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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 42 anos, mora em Buenos Aires e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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Livros: Maria e o Mundo Mágico - O primeiro volume da série infantil de Dayana Rampinelli

Publicada em setembro de 2023, a obra de estreia da escritora catarinense que vive há anos nos Estados Unidos é direcionada aos leitores de 3 a 9 anos e enfoca a bonita amizade entre uma garotinha sonhadora e seu esperto cachorrinho.

O livro Maria e o Mundo Mágico, Mary and the Magic World na versão em inglês, é a obra infantil de estreia de Dayana Rampinelli, escritora e jornalista catarinense, que foi ilustrada por Marcelo da Paz

Em dezembro, recebi a visita da minha irmã Marcela que, de férias na Dança & Expressão, veio passar uma semaninha comigo em Buenos Aires (e, diz a lenda, conhecer in loco os detalhes do Tango, modalidade em que é professora há mais de duas décadas e tema de sua próxima matéria na coluna Dança). Como ela se prontificou a trazer do Brasil o que eu precisasse, não vacilei na hora de fazer a lista: marquei um monte de livros que desejava comprar desde o ano passado. Por mais que os ebooks tenham se popularizado nos últimos anos, salvando a vida dos expatriados e dos nômades digitais viciados em literatura em língua portuguesa, ainda assim há títulos que são encontrados apenas na versão física (principalmente obras antigas ou publicações de editoras menores) ou que a leitura da edição impressa é ainda uma experiência infinitamente superior (como no caso dos livros infantis com ilustrações e dos materiais técnicos ou didáticos).


E não é que Marcelinha, uma espécie de Irmã Noel com altruísmo literário do meu Natal portenho, trouxe tudo o que pedi em sua diminuta mala de mão (mas havia uma mochila avantajada em suas costas que era maior do que ela). A façanha se torna ainda mais admirável quando sabemos que fui presenteado com vários pacotes de café brasileiro de qualidade, um artigo raro ou muitíssimo caro nas prateleiras dos supermercados argentinos (e, portanto, algo que confesso sentir muitas saudades da minha terra). Como coube tudo em sua bagagem? Não sei. Só sei que foi assim!


Do acervo literário que minha irmãzinha me trouxe (saibam que na viagem de volta para São Paulo, ela usou o amplo espaço que ficaria ocioso na mala para levar muuuuito alfajor e doce de leite!), o primeiro que li, ainda em dezembro, foi “Maria e o Mundo Mágico” (EV Publicações), livro infantil de Dayana Rampinelli que aborda a bonita amizade entre uma menina de 6 anos e seu carismático cachorrinho. Essa obra marca a estreia da escritora na ficção literária (e, claro, na literatura infantil) e servirá de base para a construção de uma série literária homônima que terá mais três títulos.


Gostei tanto desse primeiro volume da saga e da proposta da Tetralogia “Maria e o Mundo Mágico” que não resisti e o escolhi para ser analisado neste primeiro post de 2024 da coluna Livros – Crítica Literária. Para as almas mais ansiosas (ou seria curiosas?!), já adianto que teremos muitas novidades boas para comentar neste ano recém-iniciado quando o assunto é literatura brasileira. Tem cada livrão espetacular que quero debater aqui no blog. Aguardem porque acho que vai valer muito a pena!

Escritora, jornalista e artista plástica catarinense que está radicada há mais de dez anos nos Estados Unidos, Dayana Rampinelli é autora do livro infantil Maria e o Mundo Mágico

Sobre “Maria e o Mundo Mágico”, preciso contar que conheci o trabalho de Dayana Rampinelli meio que por acaso em meados de 2023. Em meio à minha mudança de casa para as margens mais turbulentas do Rio da Prata, fui convidado para participar de uma reunião virtual com ela. O encontro foi conduzido pela Epifania Comunicação Integrada. Para quem não sabe, além de atuar na edição e na produção de alguns livros da EV Publicações e dar expediente no Bonas Histórias, participo de alguns projetos na agência de Marketing Digital do Paulo Sousa (abraços, Paulinho!). E neste bate-papo pelo Skype com Dayana (e com Paulo), soube que ela tinha um título recém-lançado que fora editado por Eduardo Villela, meu amigo de infância e um dos principais book advisors do Brasil, e ilustrado por Marcelo da Paz, um dos mais talentosos ilustradores e capistas.


