• Ricardo Bonacorci

Livros: Sob a Redoma - Stephen King ecológico e sociólogo


Eu li "Sob a Redoma" (Suma das Letras) no ano retrasado, quando estava de mudança para Minas Gerais. Enquanto encarava as estradas e os aeroportos mineiros, tinha embaixo do braço esta volumosa obra como companhia. A vontade por lê-la se deu pela minha decepção com o seriado "Under the Dome", transmitido pela TNT. Quando soube que a emissora norte-americana havia produzido um seriado televisivo a partir de uma história de Stephen King, fiquei empolgado. A expectativa inicial foi atendida apenas no primeiro capítulo. À medida que fui assistindo a "Under the Dome", fui me decepcionando cada vez mais. A história era realmente muito boa, o problema estava na produção televisiva, muito mal produzida. No quinto episódio, desisti de assisti-la e corri até a livraria para comprar o livro com a história original. Foi assim que me vi diante das quase mil páginas desta publicação. Ou seja, era uma excelente opção de leitura para quem precisava de muitas páginas para encarar as idas e vindas pelas estradas e pelos céus deste país...

"Sob a Redoma" não é um simples romance, como havia imaginado inicialmente, e sim uma complexa saga. Esta obra é uma ficção científica escrita por Stephen King e lançada originalmente no mercado norte-americano em 2009. Trata-se, portanto, da publicação mais recente do autor que iremos analisar neste mês ("Carrie, a Estranha", "O Iluminado" e "A Dança da Morte" são da década de 1970, enquanto "À Espera de Um Milagre" é dos anos de 1990). Apesar de contemporâneo, a história se passa nos dias de hoje, o enredo é baseado em uma ideia que King teve entre o final dos anos de 1970 e o início de 1980. Ele chegou, por duas vezes, a tentar publicar o romance na época, mas não considerou a narrativa suficientemente acabada para editá-la. Depois de reescrever quase toda a história (apenas o primeiro capítulo da ideia original foi mantido), o livro chegou a sua versão definitiva em 2009.

A história de "Sob a Redoma" se passa na pequena cidade norte-americana de Chester, no estado do Maine. Em um dia normal, uma grande bolha transparente surge de repente no céu formando um campo de força invisível que isola parte do município. A redoma impede a passagem de pessoas e de coisas. Aviões colidem no céu ao tentar ultrapassá-la. Carros explodem ao se chocarem com o domo. Famílias são separadas pela misteriosa estrutura. Assim, a partir do surgimento inexplicável da redoma, parte da população fica presa dentro da bolha invisível, enquanto os demais habitantes do país ficam do lado de fora.

O exército é chamado para destruir o domo. Nenhuma arma é capaz de quebrá-lo. Os mais inteligentes cientistas do país são convocados para esclarecer o enigma e resolver o problema, mas ninguém consegue. A situação começa a ficar crítica, pois o ambiente dentro da redoma começa a se tornar insuportável. A falta de água e comida, o calor excessivo e as brigas entre os habitantes só agravam o desespero geral.

Neste ambiente estressante e desesperador, surgem dois grupos de moradores brigando para validar seus pontos de vista. De um lado, há o ambicioso e corrupto político Big Jim Rennie, um tipo de vereador com funções de prefeito (as pequenas cidades norte-americanas não possuem prefeitos e sim uma trinca de vereadores que exercem o poder executivo). Ele é capaz de tudo para se manter no poder e continuar ocultando os segredos da sua família que teimam em aparecer neste momento de grave crise. Do outro lado, está o grupo formado pela jornalista Julia Shumway e o misterioso ex-militar Dale Barbara, que estava passando pela cidade no instante do surgimento da redoma. A dupla, em parceria com a assistente de um médico do hospital local, uma policial corajosa e três crianças atrevidas, vai investigar o que está acontecendo na cidade e vai tentar colocar um basta nas ações abusivas e transloucadas de Big Jim.

