• Ricardo Bonacorci

Livros: Quem é Você, Alasca? - A estreia com o pé direito de John Green


Depois da leve decepção ao ler "Cidades de Papel", admito que fiquei muito satisfeito com o que encontrei em "Quem é Você, Alasca?" (Intrínseca). Desta vez, John Green mostrou todo o seu repertório habitual e seu talento para contar uma boa história. Gostei muito desta obra.

"Quem é Você, Alasca?" foi o livro de estreia de John Green. Lançada em 2005, esta obra rapidamente caiu no gosto do público e recebeu muitos elogios da crítica especializada. No ano seguinte ao lançamento, a publicação ganhou o prêmio Michael L. Printz da American Library Association (ALA) como a melhor obra infanto-juvenil do ano, catapultando a carreira de John Green e o tornando um fenômeno literário instantaneamente. Vale destacar que a premiação de um escritor novato pela ALA é algo extremamente raro.

Mesmo com pouco tempo desde o seu lançamento (dez anos), para muitos críticos, "Quem é Você, Alasca?" já se tornou um clássico da categoria infanto-juvenil, marcando uma época e colocando o nome de Green na história. Assim, enquanto "A Culpa é das Estrelas" representou a afirmação do estilo literário de John Green e aumentou o sucesso dele junto aos fãs, "Quem é Você, Alasca?" significou a inserção do nome do norte-americano entre os grandes escritores contemporâneos, projetando os holofotes do mercado para o autor e atraindo as análises dos críticos para suas obras.

A história deste livro é sobre a vida do adolescente Miles Halter. Logo no início da obra, Miles decide abandonar a vida sem graça e pacata levada na Flórida. O adolescente não aguenta mais morar com os pais nem aguenta frequentar sua escola, onde não tem nenhum amigo. Seu plano é se mudar para um colégio interno no Alabama, chamado Culver Creek. Trata-se da mesma escola frequentada pelo pai e por boa parte da sua família no passado. Lá o rapaz pretende buscar o "Grande Talvez", conforme as últimas palavras proferidas pelo escritor François Rabelais e registradas em sua biografia. Miles é obcecado por ler biografias de grandes personalidades históricas e memoriza as últimas palavras ditas por essas pessoas. O "Grande Talvez" é a esperança do jovem em poder viver intensamente e descobrir coisas novas em sua nova vida longe dos pais e a sua cidade natal.

Conforme o idealizado, assim que Miles Halter chega a seu novo colégio, ele faz amigos e ganha um apelido destes: Bujão. Os amigos de Bujão são Chip Martin, mais conhecido como Coronel, Alasca Young e Takumi Hikohito. O trio ensina o novato a beber, a fumar, a se relacionar com as garotas e a se virar no novo ambiente. Além disso, o grupo é especialista em se meter em confusões. Eles adoram pregar trotes nos professores, no diretor da instituição (Sr. Starnes, chamado pelos alunos de Águia) e nos alunos considerados inimigos (estudantes ricos que não dormem no colégio interno durante os finais de semana). Coronel, Alasca e Takumi são o que podemos chamar dos piores alunos da escola.

Depois de se habituar à nova escola e se entrosar com esses amigos "barra pesada", Bujão se vê apaixonado por Alasca. O amor platônico do rapaz é em parte correspondido pela garota. Ela parece gostar dele, mas ao mesmo tempo ratifica o tempo inteiro que é fiel e que ama o namorado, não querendo nada com Miles. Além disso, Alasca tem o gênio forte e sofre de algo parecido com a bipolaridade. Às vezes ela está bem-humorada e de repente ela fica mal-humorada sem um motivo aparente. Às vezes ela está conversando e interagindo com os amigos e, em alguns instantes depois, ela se torna arisca e introspectiva.

Quando finalmente consegue beijar Alasca, em uma noite em seu quarto, Bujão se vê surpreendido na manhã seguinte com uma notícia que mudaria sua vida para sempre (se você ainda não leu o livro e deseja lê-lo, pare a leitura deste parágrafo neste ponto, e a retome no parágrafo seguinte - não quero estragar a leitura de ninguém). O evento na ótica dos alunos da Culver Creek e principalmente do trio de amigos Bujão-Coronel-Takumi é comparado em magnitude ao 11 de Setembro, às Grandes Guerras Mundiais e à chegada do Homem à Lua. Trata-se da morte de Alasca em um acidente de carro naquela madrugada. Totalmente embriagada, a jovem saiu misteriosamente do quarto de Bujão e pegou a estrada. E o carro dela se checou com a viatura policial parada no meio do trajeto (havia ocorrido um acidente na via). Alasca morreu instantaneamente, provocando grande comoção nos dias seguintes em sua escola. Assim, Miles juntamente como Coronel e Takumi passam a investigar os motivos que levaram a amiga falecida a dirigir sem condições naquela madrugada.

"Quem é Você, Alasca?" é um livro excelente. Ele consegue retratar os dramas, as incongruências, os desejos e os medos dos adolescentes como poucos. Muita gente compara esta obra ao "O Apanhador no Campo de Centeio" (Editora do Autor) de J. D. Salinger. A força dessa história está no processo de amadurecimento do personagem principal. Existem dois Miles: um antes de chegada ao colégio interno e outro depois. Inclusive ele ganha um novo nome (apelido) quando chega à escola do Alabama, como se fosse novamente batizado (como se nascesse de novo). O livro também sobre uma grande transformação. Há duas histórias praticamente distintas, uma antes do acontecimento decisivo que mudará a vida de todos os personagens (bem no meio do livro) e outra depois. Neste último ponto, devemos resaltar a habilidade de John Green. A segunda metade do livro estava fadada a se tornar chata e arrastada por causa dos acontecimentos precedentes, porém o escritor consegue fazer a trama ficar aquecida e interessante. É de tirar o chapéu.

Gostei também das polêmicas lançadas por Green durante a narrativa. Há cenas de sexo de adolescentes e várias passagens nas quais os jovens bebem e fumam excessivamente. Ou seja, nada que não aconteça na realidade, mas que suscitam às vezes críticas dos mais conversadores. Além disso, a riqueza dos personagens principais é grande. Miles e seus amigos são difíceis de serem definidos. Eles possuem muitas qualidades e vários defeitos. Fazem muitas coisas certas e também fazem muitas coisas erradas. Às vezes são os heróis da história. Às vezes, são os vilões.

O único ponto negativo é compreender que a fórmula criada por John Green fica um pouco manjada quando você já leu algumas de suas obras. Basicamente o enredo gira em torno de um adolescente (quase sempre do sexo masculino) que conta sua história em primeira pessoa. Ele está envolvido com um grande amor (platônico). E precisa viajar e/ou sair de casa para fazer as "descobertas" típicas da passagem para a vida adulta. Para isso, ele se apoia nos amigos, que também estão vivendo um processo de amadurecimento parecido.

O livro prende você de certa forma, que eu o devorei em três noites. Acabei lendo a versão comemorativa dos dez anos. Recomendo esta versão, pois além da narrativa, ela vem com os detalhes de como John Green escreveu a história e como ela foi editada depois. Há inclusive cenas cortadas e reescritas pelo autor que não chegaram à edição definitiva. Tem também uma ótima entrevista com o escritor, no qual ele explica detalhes sobre o livro e sobre os personagens. Nesta parte, é possível descobrir que o livro é semibiográfico. Assim como Miles Halter, John Green também viveu em um colégio interno no Alabama. E nesta escola real aconteceram muitos dos fatos narrados pelo escritor.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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