Para completar a vasta coleção de coincidências (o mundo até pode não ser pequeno, mas tenho a impressão de que o universo da literatura brasileira é sim minúsculo!), “Maria e o Mundo Mágico” saiu pela EV Publicações, selo em que trabalho desde o ano passado e que, pela quantidade de lançamentos, não tenho consciência da maioria dos projetos que são realizados ali. Assim, vire-e-mexe, tropeço em algo que meus colegas fizeram e que eu não fazia ideia (juro que sempre fico orgulhoso quando isso acontece!).   


Com tanta gente de ótima qualidade (e próxima) envolvida em um mesmo projeto literário, certamente o resultado não poderia decepcionar os leitores mais exigentes, né? Com tal segurança, coloquei “Maria e o Mundo Mágico” na minha lista de leitura (aquela que parece não ter fim e que cresce diariamente para meu desespero) ainda na metade de 2023. E agora, na sutil calma do período de Festas de final de ano (momento ideal para colocar minimamente as leituras em dia) e aproveitando a produtiva visita de mi hermanita em casa (valeu, Marcelinha, por me trazer tantos livros!), pude conhecer o trabalho literário de Dayana Rampinelli com a profundidade que ele merece.


Publicado em setembro de 2023, “Maria e o Mundo Mágico” possui versões em português e inglês (devidamente chamada de “Mary and the Magic World”) e edições digitais e impressas. Seus exemplares estão disponíveis para o público geral tanto para compra no Brasil quanto nos Estados Unidos. Na terra em que tudo que se planta dá (pelo menos esse era o mantra que reinou por muito tempo entre meus conterrâneos), a obra de Dayana Rampinelli está sendo comercializada pelo sistema de impressão por demanda na Amazon, no Shoptime, no Um Livro e nas Americanas. O tempo para entrega é de aproximadamente uma semana. Esse foi justamente o prazo que minha irmã demorou para receber a obra em sua residência. O preço de capa está em R$ 55,00.


Nos próximos meses, a expectativa é que o título de estreia de Dayana chegue às grandes redes de livrarias nacionais. Na parte de cima do Oceano Atlântico, onde mora o Tio Sam, “Maria e o Mundo Mágico” (no caso, “Mary and the Magic World”) está disponível para compra nas estantes virtuais da Amazon norte-americana. Lá o volume 1 da série literária homônima também pode ser adquirido tanto na versão impressa (por US$ 15,00) quanto na versão digital (por US$ 8,00). Nesse caso, o livro vem somente no idioma inglês.

Publicado em setembro de 2023, Maria e o Mundo Mágico é o primeiro livro infantil de Dayana Rampinelli, escritora e jornalista nascida no interior de Santa Catarina que vive atualmente nos Estados Unidos

Além da venda pelo varejo tradicional, acho legal contar que o livro foi adquirido tão logo saiu da gráfica por algumas escolas particulares e por algumas prefeituras catarinenses interessadas em usá-lo como material didático no ensino da língua inglesa. Dayana tem inclusive um profissional encarregado de fazer o atendimento a essas instituições no Brasil e de efetuar as vendas para o público corporativo. De certa forma, a comercialização da versão bilíngue de “Maria e o Mundo Mágico” ficou concentrada até esse momento nas pessoas jurídicas e não nas pessoas físicas. Só agora, a autora e sua equipe (Eduardo Villela, EV Publicações e Epifania Comunicação Integrada) começaram a cuidar da divulgação do livro para o grande público e a inseri-lo no mercado livreiro.   


Nascida em Criciúma e criada em Nova Veneza, no interior de Santa Catarina, Dayana Rampinelli é formada em Jornalismo. Atuando por mais de duas décadas como produtora de reportagens, roteirista e relações públicas, ela viveu em várias cidades brasileiras e em muitas partes do mundo. Em 2013, fixou residência em Miami, nos Estados Unidos, para ter mais tempo e tranquilidade para se dedicar aos seus empreendimentos artísticos. Além de escritora, Dayana é artista plástica.  


A ideia para escrever a saga de “Maria e o Mundo Mágico” surgiu quase que por acaso. Ao entrar em um café em Florianópolis, cidade onde vivia na época, Dayana começou a rabiscar uma história infantil no guardanapo. O que a motivou no processo criativo foi uma dúvida singela (e não menos incômoda): o que ensinaria para as crianças se tivesse filhos naquele momento?! Escrever sempre fez parte do seu dia a dia profissional e da sua rotina de lazer. Por isso, ela estava acostumada a produzir pequenos fragmentos textuais como o início de tramas ou breves narrativas ficcionais em instantes aleatórios (como na pausa para um cafezinho). Ao chegar em casa, depositou como de costume o guardanapo em uma caixa lotada com outros tantos papéis com ideias para possíveis livros.


