• Ricardo Bonacorci

Livros: Quem Mexeu no Meu Queijo? – A novela best-seller de Spencer Johnson


Reli, na última quinta-feira à noite, o livro “Quem Mexeu no Meu Queijo” (Record), o maior sucesso da carreira de Spencer Johnson, psicólogo norte-americano que atua também como escritor desde a década de 1970. Johnson encontrou na literatura uma maneira interessante e direta de apresentar seus estudos sobre o comportamento humano. Suas primeiras obras integraram a coleção “The Value Tale”, em que abordava a importância do indivíduo em ser mais bondoso, de conter a ansiedade, de acreditar mais em si mesmo, de ter paciência, de encarar a vida com humor, etc. Foram 17 livros da coleção publicados entre 1975 e 1979. Mais recentemente, novos títulos foram lançados, aumentando ainda mais a série.

O sucesso definitivo do psicólogo-escritor veio quando ele passou a escrever para homens e mulheres do mundo empresarial, até então um segmento pouco explorado pelos livros de autoajuda. Nos anos de 1980, em parceria com o consultor de empresas Ken Blanchard, Spencer Johnson produziu a série “O Gerente-Minuto”. A proposta era oferecer dicas práticas de como os executivos deveriam se comportar no mundo corporativo e no ambiente familiar. Foram seis livros da série, alguns alcançando o posto de best-seller no mercado norte-americano.

Aí, em 1998, Spencer Johnson publicou “Quem Mexeu no Meu Queijo”. O patamar de sucesso do autor mudava radicalmente. De um nome conhecido nos Estados Unidos, ele se transformava em uma personalidade famosa nos quatro cantos do planeta. Nesta novela, o autor apresentou uma parábola sobre a dificuldade das pessoas em encarar as mudanças. Com uma linguagem simples, personagens de caráter universal, uma trama simbólica e uma narrativa curta (características típicas das parábolas), “Quem Mexeu no Meu Queijo” se tornou um best-seller mundial. Entre o final dos anos de 1990 e a primeira metade dos anos 2000, era impossível entrar em uma livraria em qualquer país do mundo ocidental e não encontrar o título de Johnson. Calculasse que a obra tenha sido traduzida para quase 40 idiomas e que tenha vendido mais de 25 milhões de cópias.

Sinceramente, não gosto muito de livros de autoajuda. Acho, na maioria das vezes, suas histórias bobas, suas abordagens apelativas e seus ensinamentos óbvios. Em alguns casos, até mesmo a postura dos autores desse gênero soa arrogante e muito profética, como se fossem grandes gurus da humanidade. Sei que é implicância minha. Mesmo com esses preconceitos possivelmente tolos da minha parte, admito, estupefato, ter adorado “Quem Mexeu no Meu Queijo”. Lembro de ter ficado impressionado positivamente quando o li pela primeira vez há mais de dez anos. E agora, nessa releitura desta semana, continuo com a avaliação favorável.

O livro começa com uma reunião entre antigos colegas de uma escola secundária de Chicago. Composto por adultos, o grupo aproveita a oportunidade para conversar sobre o que a vida lhes reservou nos últimos anos. Se antes eram crianças sonhadoras, hoje são homens e mulheres casados e com profissões consolidadas. Diante das lamentações de muitos ex-colegas, Michael, um dos participantes do encontro, avisa que certa vez ouviu uma história que mudou sua forma de enxergar a vida e, principalmente, de lidar com as mudanças. Trata-se de “Quem Mexeu no Meu Queijo”. Curiosos, os amigos pedem que Michael compartilhe a trama com todos.

“Há muito tempo, num país muito distante, quando as coisas eram diferentes, havia quatro pequenos personagens que corriam através de um labirinto à procura de queijo, que os alimentasse e os fizesse felizes. Dois eram ratos, chamados Sniff e Scurry, e dois homenzinhos – seres tão pequenos quanto os ratos, mas que se pareciam muito com as pessoas de hoje, e agiam como elas. Seus nomes era Hem e Ham”. Assim, começa a história contada por Michael aos antigos colegas...

