• Ricardo Bonacorci

Livros: Nação Crioula - O terceiro romance de José Eduardo Agualusa


Li, no último final de semana, “Nação Crioula” (Gryphus Editora), o terceiro romance de José Eduardo Agualusa, o escritor que está sendo analisado neste mês no Desafio Literário. Vale lembrar que, na sexta-feira passada, dia 6, comentamos no Bonas Histórias “A Conjura” (Gryphus Editora), a obra de estreia do autor angolano. De certa forma, “Nação Crioula”, que será discutido no post de hoje, dialoga intimamente com “A Conjura”. Afinal, ambos os livros denunciam o racismo e a exploração dos negros durante o período colonial português. Esses temas não compuseram o plano principal de, por exemplo, “Estação das Chuvas” (Quetzal), o segundo romance de Agualusa. A narrativa de “Estação das Chuvas” abordou a biografia da historiadora angolana Lídia do Carmo Ferreira, desaparecida durante a Guerra Civil de seu país na década de 1990.


“Nação Crioula” é uma trama histórica desenvolvida por meio de uma narrativa epistolar. Ambientado na segunda metade do século XIX, este livro apresenta tanto a luta abolicionista em Angola quanto a violência praticada pelos portugueses na África durante o período colonial. Na construção deste enredo, José Eduardo Agualusa mistura realidade e ficção e faz uma interessante intertextualidade literária (ele pega emprestado uma personagem de Eça de Queiroz para protagonizar seu romance e utiliza o próprio escritor português como uma de suas personagens). O resultado é um dos trabalhos literários mais engajados de Agualusa e um dos títulos ficcionais mais elogiados da atual literatura angolana.


Publicado em 1997 em Portugal e Angola e no ano seguinte no Brasil, “Nação Crioula” possui o subtítulo “A Correspondência Secreta de Fradique Mendes”. A obra conquistou, em Portugal, o Grande Prémio Literário RTP de 1998 como o melhor romance em língua portuguesa daquela temporada. Parte da aclamação da crítica literária se justifica pelo fato de José Eduardo Agualusa ter reconstruído a história colonial portuguesa a partir do ponto de vista do povo negro escravizado (uma inovação e tanto). Apesar do protagonista do romance ser um fidalgo lusitano, a personagem mais emblemática deste título é Ana Olímpia, uma mulher negra que foi escravizada duas vezes, uma delas depois de ter se tornado uma pessoa livre. Além disso, a narrativa percorre três continentes (Europa, América e África) e, assim, relaciona intimamente as histórias de Portugal, Brasil e Angola em uma saga única e indivisível.

O enredo de “Nação Crioula” inicia-se em maio de 1868 em Luanda, a capital angolana. Carlos Fradique Mendes, um aventureiro português do tipo bon vivant, desembarca na África ao lado de Smith, seu bom e leal assistente escocês. A ideia de Fradique é conhecer a realidade da colônia portuguesa e desbravar o interior da África, uma terra cercada de mistérios, misticismos e enigmas. Como é um fidalgo rico e de reputação ilibada na Europa, Fradique é recebido com pompas por Arcénio de Carpo, um comerciante local muito rico e que fez fortuna com o tráfico de escravos negros. É na casa de Arcénio que o português fica hospedado durante sua estadia em Angola.


Um mês após sua chegada à colônia, Fradique é convidado para ir ao Baile do Governador, festa que reúne a nata da elite angolana. Lá, ele conhece Ana Olímpia, uma moça linda e com uma história de vida surpreendente. Filha de um rei congolês, ela se tornou escrava em Angola ainda pequena, quando seu pai foi capturado e preso. Seu dono era Victorino Vaz de Caminha, um próspero comerciante de escravos de Luanda. Quando Ana Olímpia se tornou adolescente, Victorino, encantado com sua beleza, decidiu se casar com a jovem. Assim, do dia para a noite, a até então escrava se transformou em uma das damas mais ricas de Angola. Apesar de ter ficado apaixonado à primeira vista por Ana Olímpia, Fradique não conseguiu ser, à princípio, nada mais do que um bom amigo desta dama. Afinal, ela era uma mulher casada e não pensava em trair o marido.