Anos mais tarde, em uma sessão de terapia quando já morava nos Estados Unidos, a vontade de escrever uma obra infantil foi aflorada. Ao consultar seus arquivos pessoais (a tal caixa com vários fragmentos textuais que a continuou acompanhando para onde fosse), Dayana encontrou o tal guardanapo florianopolitano que continha detalhes de uma trama interessante sobre a amizade de uma astuta garotinha e seu inseparável cachorrinho. Segundo o que fora concebido, a dupla viveria aventuras por um universo encantado e, com isso, amadureceria e ganharia autoestima. Para admiração da própria escritora, o enredo da publicação e da série literária estava bem formatado. Bastava lapidar um pouco mais a história e desenvolver o restante da narrativa da coleção.


A partir dos questionamentos de como educaria uma criança nos dias de hoje, Dayana Rampinelli utilizou-se muito de suas memórias infantis para dar vida à trama de “Maria e o Mundo Mágico”. O universo onírico e criativo da protagonista da série teve como inspiração direta o dia a dia lúdico e sensível que a autora teve no interior de Santa Catarina quando menina. Estão ali a influência forte da avó, a vontade de ter um animalzinho de estimação, o amor incondicional dos pais, as transformações simbólicas ocorridas nas datas de aniversário, o contato intenso e harmônico com a natureza, a conquista do amor-próprio, a curiosidade para entender como as coisas funcionavam, a criação dos vínculos de amizade, a coragem para explorar novos e distantes lugares e a criatividade para inventar histórias fantásticas.

Ilustrado por Marcelo da Paz, o livro infantil Maria e o Mundo Mágico é o primeiro de quatro títulos de Dayana Rampinelli que tem como proposta desenvolver a criatividade e a autoestima da criançada

Além da trama em si, Dayana inseriu no cerne da narrativa ferramentas que ajudassem a criançada a desenvolver a autoestima. No livro há arquétipos de figuras empoderadas e mensagens positivas como pensar positivo, acreditar em si mesmo e correr atrás dos sonhos. Impossível não gostar de um conteúdo com esse viés, não é? Ou seja, a narrativa foi concebida com a proposta de ser ao mesmo tempo um material educativo e uma leitura recreativa de qualidade. Assim, pode ser usado na sala de aula como pode ser consumido na sala de casa ou no quarto dos pequenos antes de dormir.


Acho válido dizer que o enredo de “Maria e o Mundo Mágico” foi construído sem o estereótipo do príncipe e da princesa que inunda muitas narrativas infantis até hoje. No lugar do reino encantado, dos castelos suntuosos e da família emoldurada em privilégios, temos uma garotinha comum, seu cãozinho de estimação e as brincadeiras da dupla no quintal de casa. E há, principalmente, o conceito do Farol, que tem como simbologia iluminar, guiar e orientar as pessoas durante a viagem pelos mares revoltos da realidade. Por essa perspectiva lúdico-instrutiva, Maria é sua própria heroína. A menina corajosa e destemida vai em busca de seus sonhos e de respostas para as dúvidas intermináveis que não param de chegar à mente.


Nesse primeiro livro da série “Maria e o Mundo Mágico”, conhecemos os dois protagonistas da saga: Maria, que acabou de completar seis anos, e Pop, o cãozinho dado de presente à garota justamente neste aniversário. Eles exploram um Mundo Mágico encontrado no jardim de casa. A partir daí, vivem juntos aventuras que fortalecem os aprendizados e o amadurecimento da menina. Com esse contexto narrativo estabelecido, os demais volumes da coleção vão abordar momentos emblemáticos da trajetória das personagens. Cada nova obra relatará um novo aniversário de Maria e, por consequência, suas peripécias ao lado de Pop pelo universo onírico.


É legal comentar que uma parte das vendas de “Maria e o Mundo Mágico” terá como destino às ações sociais que Dayana Rampinelli realiza em sua cidade natal. Não apenas um percentual do faturamento desse livro (e dos demais da série) será revertido às obras filantrópicas como todo o trabalho artístico dela (incluindo a venda de suas telas) tem essa mesma destinação.


