• Ricardo Bonacorci

Crônicas: Eu e o Mundo - 2 - Quando Deixamos de Ser Jovens?


Estou com um problema sério. Sei que não sou mais jovem, mas também não me sinto velho. Tenho 33 anos e não sei em qual patamar estou: se mais perto dos jovens ou se mais perto dos velhos! Dependendo do ambiente onde estou e das pessoas com quem interajo, sou classificado de maneira distinta. Daí minha dúvida. Não sei se essa ambiguidade é típica da minha idade ou se ela é sentida também por pessoas de outras faixas etárias. Escrevendo assim pode parecer estranho esse meu questionamento. Por isso, me sinto na obrigação de explicá-lo.

Minha dúvida sobre em qual estágio da vida estou se acentuou nas últimas semanas com minha decisão de voltar para a sala de aula como aluno. Eu sou publicitário de formação (graduação) e possuo também uma pós-graduação (em Gestão da Inovação) e uma especialização (Administração de Empresas). Entretanto, sempre gostei muito de ler e escrever e alimentava um antigo sonho de fazer uma faculdade de Letras. E depois de muito adiar, resolvi, enfim, me matricular em um curso de graduação desta área.

E para meu espanto, recebi comentários indignados de alguns familiares e amigos: "Outra faculdade? Você não está velho para isso?!", "Você não tem mais idade para essas coisas..." e "Na sua idade, é melhor fazer uma pós e não uma graduação". Recebi as críticas com paciência e compreensão, analisando bem o que essas pessoas queriam me indicar. Na opinião geral, eu era velho demais para frequentar novamente um curso de graduação. Não combinava comigo (e principalmente com a minha faixa etária) prestar um vestibular e me matricular em uma faculdade.

Obviamente, não concordei com aquela sentença dos meus conhecidos. Aprender, assim como tantas outras coisas da vida, não tem limitação de idade ou tempo determinado para ser realizado. Quem disse que apenas os garotos e as garotas de dezoito, dezenove, vinte e vinte e poucos anos podem fazer faculdade? Quem disse que apenas as crianças e os adolescentes podem fazer viagem de intercâmbio cultural para outros países? Em muitos casos, vejo as pessoas mais velhas aproveitando mais e melhor esses cursos e essas viagens quando comparadas ao público mais jovem. Seguindo essa linha de pensamento, quem disse que apenas os jovens de vinte e trinta anos podem se casar? Vejo cada vez mais casais com muitas décadas nas costas constituindo novas famílias através de relacionamentos saudáveis e felizes. Matrimônios estes até mais interessantes se comparado aos da "molecada".

Assim, desde quando alguém com trinta e poucos, quarenta e tantos, cinquenta e poucos, sessenta ou oitenta e muitos anos é velho? É maluquice pensar dessa forma. A geração dos meus pais, por exemplo, na casa dos sessenta anos, deve viver na plenitude da saúde física e mental por mais quarenta anos (a média de vida será de cem anos para eles – considerando as variáveis econômicas e geográficas). E aí, se eles entrarem hoje em uma faculdade de quatro anos, terão trinta e seis anos de uma nova atividade profissional pela frente. Se casarem novamente, terão um longo período (quatro décadas) para usufruir da nova família e do novo matrimônio. É muito tempo para ser desperdiçado!

Trinta e seis ou quarenta anos é tempo à beça! Não dá para dizer, sem cometer injustiças, que eles sejam velhos com tanto caminho ainda pela frente. Nesse caso, como posso me considerar um senil se não vejo meus pais nessa condição? Seria o único filho velho de pais jovens no mundo...

Diferente do senso comum, o tempo do ser humano não é mais um recurso escasso. Pelo contrário. Ele tem se tornado um recurso muito abundante em nossa sociedade. Não é raro encontrarmos pessoas em condições físicas e mentais para trabalhar e para exercitar uma atividade desperdiçando os seus dias não fazendo nada. Quantos aposentados e quantas aposentadas ficam vagando pelas cidades se sentindo tediosos por não ter nada para fazer, enquanto poderiam muito bem estar fazendo algo produtivo.

Se minha geração viver também até os cem anos em plena forma, tenho quase setenta anos pela frente. Setenta! É muita coisa para eu me sentir velho agora. Uma faculdade é algo menor que eu posso fazer. Tenho tempo para mudar duas ou três vezes ainda de profissão e realizar coisas até então imagináveis antes de morrer.

Fiz minha primeira graduação com dezoito anos. A minha segunda agora é com trinta e três. E a próxima, será com quantos anos? Quarenta? Cinquenta? Qual curso será que desejarei me aventurar depois de terminar Letras. Sempre gostei de História. E Jornalismo? É tentador pensar sobre isso.

Voltando a pergunta inicial de minha reflexão: qual é a idade oficial para deixarmos de ser jovens e passarmos a ser velhos? Não sei. Essa dúvida é cada vez maior em nossa sociedade. Vejo senhores de cinquenta e sessenta anos correndo nos parques da cidade com mais saúde, fôlego e qualidade de vida do que muitos rapazes de dezoito anos. Vejo mulheres de quarenta e cinquenta anos tentando engravidar enquanto as de vinte tentam evitar se tornar mães. Quem é o velho e quem é o jovem nessas comparações? Sinceramente não sei.

Sendo jovem ou velho, só sei que minhas aulas começam em fevereiro. Não vejo a hora delas se iniciarem. Desejem-me sorte!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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