• Ricardo Bonacorci

Livros: O Clube do Filme – David Gilmour como escritor e pai


Nesta semana, li “O Clube do Filme” (Intrínseca), o livro de não ficção do canadense David Gilmour. Nesta obra, Gilmour, que trabalha como romancista e crítico de cinema, resolveu contar os apuros que passou como pai. Seu filho adolescente simplesmente não queria ir para a escola. O que fazer quando isso acontece?! O escritor resolveu radicalizar e sua experiência é ímpar. O resultado é um livro bonito, original e muitíssimo interessante. “O Clube do Filme” tornou-se best-seller no Canadá, na Alemanha e no Brasil, sendo traduzido para duas dezenas de idiomas. Até hoje, esta é a publicação mais famosa da carreira de David Gilmour no exterior.

Lançado em 2007, no Canadá, “O Clube do Filme” é o sétimo livro de Gilmour. Atualmente, o autor possui nove títulos. Todos são romances. Ou melhor, quase todos. A exceção é justamente “O Clube do Filme”, uma obra de memórias. Curiosamente, foi com esta única publicação na categoria de não ficção que o canadense conseguiu expandir o número de leitores para fora do seu país natal. No ano passado, a editora Jardim dos Livros publicou, no Brasil, o mais recente trabalho do autor, “A Perfeita Ordem das Coisas”.

No enredo de “O Clube da Luta”, David é um crítico de cinema desempregado e um escritor frustrado que mora em Toronto. Separado de Maggie, ele vive com a segunda esposa, Tina, e com seu único filho, Jesse, um rapaz de quinze anos fruto do primeiro casamento. David está passando por uma grave crise financeira. Sem trabalho, ele tem muito tempo ocioso e muitas contas para pagar.

Entretanto, sua maior preocupação no momento é o comportamento do filho. Jesse é um rapaz doce, calmo, independente e inteligente. Seu grande defeito é não gostar da escola. Por isso, o adolescente raramente comparece às aulas do ensino médio e, quando vai, não faz as tarefas nem presta atenção no que os professores falam. O que fazer com um rapaz que não quer estudar, hein?

Certo dia, sem saber mais o que fazer para mudar essa situação, David toma uma decisão arriscada. Ele fala que se Jesse não quiser mais ir para a escola, tudo bem. Ele pode sair do colégio, sem problema nenhum. O filho pode continuar morando com ele sem estudar e sem trabalhar. A única condição imposta ao garoto é que ele assista, junto com o pai, a três filmes por semana escolhidos por David. Jesse parece não acreditar no que ouve e prontamente aceita a proposta paterna.

Assim, é iniciado o Clube do Filme, apelido carinhoso dado ao encontro cinematográfico de pai e filho. Já no dia seguinte, eles veem “Os Incompreendidos” (Les Quatre Cents Coups: 1959), obra-prima de François Truffaut. Jesse parece não ter gostado muito do filme, mas fica com uma postura reflexiva. No outro dia, a dupla assiste ao “Instinto Selvagem” (Basic Instinct: 1992). Aí, o garoto parece ter apreciado muito mais a sessão caseira.

Semanas após semanas, pai e filho conferem regularmente a mais de uma centena de clássicos do cinema. Fazem parte da lista deles: “Cidadão Kane” (Citizen Kane: 1941), “Último Tango em Paris” (Ultimo Tango a Parigi: 1972), “Pulp Fiction – Tempo de Violência” (Pulp Fiction: 1994), “Cantando na Chuva” (Singin' in the Rain: 1952), “O Exorcista” (The Exorcist: 1973), “Mamãezinha Querida” (Mommie Dearest: 1981), “Casablanca” (1942), etc. A dupla não apenas vê os longas-metragens como também os discute calorosamente.

“O Clube do Filme” possui uma leitura agradável e rápida. Li suas 239 páginas em um único dia. O conflito da obra é duplo. De um lado temos um pai receoso de estar agindo incorretamente em relação ao futuro do filho, apesar de sua intuição dizer o contrário. Do outro lado, temos um rapaz completamente perdido em meio ao turbilhão de emoções e de sentimentos que é a adolescência. O leitor mergulha simultaneamente no drama de David e nas angústias de Jesse.

Confesso que quando peguei este livro para ler, achei que em suas páginas teriam muito mais análises de filmes do que há de fato em “O Clube do Filme”. É verdade que pai e filho discutem alguns longas-metragens ao longo dos capítulos, mas esse elemento fica em segundo plano o tempo inteiro. O importante aqui é a história de David e Jesse Gilmour. Como cinéfilo, admito ter ficado um pouco frustrado com essa escolha do autor. Contudo, ela se mostrou acertada. Se os dois ficassem dialogando sem parar sobre cada grande filme visto, na certa a trama perderia a graça e sua agilidade. Do jeito que está, o livro ficou muito bom.

“O Clube do Filme” é uma obra interessante, mas está muito longe de ser uma publicação perfeita. Ela possui muitos altos e baixos. O ritmo, por exemplo, da narrativa vai muito bem na primeira metade. Depois, ele perde em velocidade e força. A metade final do livro mais parece um drama infanto-juvenil. Os problemas e as dificuldades que Jesse passa são típicos da adolescência. Somente seu pai acha excepcionais as angústias do menino. E elas, queiramos ou não, não são justificativas para tirar o rapaz da escola. Somente um louco iria propor algo assim para um adolescente.

Outro elemento que não é bem explicado no livro é o papel de Maggie na decisão de tirar Jesse da escola. Parece-me pouco verossímil uma mãe concordar com a proposta de David numa boa. Por que Maggie aceitou isso tão passivamente? Por que ela não se indignou desde o início? Se ela tivesse ido contra a ideia, o conflito teria ganhado em profundidade e pluralidade.

E o que posso dizer do final da história, hein? Essa é a parte, no meu ponto de vista, de maior frustração. Apesar do escritor afirmar mais de uma vez que o desfecho é surpreendente, achei-o totalmente previsível. A obra termina exatamente como o leitor minimamente atento previu desde o início. Onde está a surpresa aí, David Gilmour?

Apesar destes pontos negativos, de maneira geral “O Clube do Filme” é um livro saboroso e possui uma leitura muito agradável. Minha ligeira frustração deveu-se a minha alta expectativa. “O Clube do Filme” não é um livrão como eu imaginei antes da leitura, mas é uma publicação acima da média. Sua história vale pela postura ousada de David Gilmour em lidar com seu filho problemático e tirar do cinema lições de vida importantes.

Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#DavidGilmour #NãoFicção #Biografia #Drama #Livros #LiteraturaContemporânea #Cinema #LiteraturaCanadense

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento