• Ricardo Bonacorci

Livros: Terra Sonâmbula - A obra-prima de Mia Couto


"Terra Sonâmbula" (Companhia das Letras) foi o primeiro romance publicado por Mia Couto, em 1992. Até então, o escritor moçambicano só tinha lançado poesia ("Raiz de Orvalho e Outros Poemas", de 1983) e contos ("Vozes Anoitecidas", de 1986, e "Cada Homem é uma Raça", de 1990). Depois de “Terra Sonâmbula”, foram publicados mais 12 romances: "A Varanda do Frangipani" em 1996, "Mar Me Quer" em 1998, "Vinte e Zinco" em 1999, "O Último Voo do Flamingo" em 2000, "O Gato e o Escuro" em 2001, "Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra" em 2002, "A Chuva Pasmada" em 2004, "O Outro Pé da Sereia" em 2006, "O beijo da Palavrinha" em 2006, "Venenos de Deus, Remédios do Diabo" em 2008, "Antes de Nascer o Mundo" em 2009 e "A Confissão da Leoa" em 2012.

Entretanto, apesar da variedade de títulos, "Terra Sonâmbula" continua sendo a principal obra do escritor. O romance recebeu, em 1995, o Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos. Anos mais tarde, foi considerado pelo júri da Feira do Livro de Zimbabwe como sendo um dos doze melhores livros africanos do século XX. Dessa forma, Mia Couto deixou de ser um autor nacional e ganhou reconhecimento internacional. Suas obras passaram a ser publicadas em Portugal e no Brasil. Sua literatura ganhava maior dimensão.

"Terra Sonâmbula" conta, à princípio, uma "dupla" história. O menino Muidinga, um órfão da Guerra Civil, conflito que durou de 1976 a 1992 e explodiu na sequência da Guerra de Independência, que durou de 1965 a 1975 (ou seja, o país africano ficou praticamente 27 anos em combate constante), vaga a esmo pelas estradas da destruída e violenta Moçambique. Ele é acompanhado pelo amigo idoso Tuahir, chamado pelo garoto de tio. Os dois fogem das barbaridades da guerra e tentam sobreviver em uma nação pobre, violenta e sem esperanças. Depois de muito caminhar, a dupla acha um ônibus incendiado na beira da estrada. Passam, então, a utilizar o que sobrou do veículo como abrigo. Junto ao ônibus há vários corpos carbonizados e uma mala contendo cadernos com os relatos de outro menino, um tal de Kindzu. As anotações são um tipo de diário onde Kindzu conta a história de sua vida.

Para conhecer a trajetória do jovem das páginas dos cadernos, Muidinga passa a ler, todas as noites, para Tuahir as aventuras de Kindzu. A partir daí, as histórias dos dois meninos caminham em paralelo. Cada capítulo do livro de Mia Couto é dedicado a uma das histórias: ora foca-se no presente de Tuahir e Muidinga, ora, através do recurso de flashbacks, apresentam-se as desventuras de Kindzu. Apenas no final do romance podemos compreender (Cuidado, cuidado: Aí vai um baita spoiler! Se não quiser saber o desfecho da trama, pule imediatamente para o próximo parágrafo) que as duas histórias se unem de alguma forma.

Mia Couto escreveu um romance cheio de fantasia. Ele utiliza como elemento narrativo a cultura africana com suas magias, seus fantasmas e suas crendices. Por exemplo, o pai de Kindzu recebe previsões sobre o futuro através de sonhos e, depois de morto, aparece para o filho constantemente. O administrador de um povoado, Estêvão Jonas, faz acordos comerciais com o fantasma de um português falecido, Romão Pinto. Em determinada passagem, explica-se o motivo das panelas começarem a rachar quando aquecidas no fogo: "Se as panelas começaram a rachar é porque alguém andou namorando esta noite. Quintino me explicou: num lugar novo, como aquele, ninguém pode fazer namoros, nos primeiros tempos. Para os que chegam, aquele campo era recente, cheio de interdições. Violar essa espera iria trazer grande desgraça. Agora os velhos do centro queriam saber quem foram os autores da desobediência".

