• Ricardo Bonacorci

Livros: A Barba Ensopada de Sangue – O melhor romance de Daniel Galera


Li, ao longo desta semana, “Barba Ensopada de Sangue” (Companhia das Letras), o quarto e último romance publicado por Daniel Galera, um dos mais talentosos escritores gaúchos da nova geração. Curiosamente (ou seria paradoxalmente?), Galera não nasceu no Rio Grande do Sul e sim na capital paulista. Entretanto, por ter sido levado ainda criança para Porto Alegre, cidade onde cresceu e onde mora desde então, e por escrever suas tramas ambientadas nessa região do país, ele ganhou a cunha de escritor gaúcho. E quem sou eu para questionar ou mudar isso?

“Barba Ensopada de Sangue” é considerado o melhor trabalho literário até agora de Daniel Galera. A obra conquistou, em 2013, o Prêmio São Paulo de Literatura como o melhor livro do ano. No mesmo ano, o livro foi terceiro colocado no Prêmio Jabuti, na categoria melhor romance. Nada mal, hein?! Esta publicação já foi traduzida para alguns idiomas e foi lançada em países da América Latina e da Europa.

Antes de publicar “Barba Ensopada de Sangue”, em 2012, Daniel Galera tinha em seu portfólio artístico três romances – “Até o Dia em que o Cão Morreu” (Livros do Mal), de 2003, “Mãos de Cavalo” (Companhia das Letras), de 2006, e “Cordilheira” (Companhia das Letras), de 2008 –, uma coletânea de contos – “Dentes Guardados” (Livros do Mal), de 2001 – e uma HQ – “Cachalote” (Quadrinhos na Cia), de 2010, uma parceria com Rafael Coutinho.

Em “Barba Ensopada de Sangue”, temos um jovem professor de educação física de nome desconhecido. Ele nasceu em São Paulo e foi criado em Porto Alegre. O rapaz de aproximadamente trinta anos vive angustiado por três tragédias familiares. O pai acabou de se suicidar. Antes de se matar, ele confessou ao filho o que ia fazer, deixando Berta, sua velha cachorra, sob a guarda da personagem principal do livro. Em um passado mais longínquo, Gaudério, o avô paterno do professor de educação física, foi assassinado em Garopaba, uma pequena vila de pescadores em Santa Catarina. As incertezas sobre a vida e, principalmente, a morte do avô também o angustiam. E para terminar, a esposa do protagonista o abandonou para viver com seu irmão. As três gerações de homens desta família, de certa forma, são envolvidas em acontecimentos dramáticos.

Com a herança recebida do pai e com a companhia de Berta, a personagem principal do romance decide se mudar para Garopaba. Enquanto vive tranquilamente como professor de natação em uma academia local, ele decide investigar o passado misterioso do avô. Visto como forasteiro pelos catarinenses e como um parente próximo de Gaudério (o avô do professor de educação física era alguém odiado pela população da cidade), o rapaz encontra muitos inimigos, que querem sua saída imediata dali.

Para piorar ainda mais sua condição, o rapaz tem uma doença rara. Ele não consegue memorizar os rostos das pessoas. Assim, ele se torna alvo ainda mais fácil do ódio e da violência dos habitantes de Garopaba. Quanto mais se aproxima da verdadeira história de Gaudério, mais o protagonista de “Barba Ensopada de Sangue” arranjará problemas para si.

O livro é semi biográfico. O protagonista do romance foi inspirado em um tio que Daniel Galera jamais conheceu. Conforme apresentado no prefácio de “Barba Ensopada de Sangue”, o parente do escritor morou em Garopaba entre as décadas de 1980 e 1990. Ali, viveu discretamente como professor de pilates, treinador de triatletas e como salva-vidas. Somente após a morte deste tio, Galera visitou a pequena vila histórica de Santa Catarina para colher mais informações sobre ele, transformando-o mais tarde em um dos seus personagens mais inusitados.

Realmente, “Barba Ensopada de Sangue” é um livro excelente. Ele mistura vários gêneros em suas páginas: romance, drama, mistério, investigação e ação. Praticamente, temos nesta obra um pouquinho de tudo o que faz a alegria dos leitores de ficção. Além de ótimo, o livro é volumoso para os padrões atuais do mercado editorial. Ele possui mais de 400 páginas - o dobro do que temos encontrado nas livrarias hoje em dia.

O principal mérito do romance está em criar um ambiente de grande tensão narrativa. O jeito introspectivo, pouco sociável e amargurado do protagonista e o ódio dos moradores de Garopaba torna a trama sujeita, a qualquer momento, a um acontecimento trágico. Isso fica evidenciado na trajetória de Berta. A cachorrinha sofre horrores, provocando as cenas mais tristes do livro para quem gosta dos animaizinhos de estimação.

Repare também no foco narrativo escolhido por Daniel Galera. O escritor utiliza-se de um narrador em terceira pessoa muito próximo ao protagonista. Em muitos momentos, o leitor acha que está lendo um texto em primeira pessoa, tamanha é essa proximidade entre narrador e personagem. Este expediente é parecido ao praticado com brilhantismo por J. M. Coetzee, o polêmico sul-africano vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2003. Se não é um recurso totalmente original, ao menos Galera o utiliza com brilhantismo. Boa parte do clima tenso de seu romance se passa pela escolha do tipo de narrador.

Curiosamente, essa é uma história ancorada em acontecimentos banais e sujeita à rotina simples do personagem principal. Assim, o livro pode parecer um pouco parado ou com uma velocidade bem lenta. Isso é potencializado pelas muitas descrições de cenários. Muito provavelmente, esse recurso acabe desagradando os leitores mais impacientes.

Contudo, sempre que passamos a nos acostumar com a rotina ou a banalidade da vida da personagem principal, algo de surpreendente acontece e a trama ganha uma nova perspectiva. Nesse sentido, desfecho do romance ganha em vitalidade, com incríveis surpresas. A impressão que se dá é que o autor deixou toda a ação do romance para os últimos capítulos.

Se “Barba Ensopada de Sangue” tem pouca ação, o mesmo não se pode dizer dos diálogos. A base da construção narrativa desta obra está nas ótimas conversas travadas pelas suas personagens. É através dos diálogos que conhecemos as angústias e as crenças das figuras retratadas.

Também gostei muito da construção das personagens. Suas constituições fogem do maniqueísmo piegas que muitos escritores recorrem na hora de produzir seus romances. Em muitos momentos, ficamos na dúvida de quem está certo e quem está errado nesta trama.

Gostei muito deste quarto romance de Daniel Galera. “Barba Ensopada de Sangue” é um livro diferente do que tenho lido ultimamente. Essa é, talvez, sua principal qualidade. Ele nos tira da zona de conforto e apresenta um tipo de literatura incomum, principalmente em se tratando de ficção de apelo comercial. Não é à toa que a obra tenha recebido tantos elogios e vários prêmios no cenário nacional. Daniel Galera é um escritor ao mesmo tempo talentoso e original. Ele parece praticar uma literatura com uma estética moderna e pouco afeita a estereótipos. Em alguns momentos, o escritor gaúcho flerta com o experimentalismo. É verdade, que essa audácia pode às vezes funcionar mais em alguns momentos e menos em outros.

De qualquer forma, quem gosta de boa literatura precisa conhecer “Barba Ensopada de Sangue”. Se você vai gostar ou não deste romance de Daniel Galera, eu não sei. O que sei é que ele irá mexer com você.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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