• Ricardo Bonacorci

Análise Literária: Harlan Coben


O Desafio Literário já analisou, em 2015, cinco autores de quatro continentes. Em abril, iniciamos a investigação do que há de melhor na literatura mundial com Mia Couto, o principal autor moçambicano da atualidade. Em maio, foi a vez de estudarmos as obras e o estilo narrativo do inglês Nick Hornby. No mês seguinte, deixamos a Europa e retornamos para a América do Sul, mais especificamente para a Bahia. Naquele momento, pudemos conhecer em detalhes a carreira e as criações de Jorge Amado. Em julho, voltamos a viajar para o exterior. O destino foi a América do Norte. Naquele mês, nos aprofundamos nos livros e na ficção do romancista mais vendido da atualidade, o norte-americano John Green. No mês passado, as análises focaram na literatura de Ignácio de Loyola Brandão, um dos autores brasileiros mais importantes das últimas décadas.

Se pensarmos bem, já vimos bastante coisa, né? Contudo, o Desafio Literário deste ano ainda está longe do fim. Estamos no último dia de setembro e é chegada a hora de analisarmos o estilo literário de mais um escritor. O investigado desta vez, no Blog Bonas Histórias, é Harlan Coben, romancista norte-americano especializado em produzir livros de suspense e mistério.

Para compormos o panorama completo deste autor, lemos e comentamos ao longo das últimas quatro semanas cinco livros de Coben: "Seis Anos Depois" (Arqueiro), "Quebra de Confiança" (Arqueiro), "Não Conte a Ninguém" (Arqueiro), "Refúgio" (Arqueiro) e "Confie em Mim" (Arqueiro). Assim, agora me sinto pronto para debater as características da literatura deste escritor best-seller. Então, vamos à análise!

Natural de Newark, Nova Jersey, nos Estados Unidos, Harlan Coben tem 53 anos e é formado em Ciências Políticas. Depois de trabalhar alguns anos no setor de turismo, Harlan enveredou para o mundo das letras, se tornando escritor, um sonho acalentado desde a adolescência. Atualmente, mora em Ridgewood, Nova Jersey, é casado e tem quatro filhos.

Coben já publicou 26 livros, tendo uma média de um lançamento por ano. Suas duas primeiras obras editadas nos Estados Unidos foram "Play Dead" e "Miracle Cure", ambas no início dos anos de 1990. Nenhuma delas foi lançada até hoje no Brasil. O primeiro sucesso comercial do autor só apareceu na metade de década de 1990 com a série de livros com o personagem Myron Bolitar.

Nesta coletânea, um ex-jogador de basquete que virou agente esportivo investiga assassinatos. Ao todo foram dez títulos publicados: "Quebra de Confiança", "Jogada Mortal", "Sem Deixar Rastros", "O Preço da Vitória", "Um Passo em Falso", "The Final Detail", "Darkest Fear", "A Promessa", "Quando Ela se Foi" e "Alta Tensão". Houve também uma extensão desta série, com três livros protagonizados por Mickey Bolitar, sobrinho de Myron. "Refúgio", "Uma Questão de Segundos" e "A Toda Prova" são os títulos desta extensão.

A partir de 2001, Harlan Coben passou a escrever romances independentes, desvinculados das séries de Myron Bolitar e de Mickey Bolitar. Aí, o sucesso se multiplicou. Até agora foram 11 títulos lançados desta forma: "Não Conte a Ninguém", "Desaparecido para Sempre", "Não Há Segunda Chance", "Just One Look", "O Inocente", "Silêncio na Floresta", "Confie em Mim", "Cilada", "Fique Comigo", "Seis Anos Depois" e "Que Falta Você me Faz".

"Não Conte a Ninguém" é o seu maior sucesso editorial até hoje. No geral, Harlan Coben já vendeu mais de 60 milhões de livros no mundo todo. Presença constante no topo da lista das obras mais vendidas do New York Times, The London Times e Le Monde, o escritor norte-americano teve seus livros traduzidos para mais de 40 idiomas, sendo best-seller em muitos países. Agraciado com os prêmios Edgar Allan Poe, Shamus e Anthony, Coben foi o primeiro escritor a receber o que a crítica chama de trinca de ases da literatura policial norte-americana.

Chamado de "o mestre das noites em claro", Coben é definido da seguinte maneira por Dan Brown, autor de "O Código Da Vinci" (Sextante): "Harlan Coben é mestre em prender a atenção do leitor e criar histórias surpreendentes. Ele vai seduzir você na primeira página apenas para chocá-lo na última". Achei perfeita essa definição!

A principal característica das histórias de Harlan Coben é o clima de mistério e de suspense que margeia toda a narrativa. Os enigmas do enredo são elaborados e intrigantes. Normalmente, já na primeira página ou no início do livro somos apresentados a um problema da personagem principal que só irá se resolver no final. Enquanto isso, ficamos curiosos para saber o que aconteceu. E neste meio tempo, ficamos presos à história sem poder nos desvincular dela. Se você ler as primeiras páginas de qualquer publicação de Coben, você será automaticamente obrigado a ler todo o restante da história. Ela prende a sua atenção de uma forma que é impossível desgrudar do livro.