A prosa é poética, típica do autor e inspirada em Guimarães Rosa: "Molhado, quase líquido, o dia brotava das fundas águas do Índico. Se ergueu com a soberania das coisas derradeiras. E a terra se via estar nua, lembrando distante seu parto de carne e lua"; "Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo do não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra"; e "Minha alma era um rio parado, nenhum vento me enluava a vela dos meus sonhos. Desde a morte de meu pai me derivo sozinho, órfão como uma onda, irmão das coisas sem nome".

A narração é marcada pela oralidade. Escreve-se como o povo moçambicano retratado fala. "É que estou grávida, maistravez"; "Esse monhé, cabrão, ainda lhe lixam antes de eu sacar vantagem do meu negócio..."; e "Mulato cornudo, despacha-te!". Ler "Terra Sonâmbula" é praticamente viajar para Moçambique e ficar na rua ouvindo as pessoas conversarem.

Há a criação de vários neologismos, como nessa passagem: "A canoa se ondeava, adormentada em águas perdidas. Meu peito bumbumbava, acelerado”. Se em uma frase achamos três palavras criadas por Mia Couto, imagine ao longo do livro inteiro. Os exemplos de neologismos são vastos: pontapina, choraminguante, cantarinhar, escãozelada, direitamento, Carolinda, exactamesmo, administraidor, timiudamente, desmeiada, nenhures, facocherando, anichavam, doidoendo, pensageiro, peixava, alicatéia, xicalamidades, aguou, abismalham, calcorrear, alavraram, esperantes, arreliação, matraquear, dormitoso, pernalteava, lamentochão, desexistir, descaminhou, desbotura, desencostadas, passarinhando, troteondeando, africandade, pirilampejava, abichado, desandarilho, desenrasca, calafriorento, cambalinhando, deslocalizara, saltinhador, miraginações, descaminhei, abismaravilhado, , inutensílio, nuventa, palmando, anjonautas, desarrascava, boquiaberturas, infanciando, inaposento, saltinhadores, convinvência, gesticalada, cabedaloso, esbarrigados, espalhafarto, invencionices, vagueandear e sozinhidão.

Para quem é brasileiro, ver os termos e as palavras típicas de Moçambique é muito interessante. Por exemplo: "No sossego, sou cego; na timaca não vejo" (timaca é confusão, briga); "Veja essa corda, satanhoco. Veja!" (satanhoco é uma espécie de impropério similar a sacana); "Matem-me esse muenhé, eram os gritos do mandador dos assaltantes" (muenhé é a maneira informal de expressar a palavra monhé, um depreciativo da palavra indiano); e "Contempla o miúdo, lhe adivinha a idade de começar namoros" (miúdo significa garoto, menino, pequeno). Há vários outros casos de palavras tipicamente moçambicanas: nhamussoro é feiticeiro, chissila é maldição, facholos é enxadas, machamba é terreno agrícola, minhufas é medo, cipaio era o policial negro nos tempos coloniais e chambocado é vara, pau.

O nome do livro faz referência ao país e ao período de tempo no qual a história se passa. Para Mia Couto, Moçambique era uma localidade que vivia, durante a Guerra Civil, em um estágio intermediário entre o sono profundo e o acordar (daí o estado de sonambulismo). A própria paisagem da história tem vida. Segundo a constatação das personagens da obra, não são elas que vão avançando pela estrada e sim a estrada que vai andando. Para o menino Muidinga, mesmo ficando parado, o cenário a sua volta vai mudando constantemente. Assim, a terra e o lugar são importantes personagens do enredo. Mesmo sonâmbulos, eles interferem na vida e na realidade de quem está a sua volta.

A leitura é muito agradável e leve, apesar do ambiente pesado e violento no qual a história está inserida. No meio da Guerra Civil, a fome, o medo, a violência, a corrupção, as maldades e as privações são uma constante. Mesmo assim, Mia Couto mostra a importância de sonhar e ter esperanças que dias melhores virão. Ele ilumina os amores entre homens e mulheres, as amizades genuínas e as lutas pela sobrevivência. Ao mesmo tempo, acaba retratando a decadência moral do seu país e da sua sociedade, com as quebras dos laços familiares e a deterioração dos valores morais.

"Terra Sonâmbula" é uma bela fábula do tempo da Guerra Civil moçambicana. Com certeza, quem lê este livro não se arrependerá por ter entrado em contato com o universo cultural e com os problemas tão típicos da África, às vezes tão distantes e incompreendidos por nós brasileiros.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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