A primeira questão que surge para o debate é a ecologia. "Sob a Redoma" é uma manifestação direta de Stephen King para o tema da sustentabilidade e da importância dos cuidados com o nosso planeta. A cidade de Chester é um microcosmo da Terra. Os moradores do município estão presos dentro da uma redoma (estamos ou não estamos presos neste planeta em que nascemos?) sem poder sair dela (ou você consegue sair amanhã da Terra se assim desejar?). Enquanto estão presos neste local, os habitantes enxergam passivamente as transformações ambientais que levarão em pouco tempo a morte de todos (agimos ou não agimos desta maneira também?).

O mais legal é que esta reflexão sobre a sustentabilidade e o aquecimento do nosso planeta é sutil e pouco ideológica. Ela está inserida no meio da trama sem nenhuma ênfase, crítica direta ou debate enfadonho. Nenhum personagem, por exemplo, emite qualquer opinião sobre este assunto, se colocando a favor ou contra a defesa do meio ambiente. Pelo livro, não sabemos o que os personagens pensam. Sabemos apenas como agem, pela descrição dos seus comportamentos. Assim, cabe ao leitor a reflexão sobre este tema.

Outra questão que permeia toda a história é a briga política e as intrigas entre os habitantes da pequena cidade. Mesmo nos momentos mais críticos, quando era natural se imaginar o apoio de todos às ações coletivas e a integração das pessoas para o bem comum, o que prevalece é o individualismo e a mesquinharia. A maioria dos indivíduos acaba pensando apenas em si, o que provoca muitas vezes a piora do cenário externo. A crise política também merece destaque. Ao invés de procurar resolver os problemas dos moradores, os políticos em períodos de crise continuam olhando para o próprio umbigo, querendo lucrar em causa própria e ganhar mais poder. Chega a revirar o estômago quando compreendemos alguns aspectos da natureza humana.

"Sob a Redoma" é um livro excelente. Ele prende a atenção do leitor desde o início. Assim, não demora a "pegar", como acontece com a "Dança da Morte", que fica interessante apenas a partir da segunda parte. Os personagens são bem construídos e a narração dos acontecimentos é bem dinâmica. Sempre está acontecendo alguma coisa diferente com alguém. O grande número de personagens, às vezes, embaralha nossa cabeça, mas isto é normal de acontecer em romances muito extensos e com trama tão diversificada.

Os pontos negativos desta obra estão relacionados ao maniqueísmo acentuada da história e ao final decepcionante. Assim como acontece em "Dança da Morte", temos aqui dois grupos antagônicos que disputam a primazia pelas propostas do que fazer com a redoma e o poder sobre a cidade. Um é formado pelos vilões e o outro pelos mocinhos e mocinhas (os bonzinhos). Essa dicotomia, de tão evidente e manjada, acaba tornando a trama um pouco previsível e óbvia. É claro que sabemos de antemão para qual lado vamos torcer. É muito clichê reunido em uma só história...

A maior decepção, contudo, está no final. Claro que não irei contar o desfecho da narrativa, porém se prepare para algo bem absurdo e pouco real. Não estou nem falando do final catastrófico e catártico que Stephen King tanto gosta, com várias mortes, explosões e sangue para todo o lado. Quem está acostumado a lê-lo, não pode se surpreender com este tipo de fechamento de trama. O que decepciona é outra coisa. A busca por explicações para o aparecimento da redoma e para a solução dos problemas originados por ela acaba elevando nossa expectativa. Assim, quando elas surgem, ficamos muito desapontados com as alternativas encontradas pelo escritor. Era esta, afinal de contas, a justificativa para o grande mistério? Foi assim que eles conseguiram resolver o problema tão grave?!

Apesar dos altos e baixos, o que é natural em uma obra tão volumosa, gostei muito de "Sob a Redoma". Ele é um livro que acabamos devorando rapidamente, apesar das suas quase mil páginas. O pouco que vi do seriado televisivo da TNT (cinco episódios apenas), percebi várias mudanças em relação à produção original. Por isso, mesmo que você tenha assistido ou esteja acompanhando a série na TV, não deixe de conhecer também a versão literária. Com certeza, você encontrará ótimas surpresas nela.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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