• Ricardo Bonacorci

Crônicas: Eu e o Mundo - 3 - Uma Partida de Tênis no Parque


Por que resolvi colocar os pés na rua hoje?! Essa foi a pergunta que me fiz ao final do trágico domingo. Ao invés de ficar tranquilo em minha casa, assistindo ao futebol na televisão e tomando uma cervejinha gelada no sofá, como estava acostumado a fazer desde sempre, decidi largar o sedentarismo e me exercitar. Correr no parque de manhã foi o programa escolhido. Basicamente, foram dois os motivos que me levaram a esta radical mudança de hábito: não havia nenhum jogo sendo transmitido pela TV nesse final de semana e minha calça jeans mais larga não havia fechado na última vez que tentara usar. Ou seja, eram dois acontecimentos muito tristes que exigiam uma atitude drástica da minha parte.

Assim, parti de manhãzinha para o Parque Villa-Lobos para aproveitar de maneira positiva o calor do verão paulistano. O céu ensolarado, quase sem nuvens, era um convite traiçoeiro à prática aeróbica. Uma vida saudável, atlética e, principalmente, em forma (resumindo: com uma paz relativa com a balança) não é conseguida sem grandes sacrifícios. É preciso sofrer para se obter o que se deseja! O que eu não sabia era o quão trágica poderia ser uma visita corriqueira ao parque em um final de semana de janeiro.

Após ter me exercitado por quase duas horas, mesclando longas caminhadas com algumas corridas leves, comecei a procurar um lugar para comprar água. Gostaria de saber quem foi que projetou um parque gigantesco como esse e se esqueceu de inserir quiosques de bebida e comida! Na certa, o arquiteto, o urbanista ou sei lá o nome de quem cria áreas verdes em metrópoles nunca frequentou esse tipo de local ou jamais fez atividades físicas na vida. Essa é a única explicação para seu desconhecimento das necessidades mais elementares dos atletas amadores. Nós precisamos nos alimentar e nos hidratar. Em outras palavras, precisamos repor as energias gastas.

Enquanto caminhava a procura de água (uma caminhada cada vez mais desesperada, admito), descobri que aconteceria ali, dentro do Villa-Lobos, a final do Aberto de Tênis de São Paulo, um torneio profissional e internacional dessa modalidade. Uma das vantagens de se morar em São Paulo é esta: você descobre o tempo inteiro algo acontecendo na cidade. Os caras podem não se lembrar de hidratar e alimentar os usuários do parque, mas não se esquecem de montar um bom torneio esportivo para atrair a atenção do público.

A partida começaria às 11 horas em uma arena montada especificamente para a competição. O jogo final seria disputado entre o brasileiro Thiago Alves e o português Gastão Elias. Fazendo jus à minha total ignorância no universo do tênis, eu nunca tinha ouvido falar nesses jogadores. Mesmo assim, decidi ficar para ver a disputa. Eu jamais assistira a uma partida deste esporte ao vivo e fiquei interessado em vê-la.

Ok! Preciso reconhecer que o fato de minhas energias terem sido totalmente consumidas nas últimas duas horas também me incentivou a querer ficar sentado por algum tempo. Mesmo não entendendo nada de tênis (quando digo nada, é nadinha mesmo!), só de imaginar ficar paradinho na arquibancada por vários minutos já me deixou mais feliz. Além disso, a fila para entrar na arena era grande. Como um bom paulistano, eu me amarro em uma fila. Aqui, a gente pensa: "Se esse bando de gente está indo para lá é porque o lance vai ser bom. Também vou!". Todas as filas quilométricas de Sampa começam dessa maneira.

Depois de comprar algumas garrafinhas de água (ufa, achei um quiosque! Obrigado, meu Deus!), fui para a arquibancada da arena. Aí, surgiu a primeira curiosidade. Diferentemente de um estádio de futebol, local que estou mais acostumado a frequentar, o melhor lugar para se assistir às partidas de tênis é atrás da quadra. Assim, a pessoa não precisa ficar virando para lá e para cá seu pescoço o tempo todo. Falando assim, parece um tanto óbvia essa informação. Entretanto, quando eu percebi ou me lembrei disso, a arquibancada já estava lotada e eu não podia mais mudar de assento. Eu havia sentado no meio da quadra... Raiva!