No caso específico das contribuições provenientes do seu trabalho literário, Dayana é mantenedora do Mary and the Magic World English Program. Nesse projeto social educativo, foi construída uma sala de aula com todas as personagens de “Maria e o Mundo Mágico” dentro do Bairro da Juventude, instituição filantrópica de Criciúma que atende a aproximadamente 1.700 crianças. O espaço foi concebido por duas arquitetas contratadas pela escritora e visa estimular o ensino da língua inglesa pelos alunos da segunda infância (dos 3 aos 6 anos) e da terceira infância (dos 6 aos 12 anos). Os pequenos estudantes usam o livro e, principalmente, o universo ficcional da saga de Dayana nas aulas do idioma estrangeiro.

Maria e o Mundo Mágico, ou Mary and the Magic World na versão em inglês, é o livro infantil de Dayana Rampinelli direcionado para crianças de 3 a 9 anos que está sendo comercializado tanto em português quanto em inglês

Para ninguém me acusar de que não falei do ilustrador de “Maria e o Mundo Mágico” com o cuidado que ele merece, reservei dois parágrafos para comentar a trajetória profissional de Marcelo da Paz. Nascido na cidade de São Paulo, ele é designer gráfico há mais de uma década e meia e possui experiências em projetos criativos em grandes agências de publicidade (Promovisão), editoras de livros (Agir, Ediouro e FTD) e veículos de comunicação (Revista Veja e Portal UOL). Atualmente, da Paz trabalha de maneira independente na criação de capas, na diagramação de livros e no desenvolvimento de ilustrações.


Mesmo não o conhecendo pessoalmente, sempre ouço falarem muito bem dele – aí os culpados são o Eduardo, o Paulo, e, mais recentemente, a Dayana. Saber que Marcelo da Paz ficou encarregado do projeto gráfico do livro que escrevemos ou editamos provoca um mix de alívio (certeza de que não teremos problemas nas partes finais do projeto editorial) e empolgação (segurança pela qualidade do visual da obra que sairá da gráfica). Aí sou eu quem falo isso com propriedade.


O enredo de “Maria e o Mundo Mágico” começa na noite anterior ao aniversário de 6 anos de sua protagonista. Maria é uma menina sonhadora e feliz que vive em uma confortável casa com os pais, que tanto ansiaram pelo seu nascimento. A harmonia naquele lar só é quebrada pela ligeira sensação de solidão que a garotinha tem às vezes. Filha única, ela deseja uma companhia para as suas brincadeiras. Por mais que papai e mamãe sejam muito presentes e amorosos, ainda assim seria bom, ela pensa, ter um amiguinho para acompanhá-la em suas aventuras imaginativas ao longo do dia.


Com essa vontade latente, Maria aproveita a véspera de aniversário para mentalizar, à noite na cama antes de dormir, o desejo. Afinal, a mãe a ensinou há muito tempo que quando concebemos mentalmente algo com bastante intensidade, uma hora os sonhos se tornam realidade. E não é que ao acordar a menina encontra os pais na sala com um filhotinho de cachorro marrom (que, conforme a Marcela descobriu na prática, os argentinos chamam de “cachorro de perro marrón”). Aquele é o melhor presente que ela poderia ter ganhado. Sentindo-se no dia mais feliz de sua vida, Maria dá o nome para o cãozinho de Pop.


No dia seguinte, após retornar da escola, a garota vai para o jardim de casa brincar com seu novo amigo. Os dois se divertem até que Maria ouve alguém conversando com ela. Ela procura por uma pessoa por todos os lados, mas não encontra ninguém por perto. Quem é que estaria falando?! Para sua surpresa, o dono daquela voz é o pequeno Pop, que se comunica como os seres humanos. Ele esclarece que tudo aquilo que a garota acredita pode acontecer. Além disso, como Maria ama os animais e a natureza e tem um bom coração, ela pode conversar com os bichos e as plantas.

O livro Maria e o Mundo Mágico, parceria da escritora catarinense Dayana Rampinelli com o ilustrador paulistano Marcelo da Paz, apresenta a amizade lúdica entre uma garotinha de 6 anos e seu esperto cachorrinho de estimação

A felicidade dela aumenta ainda mais. Não apenas tem um cachorrinho para acompanhá-la nas brincadeiras como pode agora conversar com ele. Prontamente, Pop convida a amiga para irem juntos ao Mundo Mágico, um lugar encantado no meio dos arbustos do jardim onde todas as coisas são possíveis. Curiosa para descobrir o que aquele universo tão especial reserva, Maria aceita o convite prontamente. Dessa forma, a dupla segue para o Mundo Mágico em busca de aventuras. Lá, eles vão descobrir, através da imaginação e da criatividade, muitas coisas e vão poder se divertir bastante.


