• Ricardo Bonacorci

Crônicas: Eu e o Mundo - 5 - A Joaninha e a Aranha


Eu fiquei confuso. Muito confuso! O que fazer? Apoiar a aranha ou salvar a joaninha. Às vezes, nessa vida, precisamos tomar decisões importantes rapidamente, mas não sabemos como agir. Isso aconteceu comigo há algumas horas. Estava no jardim da minha casa no final da tarde deste domingo quando vi uma bela joaninha voando. Ela era linda. Vermelha, rechonchuda e grandona. Depois de planar um pouco, ela pousou no gramado do jardim. Sem muito o que fazer naquela hora do dia, eu fiquei observando a cena com atenção.

O belo inseto pousou na grama rala e começou a andar pelo terreno. O passeio da joaninha foi interrompido bruscamente quando ela encostou na parede lateral do jardim. Ela ficou estática, reparei, tendo muita dificuldade para sair dali. Sem entender sua paralisia, precisei me aproximar para ver melhor.

A joaninha tinha caído em uma teia de aranha. A aranha, dona dos fios tecidos, tinha prendido sua vítima e a estava agora atacando. Era o jantar perfeito para um domingo. A presa era apetitosa e gigantesca.

O meu instinto inicial foi salvar a joaninha. Não era justo deixar um inseto tão bonito morrer de forma tão trágica, vítima de uma aranha má e cruel. Na hora de desprender o bichinho da teia, pensei novamente no meu ato. O que eu estava fazendo? Se eu intercedesse, a aranha iria se dar mal. Seria justo com ela? O aracnídeo, talvez, tenha passado horas, dias ou semanas esperando uma refeição apetitosa e quando tem a oportunidade de fazê-la, eu apareço para atrapalhar. Fiquei imaginando alguém tirando da minha boca um suculento pedaço de picanha. Eu ficaria doido da vida se fizessem isso comigo!

Dessa maneira, o que eu podia fazer? Salvar a joaninha ou deixar a aranha se divertir?! Qualquer medida iria beneficiar alguém e prejudicar a outra parte. Parei e fique analisando a situação por alguns minutos. Eu tinha certo tempo, pois a joaninha era grande e a aranha parecia não conseguir matá-la rapidamente, apesar de tê-la prendido bem.

Depois de muito refletir, cheguei a uma conclusão: não cabia a mim tal escolha. Não deveria agir. Eu não pertencia aquele jardim e não seria justo se eu intercedesse naquela história. Quem eu pensava ser? O super-homem com capacidade de salvar o mundo? Não. Eu sou apenas um "zé mané" a se meter na história da joaninha e da aranha. Se eu agisse seria com algum viés equivocado: salvando a bela joaninha só porque ela era visualmente agradável ou deixando aflorar o instinto faminto da aranha só porque ficamos com dó de quem passa fome. A verdade é que não era justo a minha ação. A briga entre as duas precisava ser resolvida por elas mesmas. A mais forte, a mais rápida e a mais astuta seria a vencedora do confronto. Não é essa a teoria de Darwin, afinal?

A decisão tinha sido tomada. Não faria nada. Melhor ainda. Iria embora. Não queria também ficar vendo aquele embate cruel. Quando estava saindo do jardim, fui surpreendido pela chegada do meu pai. O patriarca da família, vendo minha curiosidade, resolveu conferir o que se passava. Ao avistar a joaninha, ele não pensou duas vezes. Tirou-a da teia e a fez voar. Quase dei um pulo quando vi seu gesto. Bradei para ele não interceder. Aquilo era injusto. Aquilo era indigno. Aquilo era cruel. Aquilo era antinatural. Aquilo era brincar de Deus!

Meu pai não entendeu nada das minhas palavras e do meu discurso inflamado. Para ele, ele só tinha salvado uma joaninha de uma aranha. Para mim era muito mais do que isso. Ele tinha impedido uma aranha de jantar um inseto. Por mais que eu explicasse o meu ponto de vista e argumentasse que não deveríamos ter feito nada para impedir o desfecho da cena, meu pai não me deu ouvidos e retornou para dentro da casa com a sensação de dever cumprido. Na certa, refletiu também se eu não teria endoidecido.

Esse post é apenas um desabafo. Precisava compartilhar com alguém essa história.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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