A segunda particularidade é: nos jogos de tênis, o público não pode conversar. Não sei o motivo exato dessa norma. Parece que os jogadores se desconcentram com o falatório vindo da arquibancada. Quanta frescura! O difícil foi explicar isso para minha amiga Thalita, que me acompanhava nessa grande aventura pelo mundo dos esportes. Ela ficou um tanto chocada quando a alertei para os olhares raivosos que vinham em nossa direção. Infelizmente, os demais torcedores não estavam aprovando o alto tom da voz dela nem a iniciativa da moça de querer conversar comigo. O ápice do mal-estar ocorreu quando um dos jogadores em quadra se incomodou com o toque do telefone celular dela. O som do aparelho era a risada do Pica-pau, aquele personagem do desenho infantil. Só mesmo a Thalita para me aprontar algo assim... Que vergonha! Com alguma diplomacia, pedi para ela não falar mais comigo e para desligar o celular. Pedir essas duas coisinhas para uma mulher é correr risco de morte! Não é à toa que, depois disso, a Thalita passou a me tratar de maneira fria e pouco simpática no restante do domingo. Na certa, me culpava por não tê-la defendido contra a ira de três mil pessoas e da etiqueta antiquada dos tenistas profissionais.

A terceira diferença do tênis para o futebol (ou para qualquer outro esporte sensato) é que o público não pode sair do seu lugar durante a disputa das jogadas. É preciso esperar o término dos games ou do set para se entrar ou sair da arena. As portas ficam fechadas por alguém da organização. Eu descobri isso da pior maneira possível. Depois de ter tomado quase um litro de água, minha bexiga estava quase transbordando quando os jogadores resolveram disputar um equilibradíssimo game. Enquanto o público delirava, eu me contorcia na arquibancada para segurar os líquidos dentro de mim. A Thalita disse que a disputa demorou quinze minutos. Para mim, pareceu ter demorado muito, muito mais!

E para terminar, a quarta curiosidade desta modalidade diabólica é: um jogo de tênis não tem hora para terminar. Ele pode durar menos de uma hora ou pode se alongar por mais de cinco horas. O tempo total depende do desenrolar e do equilíbrio da partida. E quando a disputa é realizada sob o sol do meio dia, em um dia de verão de uma cidade tropical, é bom a plateia ter passado protetor solar e estar usando boné. Infelizmente, nem eu nem a Thalita havíamos pensado nesse detalhe. Até tiramos um sarro de uma garota que estava sentada a nossa frente. Ela estava de boné, de camisa de manga comprida e de calça esportiva. "Ela deve estar imaginando que estamos no inverno para vir vestida assim, coberta dos pés à cabeça", disse baixinho a Thalita (Ela fez isso antes do pacto de silêncio ter sido decretado entre nós). Só quando fomos embora, completamente queimados pelo sol, entendemos o motivo da esperta garota ter se protegido dos fortes raios solares.

Para resumir a história: eu jamais voltarei a uma quadra de tênis novamente. É horrível! Tênis só é bom quando calçado nos pés. Essa é a verdade! Para não correr riscos de entrar em novas frias como essa, eu comunico também que abandonei as corridas nos parques aos finais de semana. O lance mais divertido do domingo é ficar em casa sentado à frente da televisão assistindo a um joguinho de futebol e tomando uma cervejinha bem gelada. Fazer isso enquanto sentimos nossa barriguinha crescer é maravilhoso. Isso sim é vidão! Isso sim é verão! Um homem trabalha incansavelmente a semana inteira esperando unicamente esse momento sublime de sua existência.

Às vezes, acho que deviam obrigar a ter futebol na TV todo domingo, independentemente da época do ano ou das festividades. O que fazem os políticos em Brasília que não votam rapidamente uma lei que regulamente uma lei desse tipo? Pensando nas possíveis respostas para essa última questão, é melhor enterramos definitivamente esse assunto. Não está mais aqui quem falou!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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