simples ofensa ao preto, sendo deprimente do homem e consequentemente exauturador da raça” (AGUALUSA: 1989).

Ao mesmo tempo em que expõe a violência ideológica e física dos colonizadores, José Eduardo Agualusa narra em tom tragicômico o dia a dia da Luanda colonial. O humor leve dos encontros e desencontros amorosos dos africanos quebra um pouco o ar pesado da narrativa política de “A Conjura”. A ambientação leve do texto ficcional deve-se sobremaneira às cenas engraçadas e à comicidade dos causos relatados.


O único ponto negativo deste romance de Agualusa é que seu ritmo narrativo demora um pouco para embalar. Como há muitas personagens sendo retratadas simultaneamente (cada indivíduo surge do nada no texto e permanece poucas páginas em ação, dando espaço para as outras figuras despontarem, que, por sua vez, ficam também pouco tempo em destaque), o leitor pode ficar um pouco confuso. Isso se dá principalmente na primeira metade do livro. A sensação que tive nos três capítulos iniciais da obra era de estar lendo uma coletânea de contos e não um romance. Fiquei com dúvida sobre qual seria o conflito principal de “A Conjura”. Apenas na segunda metade da narrativa (três capítulos finais), quando conhecemos todos os protagonistas e compreendemos o conflito da trama (de teor político), a narrativa se torna fluída e extremamente interessante. Por isso, é preciso dar paciência ao texto de José Eduardo Agualusa. Não desista dele no primeiro impacto, por favor. Na certa, você se arrependerá de não chegar ao desfecho (de teor um pouco aberto e extremamente sutil, mas brilhante!).


Na terça-feira da semana que vem, dia 10, voltarei ao Desafio Literário para analisar o segundo livro deste mês. A obra que será comentada no Bonas Histórias é “Nação Crioula” (Gryphus Editora), um dos grandes sucessos de Agualusa. Esse romance foi publicado em 1997 e segue, em uma nova narrativa histórica que mistura realidade e ficção, relatando as atrocidades da escravidão e a busca pela abolição na Angola colonial. Não perca a continuação do estudo sobre a literatura de José Eduardo Agualusa. Até lá!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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