Contudo, alguns anos mais tarde, quando Victorino Vaz de Caminha já havia falecido, a situação mudou totalmente. Viúva (e única herdeira do marido), Ana Olímpia não impôs obstáculos ao português e os dois começaram a namorar. Em uma de suas viagens para a Europa, Fradique fica sabendo que sua amada está correndo perigo em Angola. Com a chegada de Jesuíno Vaz de Caminha, o maldoso irmão de Victorino, à Luanda, Ana Olímpia foi feita novamente escrava. Como Victorino tinha se esquecido de dar a carta de alforria à esposa quando se casou com ela, Jesuíno se aproveitou desse detalhe burocrático para inverter o jogo. Além de se apoderar da fortuna deixada pelo irmão (aos olhos da lei, Jesuíno era agora o único herdeiro de Victorino), ele fez a jovem viúva voltar a condição de escrava (sem carta de alforria, ela não era uma mulher livre).

Quando Fradique retornou à Angola para auxiliar a namorada naquele imbróglio, ele descobriu que seu amigo Arcénio de Carpo estava indignado com a situação de Ana Olímpia. Por isso, já tinha tomado à frente para resolver aquela tramoia de Jesuíno. Depois de tentar todas as formas legais para devolver a liberdade à moça, Arcénio decidiu matar o irmão de Victorino. Só assim, acreditava, poderia fazer justiça. Não é preciso dizer que rapidamente o conflito entre Arcénio de Carpo/Fradique Mendes e Jesuíno Vaz de Caminha adquiriu tons beligerantes, em que qualquer passo em falso de um dos lados poderia representar a morte. Inicia-se, assim, a longa batalha de Fradique para tornar Ana Olímpia novamente uma mulher livre e feliz. Nação Crioula é o nome do navio negreiro que o casal de namorados foi obrigado a pegar, como passageiros clandestinos, para fugir para o Brasil.


O leitor fica sabendo desses episódios (e do restante da trama, que vai até agosto de 1900) à medida que lê a correspondência do protagonista. Todo o texto de “Nação Crioula” (na verdade, quase todo: há uma quebra dessa lógica nos dois últimos capítulos do livro) é baseado nas cartas que Carlos Fradique Mendes enviou à sua madrinha, Madame de Jouarre (que vive provavelmente em Paris), à Ana Olímpia, sua amada, e ao Eça de Queiros, seu amigo de longa data (que vivia nesta época em Newcastle, Inglaterra). É através do seu texto epistolar que Fradique se torna o narrador do romance. A explicação de como essas cartas foram reunidas (afinal elas foram enviadas pelo português e não recebidas por ele) surge nos últimos dois capítulos da obra (um trecho de um livro de Eça de Queiroz e uma carta de Ana Olímpia).


“Nação Crioula” é um livro curtinho. Ele tem apenas 160 páginas, que estão divididas em 26 capítulos. Cada capítulo é uma carta do narrador-protagonista. Precisei de apenas quatro horas, no último domingo, para concluir integralmente esta leitura. De tão breve que é esta narrativa, não estranharia se alguém a classificasse como uma novela ao invés de um romance.


Esta obra de José Eduardo Agualusa pode ser vista como uma mistura de “Escrava Isaura” (Autêntica), clássico do brasileiro Bernardo Guimarães, com “A Morte de Matias Pascoal” (Nova Alexandria), romance do italiano Luigi Pirandello, “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (Abril), drama do alemão Johann Wolfgang von Goethe, e “Doze Anos de Escravidão” (Seoman), autobiografia do norte-americano Solomon Northup. Da trama brasileira, a semelhança está no desespero de uma mulher que ganhara a liberdade e se viu obrigada a voltar à condição de escrava. Do clássico italiano, temos um narrador-protagonista que se finge de morto para evitar problemas e perseguições. A história alemã, por sua vez, é lembrada pela narrativa epistolar recheada de ações e reviravoltas. E a biografia do norte-americano fica em nossa mente pois “Nação Crioula” tem um pé na realidade (personagens, situações e episódios verídicos surgem no meio da ficção). Como fruto dessa combinação, assistimos a uma contundente crítica à escravidão e ao racismo.

