• Ricardo Bonacorci

Crônicas: Eu e o Mundo - 12 - O Que Você Está Fazendo com a sua Vida?


Viajei, no segundo semestre do ano passado, para Brasília. Fiquei um mês realizando trabalhos em uma empresa estatal. Fui enviado para dar cursos de motivação para os funcionários daquela companhia. E o que encontrei lá me deixou muito assustado e me fez refletir sobre a maneira como encaramos nossa carreira e nossa vida profissional. Você está feliz com as escolhas da sua profissão? Você acorda todos os dias transbordando motivação e exalando entusiasmo para trabalhar ou vai forçado e obrigado pelos compromissos assumidos? Você já parou para pensar sobre isso?

A grande maioria dos colaboradores da organização onde fui atuar estava muitíssimo desanimada com seus empregos, suas atividades e até mesmo com suas profissões. Os corredores e as salas da organização eram um mar de lamentações, martírios e reclamações. Todos eram funcionários públicos concursados. Eles tinham, em algum momento do passado, prestado concurso público, seduzidos pelos altos salários e pelos ótimos benefícios oferecidos. Achavam que trabalhando em uma boa empresa, de renome e bem-conceituada no mercado, e recebendo uma bela remuneração, teriam todos os seus problemas (profissionais e pessoais) resolvidos. Afinal, com dinheiro no bolso, as preocupações desaparecem.

Entretanto, depois de alguns dias, semanas, meses ou anos, não encontravam mais sentido para continuar trabalhando naquele lugar. Estavam ali apenas pelo dinheiro no final do mês. Assim, as horas passadas atuando naquela empresa se tornaram um peso, um sacrifício e uma penalização para esses funcionários. Eu via o martírio que era para eles passarem uma hora ali dentro. E eles faziam isso por várias horas diariamente, todos os dias da semana, por anos e mais anos. Isto é, quando não faltavam ou não entravam em greve (eles tinham acabado de voltar de uma greve e estavam ensaiando uma nova para as próximas semanas).

Em contrapartida, a vida material de todos estava tranquila. O estacionamento da companhia era um desfile de carros novos e luxuosos. Conversando com aqueles trabalhadores, identifiquei que quase todos tinham casas próprias e locais para passar o final de semana (sítios, chácaras e casas de veraneio). Usavam roupas de marca e tinham hábitos sofisticados, como jantar em restaurantes caros e comprar os eletroeletrônicos mais modernos.

De certa forma, o que aquela gente estava fazendo era vender seus sonhos, suas vidas e suas almas. Eles não desejavam mais ficar ali, mas permaneciam por dez, vinte ou trinta anos apenas pela boa remuneração recebida e pela garantia de receber no futuro uma polpuda aposentadoria. Fazer isso com a sua própria vida é justo? Eu, sinceramente, fiquei angustiado só de me imaginar fazendo algo no qual eu não gostasse. Como é triste ver alguém fazendo algo de maneira improdutiva apenas pelo interesse financeiro. Geralmente, esses indivíduos têm outras habilidades e talentos, esquecidos ou ignorados no dia a dia. Esses trabalhadores seriam de certa forma os "escravos modernos", obrigados pela situação a desempenhar atividades não desejadas e de baixo rendimento em detrimento de outras das quais seriam mais felizes e competentes. A pessoa fica frustrada e o ambiente a sua volta fica pesado e sombrio, seja no trabalho ou em casa (a angústia por fazer algo indesejado é carregada para as outras horas do dia, mesmo longe do escritório).

Infelizmente, esse cenário não acontece apenas naquela empresa de Brasília. Também não ocorre unicamente nas empresas estatais. Estou cansado de ver funcionários de instituições privadas desmotivados e infelizes com suas vidas profissionais. Por que alguém se sujeita a fazer algo que não o deixa feliz? A resposta mais corriqueira é: "por causa do dinheiro". Sem ele deixamos de fazer muitas coisas essenciais da vida. Porém, devemos encarar a busca pelos recursos financeiros como a única variável importante da vida?

Isso me fez recordar uma conversa tida há alguns anos com o meu pai. Ele fora me visitar e ficou assustado com a limitação material da minha nova casa (alugada). Eu havia largado um emprego executivo no qual ganhava bem para me aventurar em uma carreira de escritor cuja remuneração era muito menor. Eu irradiava felicidade por, enfim, fazer algo que eu sonhava há tanto tempo. Em contrapartida, tive de reduzir meus gastos mensais e abrir mão de algumas despesas (todas elas, descobriria depois, supérfluas). Meu pai (como todo pai preocupado com o bem-estar do filho) passou a questionar minhas decisões e a apontar a "queda" do meu padrão de vida. Depois de uma longa explanação, ele fez uma pergunta para saber se eu concordava com seu ponto de vista: "Filho, você acha que a vida é brincadeira?".

Não pensei muito para responder. "Sim, pai, acho sim. A vida é uma grande brincadeira. Feliz de quem a enxerga dessa forma e pode se divertir durante o processo. Feliz do indivíduo com a capacidade de aproveitar os momentos realmente importantes da sua existência e não aqueles falsamente apregoados como os relevantes. Feliz do profissional com a coragem de fazer valer suas vontades e buscar sua realização plena. Feliz da pessoa que soube utilizar os talentos e os dons conferidos pela natureza em prol do coletivo e da sua verdadeira vocação".

Há muitos anos não tenho casa própria, carro do ano, não posso viajar anualmente nas férias, não desfilo por aí com roupas de marca e não tenho condições de fazer minhas refeições nos restaurantes mais badalados da cidade, como podia fazer antigamente. Porém, acredito levar uma vida mais produtiva e feliz hoje do que a tida anteriormente.

Meus amigos me questionam sempre: "Você é louco! Impossível manter um casamento feliz e criar os filhos dessa maneira?". "Será mesmo?", respondo de forma interrogativa. Qual é a melhor mensagem para passarmos para as nossas famílias e para os nossos descendentes: "Venda sua alma para quem pague mais ou faça muito bem aquilo que você gosta e sabe fazer de melhor?". Na minha humilde opinião, o segredo do sucesso profissional e da excelência está na segunda alternativa. Não conheço um único profissional de destaque em qualquer carreira cuja escolha tenha recaído sobre a primeira alternativa.

A vida, para mim, é uma grande brincadeira. E como é bom brincarmos com aquilo que gostamos e com o que queremos fazer. Não há ninguém mais inspiradora, ativa e entusiasmada do que as crianças. Elas, verdadeiramente, sabem brincar de viver e vivem a brincar. Falo com orgulho: não sou escravo dos bens materiais e do consumismo, tão impregnados em nossa sociedade nos dias de hoje. Meus filhos certamente crescerão com esse exemplo em casa. Torço para eu manter esse entusiasmo e essa ingenuidade infantil dentro de mim por muitos anos ainda, acreditando piamente nessas crenças tidas por muitos como insanas.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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