“Maria e o Mundo Mágico” possui 36 páginas. Ele é recomendável para crianças de 3 aos 9 anos. O livro de Dayana Rampinelli pode ser lido pelos pais aos filhos pequenos em fase de alfabetização ou pode ser lido pela própria meninada em processo de letramento. Como não tenho criança pequena em casa (desde que Pescuittinho voltou a viver com a mãe dele em tempo integral), confesso que li a obra sozinho no último final de semana do ano (quando o cheiro dos espumantes já suplantava o dos assados em Saavedra). Levei entre 15 e 20 minutos para ir da primeira à última página. Obviamente, estou considerando também o tempo investido na apreciação das ilustrações, que compõe o conteúdo da publicação juntamente com a parte textual. Dependendo da interação de leitura entre adultos e crianças ou da fase de letramento dos pequenos leitores, certamente o período para percorrer a capa até a quarta-capa pode ultrapassar tranquilamente uma hora.   


O primeiro elemento de “Maria e o Mundo Mágico” que gostaria de destacar neste post da coluna Livros – Crítica Literária é o seu visual. Normalmente, os livros infantis possuem projetos gráficos deslumbrantes e acabamento de nível muito superior. Mesmo sabendo disso, achei que as ilustrações de Marcelo da Paz estão espetaculares nesta obra, acima da qualidade do que encontramos nos títulos desse gênero literário e daquilo que o artista paulistano vem apresentando. Apesar de já conhecer o seu trabalho há algum tempo, confesso que fiquei encantado com o que ele trouxe dessa vez. Se esse não for seu melhor projeto como ilustrador, pare o bonde que quero descer!


Há várias questões técnicas em seus traços em aquarela que me agradaram bastante. Para não ficar detalhando tudo, posso citar alguns elementos. Por exemplo, a mudança de tonalidade das ilustrações de quando Maria e Pop saem do mundo real e embarcam no Mundo Mágico é impactante. Se as cores predominantes nas páginas iniciais de “Maria e o Mundo Mágico” eram claras e neutras (branco, verde e azul), no universo onírico elas se tornam mais fortes e lúdicas (amarelo, laranja, vermelho e rosa). Esse contraste torna a experiência de leitura mais fidedigna. A impressão que temos é de estar mesmo mergulhando com a menina e o cachorrinho em suas aventuras por um lugar muito especial e com características particulares. Essa é a força dos desenhos bem-feitos.


Outra questão que merece elogios é a harmonia entre a parte gráfica e a parte textual de “Maria e o Mundo Mágico”. Pode parecer um tanto óbvio entrelaçar essas duas seções do livro infantil, mas saiba que muitos títulos pecam justamente por construírem duas linhas distintas: a verbal e a não verbal. Assim, desenho e história não se conversam (no pior dos casos) ou não possuem grande afinidade (o que é mais comum). Aqui nota-se o cuidado de promover a união deles. Pelo resultado, posso apostar que Dayana Rampinelli e Marcelo da Paz trabalharam juntos e com esmero na definição de cada detalhe do visual das páginas dessa publicação.

Primeiro volume da série literária infantil que terá quatro títulos, Maria e o Mundo Mágico é o livro de Dayana Rampinelli que foi lançado no Brasil e nos Estados Unidos na versão impressa e na versão digital

O mais espetacular é que a narrativa de “Maria e o Mundo Mágico” não decepciona quando comparada à qualidade do visual do livro. Se o projeto gráfico e as ilustrações são belíssimas, a história também é poética e extremamente bonita. Nesse ponto é importante reparar no subtexto de Dayana. A maneira como a autora aborda conceitos como solidão, amizade, carinho familiar, sonhos, busca por afirmação, amadurecimento, saudade/gratidão, autoestima, iniciativa, independência, cuidado com o meio ambiente e zelo pelos animais é sutil e graciosa (e, por isso mesmo, está tão incrível!).