Será que Agualusa tinha essas referências em mente quando começou a produzir este romance? Não tenho a resposta exata para essa pergunta, mas fico inclinado a dizer que sim. “Nação Crioula” é um livro que possui fortíssima intertextualidade literária. Além do narrador ser uma figura fictícia pega emprestada da literatura de Eça de Queiroz e um dos personagens do romance angolano ser o próprio autor português, José Eduardo Agualusa cita em sua trama vários outros nomes de destaque da literatura em língua portuguesa e da literatura internacional. Há, por exemplo, referências a Gregório de Mattos, Victor Hugo, Charles Baudelaire, Gustave Flaubert, Honoré de Balzac, Théophile Gautier, Alphonse Lamartine, Homero, Dante Alighieri, Castro Alves, Mikhail Bakunin, Voltaire e Gonçalves Dias. Ou seja, é difícil crer que o angolano não conhecesse os trabalhos de Bernardo Guimarães, Luigi Pirandello, Goethe e Solomon Northup.


Um dos aspectos mais interessantes de “Nação Crioula” está nas contradições de suas personagens. Agualusa construiu, na maior parte das vezes, personagens redondas. É legal notar que as figuras boazinhas não são tão boazinhas assim (ou pelo menos têm comportamentos questionáveis no meio do caminho). Carlos Fradique Mendes, o narrador-protagonista, é alguém que mergulha de cabeça na causa abolicionista. Contudo, ele sempre foi um aventureiro irresponsável e pouco preocupado com as questões sociais. Suas preocupações, antes de conhecer Ana Olímpia, eram usufruir a sua fortuna e viajar a lazer pelo mundo. Em outras palavras, nosso herói era fútil e egoísta. A própria Ana Olímpia é uma personagem riquíssima do ponto de vista ético. Após se tornar uma mulher livre e muito rica, ela não deu alforria aos seus escravos. Dizia ter se afeiçoado demais aquelas pessoas para deixá-las partir. É ou não é uma contradição absurda?! Outra personagem maravilhosa é o velho Arcénio de Carpo. Ele é o amigo mais leal de Fradique, de Victorino Vaz de Caminha e de Ana Olímpia. Beleza até aí. Porém, ele havia enriquecido como traficante de escravos negros. Paradoxalmente, ele defendia a liberdade de Ana Olímpia, mas tinha escravizado centenas ou milhares de negros ao longo das últimas décadas.


Outra questão que precisa ser elogiada é o ritmo ágil da narrativa de “Nação Crioula”. Se você tem a impressão de que um romance epistolar é algo arrastado, enfadonho e com poucas emoções, saiba que você será surpreendido com esta obra de José Eduardo Agualusa. Este livro é um autêntico road story que transita maravilhosamente bem pela história de Portugal, do Brasil e de Angola. Essa junção do passado dos três continentes encaixa muitas peças que tradicionalmente ficam soltas na cabeça dos leitores. Além disso, não faltam cenas de ação e reviravoltas nesta narrativa. Assim, sua leitura se torna agradável e muito veloz. À título de comparação, fui da primeira à sua última página em apenas duas sentadas.

Para ajudar ainda mais na construção histórica de “Nação Crioula”, Agualusa utilizou-se de dois ótimos expedientes narrativos: (1) o uso de figuras verídicas no meio da trama ficcional; e (2) o uso predominantemente do tom romântico (o termo romântico refere-se aqui ao período do Romantismo, corrente literária em voga na época em que esta história está ambientada, o século XIX).


