• Ricardo Bonacorci

Livros: Dona Flor e Seus Dois Maridos - O maior sucesso de Jorge Amado


Admito que li "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (Companhia das Letras) imbuído de grande expectativa. Esta é uma história clássica da literatura brasileira. E, infelizmente, eu ainda não havia interagido com ela como deveria. Não apenas não tinha lido a obra impressa de Jorge Amado como não havia visto o filme, a peça de teatro nem a série televisiva. Ou seja, parti como um grande ignorante do assunto. Nem mesmo o enredo da trama eu tinha conhecimento.

Jorge Amado escreveu "Dona Flor e Seus Dois Maridos" na metade da década de 1960. A obra foi publicada em 1966. Considerado um dos romances mais conhecidos do escritor baiano, tanto nacional quanto internacionalmente, a história de Florípedes e seus dois maridos foi levada ao cinema, ao teatro e à televisão com grande sucesso.

Ambientada na Salvador dos anos de 1940, a narrativa aborda o dia a dia da capital baiana com grande realismo, contando o que acontecia na noite boêmia dos cassinos, nos prostíbulos, nos bares da cidade, nas casas das famílias (tanto as ricas quanto as pobres) e os hábitos alimentares e musicais da população. E ela retrata, principalmente, os valores morais da época, com suas crenças, seus preconceitos e as práticas religiosas.

A história deste livro aborda o drama de Florípedes, uma jovem baiana de rara beleza, muito sensual e proprietária e professora da escola de culinária "Sabor e Arte". Chamada por todos de Flor ou Dona Flor, ela perdeu o primeiro marido, Vadinho, morto durante o Carnaval, muito cedo. Eles estavam casados há apenas sete anos e ela tinha menos de trinta anos quando ficou viúva.

Vadinho era um malandro, boêmio, alcoólatra, viciado em jogo e mulherengo. Enquanto foi casado com Dona Flor, Vadinho não largou sua vida desgarrada que tinha na época de solteiro. Por causa disso, a moça foi obrigada a aturar a infidelidade, as noites de farra, a vida boêmia, as bebedeiras e a jogatina desenfreada do marido. Vadinho vivia exclusivamente para a esbórnia e para os amigos. Nas mãos dele, Dona Flor viveu intensa paixão, principalmente na cama, mas também momentos de agonia e solidão, quando era abandonada em casa à noite, sem saber onde o marido estava.

A viuvez a deixou triste e abalada emocionalmente. Mesmo com todos os defeitos de Vadinho, Dona Flor era apaixonada por ele. Querendo esquecer o passado e começar uma vida nova, passado o período de luto, a moça ficou noiva outra vez e se casou pela segunda vez. O novo marido, dessa vez, era Teodoro, um farmacêutico quarentão, rico e muito bem conceituado na cidade. Ele era o oposto de Vadinho. Fiel, metódico, trabalhador, zeloso com o dinheiro dele e da esposa e respeitoso (até demais, na opinião de Flor), Teodoro trouxe uma vida tranquila e harmônica para a esposa, o que ela sempre sonhara. Entretanto, Dona Flor sentia falta da paixão e do jeito malandro de Vadinho. Sentia saudades, principalmente, do corpo dele e das intermináveis e abusadas práticas sexuais do primeiro marido. Diante do desespero provocado pelo saudosismo, Dona Flor passou a pedir a volta do finado. Depois de tanto pedir, ele realmente volta do além.

Vadinho retorna para Dona Flor provocando um caos na vida da boa mulher. Somente ela era capaz de vê-lo. Ele também conseguia se comunicar com alguns amigos, o que provocou uma grande confusão nos cassinos da cidade, mas os antigos companheiros não conseguiam vê-lo. A única com essa capacidade era mesmo Flor. O primeiro marido passa a se atirar sobre o corpo da antiga esposa, querendo fazer sexo com ela a todo o momento, como antigamente. Dona Flor, uma mulher honrada e fiel a Teodoro, recusa apesar de dividida entre as vontades carnais e as obrigações sociais.

"Dona Flor e Seus Dois Maridos" narra o drama de uma mulher apaixonada por dois homens, ambos seus maridos, com características completamente opostas um do outro. Enquanto o primeiro está morto, mas é um voraz predador sexual e um galanteador nato, o segundo é disciplinado, honrado, mas tedioso. Ora Flor se inclina para um, ora para outra. A dúvida de quem ela deve escolher é o grande mote da obra. Quem ela escolherá: o malandro Vadinho ou o bom Teodoro? Só saberemos no último capítulo, nas duas últimas páginas.

"Dona Flor e Seus Dois Maridos" é um livro incrível. Extremamente populista com vasto repertório de cenas do cotidiano brasileiro. Como uma boa obra de Jorge Amado, a sensualidade e o erotismo são acentuados, até mais do que em "Gabriela, Cravo e Canela" (Companhia das Letras). E por falar em "Gabriela, Cravo e Canela", no começo achei a história de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" muito parecida com a da antiga obra de Amado (uma personagem feminina muito sensual, com forte instinto sexual e uma cozinheira de mão cheia, os dramas sociais provocados pelo casamento e os episódios do cotidiano). Contudo, a medida que a história de Dona Flor vai sendo contada, ficam nítidas as diferenças. Na metade da obra, praticamente não me lembrava mais de "Gabriela".

Gostei deste livro. Jorge Amado, com sua literatura envolvente e muito visual, consegue novamente nos hipnotizar e nos levar para a Salvador da década de 1940. É incrível como é possível visualizar as ruas da capital baiana, com suas comidas, suas práticas religiosas, os hábitos dos seus habitantes e as intrigas sociais estabelecidas.

O único aspecto negativo desta obra é seu ritmo. Considerei-a muito mais lenta do que os outros livros lidos ("Capitães de Areia", "Gabriela, Cravo e Canela" e "A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água"). Por exemplo, o grande mote da história é a volta de Vadinho do "céu" e a dúvida de Flor sobre o que fazer (se entregar ao primeiro marido ou se manter fiel ao segundo esposo?). Porém, Vadinho só volta para atazanar a antiga mulher na página 360. 360 para chegarmos ao clímax! Ou seja, a parte mais importante ficou renegada para o final do livro. Até chegarmos aí, Jorge Amado discorre longamente e pausadamente sobre cada aspecto da vida de Dona Flor. As vezes, é um pouco cansativo e entediante. Não senti isso nas outras obras de Amado.

Esta é uma história sobre os costumes morais de uma época. O que uma mulher casada deve fazer: se entregar ao amor carnal do primeiro marido ou ao amor respeitoso do segundo esposo? Esta dúvida irá infernizar os pensamentos da personagem principal. A decisão de Flor, de certa forma surpreende, no final. Jorge Amado é mesmo um mestre da literatura nacional. Como é bom ler suas obras!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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