Normalmente, as tramas envolvem casos mal resolvidos do passado, homicídios e acidentes. As narrativas geralmente sofrem grandes reviravoltas, deixando o leitor sem saber em quem acreditar e em quem confiar. Você acha que vai acontecer uma coisa, depois acaba acontecendo outra e no final não é nada daquilo que você imaginava nas duas primeiras vezes. Quem é bonzinho pode ser o vilão e o vilão pode se transformar em aliado. Além disso, as escolhas das personagens não são tão óbvias quanto possamos imaginar a princípio. Quem gosta deste expediente (muitas reviravoltas), como eu, irá adorar os livros de Coben sem dúvida nenhuma.

As narrativas também têm boas e muitas cenas de ação, com brigas, tiros e perseguições, no melhor estilo trama-policial que Coben conhece bem. Por isso, o ritmo dos livros é alucinante. Sempre está acontecendo alguma coisa para prender a atenção do leitor. Não há qualquer momento de tédio ou de marasmo. Algumas dessas cenas não conseguem fugir do clichê das tramas e dos filmes policiais, porém isso não atrapalha em nada as histórias.

O rápido ritmo das narrativas não permite muitos instantes de reflexão e o aparecimento de comentários analíticos. Harlan Coben é extremamente econômico em suas análises. O escritor sempre prioriza as cenas de ações em detrimento às reflexões. Apesar deste expediente deixar seus livros dinâmicos e ágeis, ele também os torna um pouco rasos conceitualmente. Talvez este seja o principal ponto negativo do autor. Se ele acrescentasse um pouquinho de elementos reflexivos, provavelmente o ritmo das obras não seria tão impactado e o leitor ganharia em embasamento teórico. O único dos cinco livros lidos neste mês do autor que tem um pouquinho dessa sugestão é "Confie em Mim". Não à toa, este foi o livro que mais gostei, ao lado de "Seis Anos Depois".

Outro ponto negativo das obras de Coben é o excesso de romantismo. O amor das personagens (geralmente a personagem principal é masculina) beira a obsessão e parece meio piegas. Afinal, não parece muito lógico alguém ficar preso a um amor platônico por tanto tempo (anos, décadas), se sujeitando a uma procura perigosa e desenfreada sem ter a certeza dos desejos da outra pessoa (muitas vezes, não se sabe nem se a amada está mesmo viva). Os personagens de Coben normalmente são românticos à moda antiga, disposto a lutar e a morrer pela sua amada, custe o que custar.

As personagens, de um modo geral, são apresentadas aos poucos, durante todo o livro. Os vários quebra-cabeças soltos são aos poucos encaixados, à medida que vamos conhecendo melhor as personagens. O interessante é que as peças do quebra-cabeça se encaixam perfeitamente, por mais difíceis que tenham sido para achá-las e para juntá-las. Isso prova o quanto o Coben é um escritor criativo e preciso.

A linguagem é simples e objetiva. Às vezes, dependendo do contexto, ela consegue ser até mesmo de baixo calão, como as da série protagonizadas por Myron Bolitar e Mickey Bolitar. Isso é explicado, pois as duas coletâneas de livros são voltadas para um público mais popular.

As histórias de Coben não fogem muito da receita de bolo desenvolvida pelo autor: trama na qual um homem apaixonado fica correndo atrás da mulher da sua vida que sumiu misteriosamente. Se pudesse reformular a última frase e incluir os principais elementos do estilo literário de Harlan Coben, eu diria: as obras dele são compostas por uma mulher desaparecida e ninguém sabe o que aconteceu com ela; há vários assassinatos e a polícia não consegue relacioná-los; cabe a uma das personagens investigar por conta própria os mistérios; há também muito romance; e não faltam cenas de ação e de brigas". A melhor definição de Harlan Coben, para mim, é esta.

Para narrar o que aconteceu, ele se usa de muito suspense e de muita ação o tempo inteiro. Geralmente, o enigma é apresentado logo de cara, nas primeiras páginas da obra, exatamente para prender a atenção do leitor. E as explicações dos acontecimentos são apresentadas aos poucos, a conta gotas, porém o tempo inteiro tem-se novidades. O grande enigma só será esclarecido nas páginas finais da obra. Em alguns casos, a explicação está na última linha da publicação.

Considerei "Seis Anos Depois" e "Confie em Mim" como os melhores romances do autor. Estes dois são excelentes livros. "Não Conte a Ninguém" também é um ótimo livro e merece a posição de principal obra do escritor até hoje, apesar de eu ter preferido as duas primeiras aqui citadas.

"Quebra de Confiança" e "Refúgio", respectivamente das séries sobre Myron Bolitar e Mickey Bolitar, são de uma qualidade inferior. No caso, estes dois livros são apenas regulares. "Refúgio" é ainda mais pobre, podendo ser definido por um leitor mais exigente como sendo uma obra fraca e limitada. Assim, os livros independentes de Harlan Coben são infinitamente melhores do que os das séries policiais populares.

Gostei muito de ter conhecido a literatura deste grande escritor contemporâneo. E por falar em best-seller norte-americano da atualidade, o Desafio Literário de outubro continuará nos Estados Unidos investigando outro arrasa-quarteirão.

O autor que será estudado no Blog Bonas Histórias no próximo mês será ninguém mais, ninguém menos do que Stephen King, o mais popular escritor vivo da América do Norte. O Desafio Literário de outubro está imperdível, não é mesmo?!

Continue acompanhando as análises literárias dessa primeira temporada do Desafio Literário. Não faltarão bons livros e artistas para comentarmos em nossos posts.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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