A mistura de figuras reais com personagens fictícios torna “Nação Crioula” uma narrativa extremamente fidedigna. A impressão que temos é de estar acompanhando uma biografia verídica. Para o leitor brasileiro, essa experiência é até mais intensa porque desfilam pelas páginas desta obra muitos compatriotas históricos e reais, boa parte deles relacionados aos ideais abolicionistas. São os casos de José do Patrocínio, Luís Gama, Joaquim Nabuco e André Rebouças.


A pegada romântica de “Nação Crioula” aparece desde o tipo de narrativa utilizada (o romance epistolar era muito comum no Romantismo) e o subtítulo gigantesco (uma prática mais comum no século XIX) até o tom passional e ideológico do texto (típicos da segunda e da terceira fase romântica, respectivamente) e o comportamento impulsivo e radical das personagens (ao melhor estilo Eça de Queiroz).


Curiosamente, “Nação Crioula” possui muitas semelhanças e várias diferenças em relação a “A Conjura”. Por exemplo, os dois livros de Agualusa tratam do racismo e da crueldade da colonização europeia na África e na América Latina. Entretanto, “A Conjura” foca mais no processo de independência de Angola e do Brasil e no combate ao racismo dos colonizadores (e deixa em segundo plano a questão da abolição da escravatura). Em “Nação Crioula” temos o inverso. A questão da abolição salta para o primeiro plano (enquanto a independência das colônias e o combate ao racismo vão para o segundo plano). Os dois livros têm forte componente político em sua ambientação e abordam sociedades secretas (aqui o enfoque é na Sociedade do Cupim, uma organização antiescravista). Além disso, eles exploram o Realismo Fantástico de maneira inteligente e saborosa. Ambas as narrativas também possuem no meio do seu texto pequenas histórias (quase contos) que ajudam a ilustrar a realidade retratada. Porém, em “Nação Crioula”, essas tramas independentes estão atreladas ao conflito principal, algo que não acontecia em “A Conjura”. No primeiro romance de Agualusa, por exemplo, as pequenas tramas independentes tinham mais vida do que o conflito principal (algo que confundia a cabeça do leitor).

Apesar de representarem uma ruptura estética com o que estava sendo praticado até ali (mudança de narrador e uso de trecho intertextual), os dois últimos capítulos de “Nação Crioula” são importantes para juntar as peças soltas do quebra-cabeça narrativo. Assim, o desfecho justifica a existência desta história e responde à questão: como as cartas escritas por Fradique foram coletadas? Sem uma resposta plausível para essa pergunta delicada, teríamos um erro crasso de foco narrativo.


Por falar em estética literária, não temos em “Nação Crioula” uma experiência linguística tão rica quanto a encontrada em “A Conjura”. Vale lembrar que no primeiro romance de Agualusa tínhamos o português africano como um dos elementos mais charmosos da estrutura textual. A explicação para essa ausência agora está devidamente justificada na própria construção narrativa. Como o narrador de “Nação Crioula” é um português, não fazia sentido ele falar como um africano. Assim, não temos a riqueza e o colorido da versão africana do idioma de Camões.


O único ponto negativo de “Nação Crioula” é o seu projeto gráfico. Ao menos a edição brasileira (da Editora Gryphus) tem um visual horrível. A sensação que tive é que fizeram o livro sem muito cuidado (na quarta-capa, o texto está na vertical!) e com a preocupação de diminuir ao máximo o número de páginas (assim, o prefácio de Hermano Vianna está em uma letra minúscula). Um romance desta qualidade merecia um acabamento estético/visual melhor por parte dos seus editores.


O próximo livro que será analisado no Desafio Literário é “O Vendedor de Passados” (Tusquets), a obra-prima de José Eduardo Agualusa. Publicado em 2004, este romance conquistou o Prêmio Independent de 2007 na Categoria Ficção Estrangeira. Os comentários sobre “O Vendedor de Passados” estarão disponíveis no Bonas Histórias no próximo sábado, dia 14. Não perca!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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