A riqueza textual fica mais clara quando a escritora catarinense explica a razão pela qual Maria ouve o que Pop fala – “(...) Se você ama os animais e tem um bom coração, pode conversar com a gente, e juntos podemos criar muitas coisas lindas” – ou quando detalha a dinâmica do Mundo Mágico – “(...) um lugar onde todas as coisas são possíveis”, “(...) por que as crianças mudam de cor aqui? (...) as pessoas são das cores de que você gosta. Você vai vê-las com seus olhos e seu coração”, “(...) lá encontraram uma pequena cidade, onde as casas eram todas iguais e pareciam pequenos castelos” e “seu coraçãozinho acredita que animais podem falar, você acredita que existe um mundo enorme cheio de criatividade”.


Repare que Dayana Rampinelli aborda temas importantes para a formação das crianças de maneira franca e bonita sem perder o lado lírico que a boa literatura exige. Ela fala de um jeito delicado sobre o cuidado com a fauna e a flora, a importância da igualdade social, a recordação da avó carinhosa e o fim dos preconceitos raciais. Por tal perspectiva, admito que gosto mais dos autores que valorizam a inteligência dos leitores, até mesmo dos pequenos leitores. Não é porque são crianças que as histórias devem subestimar suas capacidades intelectuais ou os textos devem ser pouco elaborados. Pelo contrário! Potencializar seus desenvolvimentos cognitivos e desde cedo apresentar narrativas com grande riqueza textual contribuem para suas formações humanísticas e literárias (daí a pegada instrutiva de “Maria e o Mundo Mágico”). Quando sabemos que os leitores mirins desse livro estão na segunda ou na terceira infâncias, fases de formação do caráter, da concepção do mundo e do processo de alfabetização e letramento, essa preocupação com a qualidade da trama é ainda mais válida.


Prosseguindo no lado (in)formativo desta publicação, acho genial a ideia de o livro envolver o aprendizado do inglês durante o processo de leitura. É triste reconhecer, mas somos um país em que o idioma considerado mundial é pouco difundido na base da sociedade. É só lembrarmos os perrengues que os turistas gringos enfrentaram na Copa do Mundo de 2014 no Brasil e das Olimpíadas do Rio em 2016. Essa deficiência passa justamente pela má educação linguística nas escolas públicas. Há quem diga que nossas instituições educacionais gratuitas não conseguem sequer ensinar o português, o que dirá um idioma estrangeiro! Assim, é sensacional saber que há prefeituras e escolas catarinenses que estão incorporando o volume 1 da série “Maria e o Mundo Mágico” no material didático da meninada. Ainda há esperança, senhoras e senhores!


Infelizmente, não posso comentar a qualidade do material em inglês porque a versão da obra que comprei veio apenas em português. Confesso que essa foi a minha primeira frustração. Achei que todas as edições da publicação de Dayana já viessem nos dois idiomas. Contudo, o livro vem ou em português (versão disponível para o público leitor no Brasil) ou em inglês (versão disponível para o público leitor nos Estados Unidos e para os projetos corporativos nas escolas e prefeituras brasileiras). Ou seja, “Maria e o Mundo Mágico” é bilíngue, mas suas edições são monolíngues. Se eu tivesse uma criança em casa e quisesse explorar a educação do idioma inglês, teria ficado muitíssimo frustrado com a ausência dessa parte importante da narrativa em minha aquisição.

Publicado em setembro de 2023, Maria e o Mundo Mágico é o primeiro livro infantil de Dayana Rampinelli, escritora e jornalista nascida no interior de Santa Catarina que vive atualmente nos Estados Unidos

Voltando para os aspectos que gostei em “Maria e o Mundo Mágico” (mais à frente neste post do Bonas Histórias prometo apresentar a compilação de tudo aquilo que acredito que poderia ser aprimorado nesta publicação e/ou nos próximos volumes da série), achei brilhante o jeito como Dayana Rampinelli montou a moldura narrativa desta coleção. Para quem acha que estruturar uma história ficcional que possa ser repetida muitas vezes (ou quem sabe infinitamente) é algo banal, alerto desde já que se trata de um enorme desafio (pelo menos é para a maioria dos escritores). Sofri (ou ainda sofro!) com isso na própria pele. Darico Nobar e seu Talk Show Literário são a prova cabal do que digo. Por isso mesmo, achei interessantíssimo ver que a moldura narrativa em que “Maria e o Mundo Mágico” foi concebida (menina que viaja pelo universo encantado com seu cachorrinho na data de aniversário) seja tão natural, simples e poética. Se quiser, Dayana pode dar vazão a essa dinâmica em muitos e muitos livros.


