• Ricardo Bonacorci

Filmes: A Festa de Despedida - O humor negro dos israelenses


Semana passada, fui ao Reserva Cultural assistir à comédia dramática "A Festa de Despedida" (Mita Tova: 2014). Dirigido e roteirizado pela dupla Sharon Maymon e Tal Granit, diretores de "Férias de Verão" (Summer Vacation: 2012), esta nova produção israelense surpreende pela maneira arrojada como trata do delicado tema da eutanásia. Ao invés de abordar este polêmico assunto de forma convencional, o filme utiliza-se do humor para narrar a trama, sem abrir mão da profundidade reflexiva. Aí temos o melhor do humor negro israelense. Um pouco constrangidos, os espectadores se deparam invariavelmente rindo de cenas que envolvem mortes, sofrimentos, doenças e perdas. Trata-se de uma experiência sui generis. Divertida sim. E mórbida também.

O enredo de "A Festa de Despedida" se passa quase todo em um asilo para idosos em Jerusalém. Neste ambiente, um grupo de amigos desenvolve uma máquina de eutanásia para aliviar o sofrimento de um conhecido. O sucesso da empreitada e a pouca habilidade dos participantes de manterem suas ações ocultas chamam a atenção dos demais moradores do asilo. Rapidamente, novos interessados pela máquina aparecem. Aí o grupo de inventores da terceira idade começa a se questionar: o que estão fazendo é realmente certo? Eles estão ajudando a aliviar a dor dos outros idosos ou estão cometendo assassinatos? Estas dúvidas irão nortear todo o filme.

Repare na ótima atuação dos atores principais. Ze'ev Revach (intérprete de Yehezkel) e Levana Finkelstein (no papel de Levana) dão um show. Eles conseguem emocionar o público, ora com o humor ora evocando o drama. Não é para qualquer ator esta proeza de ir da risada às lagrimas de uma cena para outra.

A trilha sonora é muito boa. A música embala quase toda a trama, conferindo ainda mais graça a esta produção. A fotografia e a filmagem não apresentam, de modo geral, grandes inovações estéticas, apesar de conseguirem engrandecer algumas cenas. O ritmo do longa-metragem é bom. Ele não é um filme muito ágil, como os norte-americanos, porém não é parado, como uma produção tipicamente iraniana. Neste sentido, ele possui um bom balanço.

O grande lance de "A Festa de Despedida" está, sem dúvida nenhuma, em seu humor negro sutil e inteligente. Acho que jamais vi um filme com um humor tão sarcástico como este (lembrei-me um pouco dos filmes da turma do Monty Python, porém os ingleses eram bem mais escachados). Provocar graça em cenas que envolvem mortes, sofrimentos, doenças e perdas exige muita coragem por parte dos roteiristas e dos diretores. E nisso, Sharon Maymon e Tal Granit saíram-se muitíssimo bem. Eu pelo menos adorei! Gostei também da sutiliza da ironia. As piadas aqui são finas e muito inteligentes, às vezes difíceis de serem notadas. Contudo, acredito que a acidez do humor tipicamente israelense pode não agradar a todos. Esta é a particularidade da acidez: ela não agrada a todos os paladares, principalmente aqueles não tão acostumados com a sua intensidade.

Também gostei das discussões reflexivas que a história provoca. As mudanças provocadas na trama, fruto das decisões dos personagens, nos levam a pensar sobre o que é certo e o que é errado. As opiniões dos principais personagens mudam dependendo do contexto. Isso é interessantíssimo. Talvez esta seja a grande moral do filme: não há certo ou errado em se tratando de morte e de eutanásia. Cada um tem sua opinião, que pode ser alterada dependo da circunstância e do seu envolvimento com o assunto.

Para terminar, preciso comentar algumas cenas que achei excelentes: a do policial rodoviário multando o grupo de praticantes da eutanásia; a senhora, no início do filme, achando que estava falando com Deus por telefone; e a descoberta da opção sexual de um dos personagens (que sai, literalmente, do armário). Contudo, a melhor cena do filme é um musical realizado, no meio do longa-metragem, com as pessoas que optaram por morrer. Ao mesmo tempo que é fúnebre, a cena é poética e emocionante. É preciso muita audácia para propor algo deste tipo em uma produção cinematográfica. Parabéns Sharon Maymon e Tal Granit pelo seu novo filme!

Às vezes, em uma sala de cinema, só há uma coisa melhor do que um bom filme: uma boa companhia... Acho que tive tudo isto na quarta-feira passada no Reserva Cultural.

Veja o trailer de "A Festa de Despedida":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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