• Ricardo Bonacorci

Livros: A Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso em um Armário Ikea - O best-seller de Roma


Acabei de ler um livro muito interessante que me fez refletir sobre alguns pontos da vida. A obra se chama "A Extraordinária Viagem do Faquir que Ficou Preso em um Armário Ikea" (Record) e foi escrita por Romain Puértolas. O livro se tornou um grande sucesso na França, país natal do escritor, e já ganhou versões em mais de trinta países, entre eles o Brasil.

O ponto central dessa publicação é o humor (já começa pelo título estrambótico). O enredo é simples e curiosíssimo. Um indiano chamado Ajatashatru Ahvaka Singh (a maioria dos personagens do livro tem dificuldades para pronunciar este nome, gerando várias interpretações bisonhas) é um faquir que decide viajar para a França para comprar uma cama de 15 mil pregos (utilizada corriqueiramente pelos faquires para dormir) em uma loja da Ikea (rede sueca de mobiliário com presença em muitos países europeus). Para conseguir o dinheiro para sua viagem, o rapaz, humilde e de poucas posses, teve de enganar os habitantes da sua localidade indiana.

Ajatashatru é na verdade um especialista em ludibriar as pessoas. Para resumir, ele é um grande trambiqueiro. Nem faquir de fato ele é. Os faquires na cultura indiana são os milagreiros com poderes espirituais. Eles levam uma vida de pobreza e desprendimento material. Em compensação, são evoluídos espiritualmente e possuem elevada habilidade mágica, atributos estes colocados à serviço da população. O personagem principal de "A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário Ikea" tem como única qualidade a habilidade espantosa de enganar os outros.

Com o dinheiro obtido dos amigos e dos conterrâneos, Ajatashatru parte para a França. Lá chegando, decide dormir à noite dentro da própria loja de móveis, pois não tinha dinheiro para pagar uma estadia na capital francesa. Ele voltaria para a Índia no dia seguinte, trazendo a tão sonhada cama. Eu disse voltaria...

O problema é que o indiano, em determinado momento da noite, precisou se esconder dentro de um armário para escapar dos funcionários do estabelecimento. Por obra do destino, o armário escolhido como esconderijo pelo indiano foi despachado para a Inglaterra em uma encomenda feita por um cliente. Começava aí o périplo surreal do indiano. Ele viajou por vários países do mundo das maneiras mais bissaras e divertidas possíveis (ora dentro de um armário da Ikea, ora dentro de uma bolsa Louis Vuitton), transformando-se em um imigrante ilegal.

O livro de Puértolas trata de temas delicados com inteligência, leveza e humor. O principal assunto debatido é a imigração ilegal na Europa, uma questão que vem ganhando repercussão mundial pela maneira pouca eficiente e nada humana com a qual os países europeus estão tratando os estrangeiros. O humor da obra serve para jogar ainda mais luz sobre esse grave problema.

Ao ler o livro francês, lembrei imediatamente do filme "A Vida é Bela" (La Vita é Bella: 1997) do italiano Roberto Benigni, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro no ano de 1999. Nesse longa-metragem, um judeu é enviado para um campo de concentração com seu filho pequeno durante a Segunda Guerra Mundial. O pai, um homem simples, amoroso e com grande senso de humor, cria uma realidade paralela para não preocupar a criança com os acontecimentos a sua volta. Assim, o filho passa a acreditar que os dois estão participando de um jogo, não percebendo o horror no qual estão inseridos.

Muita gente criticou na época a obra prima de Benigni. O principal argumento dessa turma era que não havia razão para brincar com assuntos delicados como a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e o antissemitismo. Para o cineasta italiano, a vida era bela e tudo podia ser encarado com um olhar positivo e animador. Até mesmo um campo de concentração nazista.

Compartilho dessa visão do cineasta italiano (e agora do escritor francês). Precisamos olhar a nossa vida de maneira positiva, por mais difícil que a realidade se mostre às vezes. Devemos nos divertir com as nossas limitações, com os nossos erros e com as dificuldades impostas pelo cotidiano. Infeliz daquele que não consegue rir de si próprio. O humor (quando bem utilizado) é uma arma poderosa para apontar os problemas do dia a dia e para se fazer críticas veladas ou ácidas da nossa sociedade e do comportamento humano.

Jamais me esquecerei da narrativa de um amigo quando foi pela primeira vez fazer um tipo de exame médico. Na situação constrangedora para qualquer homem, meu amigo conseguiu produzir uma história divertida e cômica. Também me recordo quando uma tia minha viu sua casa invadida por uma família de ratos. O relato dessa história é hilário na boca dela. Mesmo sendo dona de casa e prezando pela higiene do seu lar, minha tia não se furta em apontar as cenas pitorescas da família de roedores aprontando em sua residência. E para terminar, uma amiga teve o seu relacionamento de muitos anos interrompido por causa de uma traição. O pior é que ela pegou o noivo em fragrante em sua cama. Ela adora contar essa história para todo mundo, destacando os aspectos engraçados do fato (ela consegue extrair graça nisso, fazer o que?).

Como é bom rir da vida e das situações. Como é bom encontrar o lado engraçado de todos os fatos, mesmo aqueles com tons um pouco mais tristes e aparentemente desagradáveis. Quando encaramos a realidade com um olhar positivo, nossa existência se torna mais saborosa e plausível. Repare como é interessante ficarmos perto de pessoas divertidas e como é bom interagirmos com obras culturais (livros, filmes, peças de teatro) engraçadas. Esses momentos se tornam mais marcantes e memoráveis. Veja o exemplo das propagandas. Conseguimos recordar com mais facilidade, depois de muitos anos, as que nos fizeram morrer de rir. Esse é o grande mérito do humor: tocar fundo na alma das pessoas, "destrancando" suas amarras e os seus medos.

"A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário Ikea" é uma leitura agradável e muito divertida, constituída de muitos elementos surreais. Como é bom conhecer um livro inovador e corajoso por utilizar do humor escrachado e com pitadas de nonsense.

Para quem não gosta de livros grandes, esse é ideal. Com pouco mais de 250 páginas, essa obra foi publicada em um tamanho reduzido, tornando sua leitura ainda mais rápida. É um livro para se lido em uma única tarde. Sabe aquele final de semana chuvoso em que não há nada interessante para fazer? Ele combina perfeitamente com o "A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário Ikea".

Boa leitura e boas risadas.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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