Por essa mesma razão (fluidez com que a moldura narrativa foi constituída), considerei o primeiro volume da saga uma obra impecável no quesito da estrutura narrativa. A autora apresenta as personagens, insere o ambiente da(s) trama(s), informa as condições para a realização da(s) história(s) e dá um exemplo rápido do que o Mundo Mágico oferece à dupla de protagonistas. A partir daí, será fácil e rápido desencadear o enredo dos futuros títulos da coletânea. Uma vez que os leitores já compreenderam o processo narrativo, eles conseguirão acompanhar as novas histórias sem dificuldade.


É impossível comentar a história de “Maria e o Mundo Mágico” e não mencionar “Alice no País das Maravilhas” (Cosac Naify), clássico infantil de Lewis Carroll. O Mundo Mágico para onde Maria e Pop embarcam é muito parecido em concepção ficcional ao País das Maravilhas para onde Alice se mete. Lendo o livro de Dayana, confesso que a todo momento me recordava da obra-prima do escritor inglês. Aí não sei se as semelhanças são propositais, em uma intertextualidade literária primorosa à la “O Livro” (Feminas), prosa poética de Lucia Leal Ferreira, ou se são mera coincidência (ou algo feito pela autora catarinense sem a devida consciência). Independentemente da resposta, os leitores com o mínimo de bagagem literária farão essa correlação entre os dois títulos sem sombra de dúvida.


Talvez a grande diferença entre “Maria e o Mundo Mágico” e “Alice no País das Maravilhas” esteja na proposta das narrativas. Enquanto a publicação de Dayana Rampinelli é voltada essencialmente para as crianças e aborda a busca pela autoestima e o incentivo à conquista dos sonhos íntimos, a obra de Lewis Carroll é quase uma representação satírica da realidade e propõe um debate existencialista focado no público adulto. Portanto, (como diria o outro!) são coisas iguais, mas muito diferentes.


Em relação aos pontos negativos de “Maria e o Mundo Mágico”, posso começar citando a falta de numeração. O projeto gráfico do livro está realmente primoroso, mas a ausência de número nas páginas é um aspecto que me incomodou um pouco. Por exemplo, eu gostaria de relatar nesta análise do Bonas Histórias quais as ilustrações que eu mais gostei. Porém, fica complicado descrevê-las pois não há numeração. Juro que não entendi o porquê não colocaram – se é algo tão simples e banal no mercado editorial e nos projetos gráficos dos livros.  

Ilustrado por Marcelo da Paz, o livro infantil Maria e o Mundo Mágico é o primeiro de quatro títulos de Dayana Rampinelli que tem como proposta desenvolver a criatividade e a autoestima da criançada

Outra questão que precisa ser comentada é que algumas frases (principalmente na abertura e no encerramento da narrativa) misturam os tempos verbais de uma maneira no mínimo questionável. Talvez elas até estejam corretas (sinceramente, achei equivocadas!), mas soou estranho fazer construções frasais embaralhando presente, passado e futuro.


Deixe-me explicar exatamente o que quero dizer. Peguemos a frase inicial da história de “Maria e o Mundo Mágico”: “Maria foi para a cama muito feliz, ela adora aniversários e amanhã quando acordar terá uma linda surpresa”. Convenhamos que não é normal ter três tempos verbais em uma só oração. Ainda mais porque a narrativa inteira está no passado (com o discurso no presente – como convém na tradição da ficção literária). Portanto, me pareceu errado dizer que a menina “adora” aniversários – juro que usaria “adorava”.


No desfecho da trama encontramos o mesmo problema. Diz a primeira frase do parágrafo final da última página: “Maria tinha ainda mais certeza de que todas as aventuras são possíveis e de que toda a magia pode acontecer”. Olha aí outra vez os verbos insistindo em ficar no presente quando a narrativa toda está no passado. Por que isso? Juro que não entendi. Nesse caso, eu acho mais adequado grafar: “Maria tinha ainda mais certeza de que todas as aventuras eram possíveis e de que toda a magia poderia acontecer”. Não ficaria melhor assim?! Acho que sim.


Curiosamente, esse problema do tempo verbal (algumas passagens que deveriam estar no passado foram grafadas no presente) só apareceu mesmo no início (primeira página) e no fim da narrativa (última página). Nas outras páginas do livro (miolo da publicação), não encontrei nenhum equívoco no texto que soasse estranho (pelo contrário, a parte textual está brilhante!).


