• Ricardo Bonacorci

Peças Teatrais: Urinal, O Musical - Cadê a água?


Ontem à noite fui ao Teatro do Núcleo Experimental, na Barra Funda, assistir à peça "Urinal - O Musical". É legar ir ao teatro as segundas-feiras. Esta é uma das vantagens de se morar em São Paulo. Praticamente todo dia da semana tem uma peça diferente e boa em cartaz na cidade.

"Urinal" é um musical dirigido por Zé Henrique de Paula (direção cênica) e por Fernanda Maia (direção musical). No elenco, há quatorze atores, com destaques para Bruna Guerin, Caio Salay, Daniel Costa, Luciana Ramanzini e Roney Facchini. Na sessão de ontem, Daniel Costa não pode participar e foi substituído, no papel de policial, pelo diretor. A orquestra responsável pelas belas músicas é composta por oito músicos.

Zé Henrique importou esta peça dos Estados Unidos. Criada por Greg Kotis e Mark Hollmann, "Urinal - O Musical" foi lançada originalmente em 2001, na Broadway, e fez grande sucesso por tratar de forma sarcástica da crise hídrica. Sua história retrata o cotidiano de uma cidade que sofre há duas décadas com uma grande seca. As consequências da ausência prolongada de chuva aparecem mais intensamente na hora dos habitantes irem ao banheiro. O governo proibiu as pessoas de usarem os banheiros particulares. Agora, os únicos locais aprovados para os habitantes se aliviarem são os banheiros públicos. Esta medida é para aproveitar a urina deles, que mais tarde será transformada em água potável. Quem descumpre as leis é preso e expulso da cidade, sendo enviado para Urinal, um lugar terrível e temido por todos.

Quem é responsável por administrar os banheiros e produzir a água necessária para o abastecimento do município é uma empresa particular chamada Companhia da Boa Urina (CBU). A organização, comandada por Patrãozinho (Roney Facchini), um empresário sem escrúpulos, cobra da população pelo uso dos banheiros públicos. Ricos ou pobres, todos são obrigados a pagar. A situação das pessoas mais pobres que já era crítica, elas precisavam contar diariamente as moedas para poder se aliviar, ficou ainda pior quando se aprova uma lei que aumenta consideravelmente os preços cobrados. Aí o povo, comandado por Bonitão (Caio Salay), funcionário de um dos banheiros públicos, se revolta, provocando grande confusão na cidade. A filha do dono da CBU, Luz (Bruna Guerin), é sequestrada pela gangue de Bonitão. A narrativa é contada por um policial (Daniel/Zé Henrique) e por uma garotinha pobre (Luciana Ramanzini), que conversam e analisam a história.

A peça é interessante. A história é muito boa (e criativa) e leva a importantes reflexões sobre sustentabilidade, a força coercitiva de governos autoritários, a falta de liberdade do povo e a grande disparidade econômica na sociedade capitalista. É, portanto, uma distopia. Por isto, me senti dentro de um livro de Ray Bradbury da década de 1950 ou de uma obra de Ignácio de Loyola Brandão da década de 1980.

O teatro do Núcleo Experimental é pequeno (capacidade para pouco menos de setenta pessoas) e acanhado. Isto confere certo intimismo à peça. A plateia fica quase dentro do palco. Cada espaço foi muito bem aproveitado. O cenário e os figurinos, apesar de simples para um musical tradicional, não comprometem a qualidade do espetáculo.

O humor está presente em todos os momentos do musical. Os atores conseguem explorar muito bem o bom texto e a direção de Zé Henrique de Paula está primorosa. Há cenas melhores (como, por exemplo, aquela em que os pobres sapateiam) do que outras (principalmente no início, durante a apresentação da história, as músicas são bem fracas). Ou seja, a peça vai melhorando à medida que vai se desenvolvendo. Depois de um primeiro ato regular, ela ganha um belo segundo ato. O final é ótimo, fugindo do convencional e da necessidade de agradar ao público.

O principal ponto negativo da peça ocorreu quando os atores cantavam individualmente. Não era possível ouvir totalmente o que diziam (e eu estava na segunda fileira). O som da orquestra, na maioria das vezes, abafava o canto dos atores. Afinal, pelo espaço reduzido, não havia microfones. Acho que o problema era mesmo da acústica do teatro.

Além disso, achei a maioria dos textos das músicas, de certa forma, muito fracos em relação ao conteúdo. Se os diálogos dos personagens eram interessantes, as letras das canções deixaram a desejar. Elas não saiam do lugar comum e não enriqueceram a trama, como é de se esperar em um musical.

Contudo, no geral, "Urinal - O Musical" é uma bela peça. Merece ser vista. O Teatro do Núcleo Experimental fica na Rua Barra Funda, 637, no bairro da Barra Funda, próximo ao metrô Marechal Deodoro. O valor do ingresso é R$ 60,00 a R$ 80,00. Há sessões às segundas, sextas, sábados (21 horas) e aos domingos (19 horas). A peça tem duração de pouco mais de duas horas, com um intervalo de quinze minutos entre os dois atos. Ela ficará em cartaz até o dia 12 outubro deste ano.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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