Por falar na narrativa, talvez o tom de voz do cachorrinho me pareceu muito adulto e formal. Assim como Maria é ainda uma criança, Pop aparece nas ilustrações e no contexto dramático como um filhotinho (até mesmo mais novinho do que a própria menina). Dessa forma, ele deveria falar como uma criança e não como um adulto. Além disso, ele não teria experiência de vida nem conhecimento prático ou conceitual para ensinar tantas coisas para a nova amiguinha. Seguindo o pacto ficcional, seria ela quem o ensinaria e não o contrário. Porém, os discursos de Pop soam como alguém mais velho e com muita experiência. Confesso que não gostei dessa inconsistência: um cachorrinho recém-nascido ou muito novinho vir com falas de alguém conhecedor do mundo e da dinâmica social.

Autora do livro Maria e o Mundo Mágico, uma das boas novidades da literatura infantil no Brasil em 2023, Dayana Rampinelli é escritora, jornalista e artista plástica

Outro elemento que me decepcionou um pouco foi o pouco tempo em que Maria e Pop ficaram efetivamente no Mundo Mágico nesse primeiro volume da série (mais precisamente 7 páginas de 36 páginas). Sei que esse livro inaugural da saga serviu apenas para apresentar o contexto narrativo, as características da dupla de protagonistas e a construção da moldura narrativa (a partir da data de aniversário, a menina e seu cachorrinho partem para aventuras em um universo encantado). Também tenho consciência de que títulos infantis não podem ser longos (não apenas por uma questão de manutenção do foco das crianças, mas por princípios comerciais – muitas páginas coloridas inviabilizariam o livro do ponto de vista dos custos ou do preço de capa). Mesmo entendendo tudo isso, ainda assim admito que queria ter visto mais cenas de Maria e Pop no Mundo Mágico. Até porque essa parte foi a que apresentou os textos mais bonitos e as ilustrações mais impactantes.


Talvez o que eu tenha sentido é que o livro acabou precocemente. Juro que eu queria que ele continuasse. Nesse caso, não se trata de um defeito, mas de algo positivo (quando gostamos de uma história, não queremos que ela acabe nunca, não é?). Sinceramente, acho que foi mais vontade da minha parte de conhecer as próximas aventuras dos protagonistas de “Maria e o Mundo Mágico” do que um defeito para valer desse primeiro volume da série.   


Por isso, se você for como eu e estiver ansioso(a) pela continuação dessa trama, a boa notícia é que o segundo título da série já está sendo desenvolvido e a previsão é que fique pronto até o final deste ano. Ou seja, seu lançamento deve acontecer nos meses finais de 2024 (em uma estimativa otimista) ou mesmo no comecinho de 2025 (em uma estimativa realista). Uma vez que os elementos principais da história já foram colocados à mesa nesse primeiro volume, espera-se que o volume 2 da coleção “Maria e o Mundo Mágico” possa concentrar seu conteúdo justamente nas descobertas de Maria e Pop no universo onírico.


Conversando informalmente com Dayana, o que ela adiantou sobre o novo livro é que ele trará alguns conceitos do Budismo e do Shinto Shuai, filosofia japonesa que estimula a conexão das pessoas com a natureza. Além disso, ela pretende mostrar aos poucos para os pequenos leitores que o mundo mágico não possui apenas aspectos maravilhosos e idílicos. Há também problemas, dificuldades e limitações, algo que as crianças precisarão aprender a lidar cedo ou tarde. Confesso que gostei da inserção desses componentes mais pragmáticos. Por fim, vale a pena ressaltar que o novo título se passará no aniversário de 8 anos de Maria (reforçando a importância da celebração desta data na vida da protagonista).


Diante da expectativa elevada pela sequência de uma das boas séries da literatura infantil que temos em nosso país no momento, prometo trazer novidades no Bonas Histórias tão logo elas apareçam nas livrarias. Vou comunicar o lançamento das demais publicações da saga “Maria e o Mundo Mágico/Mary and the Magic World” na coluna Mercado Editorial. E se eu gostar dos novos conteúdos produzidos pela dupla Dayana Rampinelli e Marcelo da Paz, saibam que voltarei à coluna Livros – Crítica Literária para debater as futuras obras deles com a profundidade e o rigor em que estamos acostumados.


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