No labirinto, Sniff, Scurry, Hem e Ham levavam uma vida tranquila depois que encontraram no Posto C uma quantidade absurda de queijo. Com a descoberta, os dois ratinhos e os dois homens não precisaram mais ficar correndo pelos corredores do labirinto em busca de alimento. A rotina do quarteto mudou radicalmente – para melhor. Entretanto, os dias, as semanas, os meses e os anos foram se passando e o estoque de queijo, pouco a pouco, foi sendo consumido sem que ninguém notasse. Até que um dia, surpresa: os queijos acabaram no Posto C!

O choque pelo fim do alimento é diferente entre ratos e homens. Cada dupla de personagens age de maneira distinta. Os comportamentos de Sniff, Scurry, Hem e Ham frente ao conflito indicam as formas como cada um deles encara as mudanças. Alguns teimam em se manter presos a rotina, enquanto outros se dispõem a se aventurar novamente pelos corredores do labirinto, como faziam antigamente.

“Quem Mexeu no Meu Queijo” é uma ótima parábola sobre o comodismo, sobre o apreço pela rotina e pela aversão que muitas pessoas têm das mudanças impostas pela vida. A trama dentro do labirinto é espetacular!

Um ponto positivo do livro é seu tamanho. Ele tem pouco mais de 100 páginas (e várias delas são ilustradas com desenhos). Sua trama é extremamente enxuta, sendo possível lê-la em menos de uma hora. Spencer Johnson não é aquele tipo de autor que fica enrolando o leitor. Ele vai direto ao ponto. Sua linguagem é o mais acessível possível e sua história é muito didática. A narrativa só é quebrada por pontuações filosóficas das personagens (na verdade, do autor), algo que enriquece a obra e a trama contada.

A aparência de simplicidade de “Quem Mexeu no Meu Queijo” pode incomodar alguns leitores mais intelectualizados. Eu, particularmente, gosto de histórias simples e acessíveis. Literatura boa não precisa ser necessariamente literatura difícil. O que mais gostei neste livro é o poder de Johnson em falar muitas coisas de maneira simbólica e em poucas páginas. Se essa não é uma virtude de um ótimo autor, não sei mais o que pode ser.

É verdade também que mesmo enxuto, o livro tem algumas partes desnecessárias e um tanto mal desenvolvidas. O prefácio de Ken Blanchard, parceiro de Johnson na série “O Gerente-minuto”, é, por exemplo, uma encheção de linguiça sem fim. E o que dizer dos diálogos do grupo de amigos de Chicago ao final da narração de Michael, hein?! Por vinte páginas, vemos os antigos colegas discutindo suas impressões sobre a história passada no labirinto. Ou o autor está chamando seus leitores de burros (que não conseguem entender por conta própria o conteúdo da parte principal da obra) ou esse foi um recurso para alongar um pouco o livro por natureza diminuto (caso contrário, ele teria apenas 80 páginas – inviável no mercado editorial moderno). Acho que a segunda opção é a mais coerente. Pelo menos é aquela que quero acreditar.

Ainda na parte final, também não gostei do jeito como os diálogos dos amigos foram desenvolvidos. Nota-se certo amadorismo do autor em produzir ficção, uma área em que ele estreava com esta novela. Vale lembrar que quase todas as obras de Johnson são compostas por títulos técnicos. No desfecho, há várias personagens falando, sem que o leitor consiga entender suas características e suas histórias de vidas. Além de banais (conteúdos desnecessários), as últimas páginas ficaram bastante confusas (quem é quem no grupo de ex-estudantes e quem falava o quê?).

Apesar desses pequenos vacilos (naturais principalmente em se tratando de um escritor novato na ficção), “Quem Mexeu no Meu Queijo” é um livro excelente. Seu sucesso não foi à toa. Dessa vez, eu o li como literatura. Na primeira oportunidade, havia lido como autoajuda. Nos dois casos, ele vai muito, muito bem. Tenho a impressão que a obra de Spencer Johnson seja atemporal. Quanto mais tempo se passa, melhor ela fica. Após a leitura, recoloquei o livro na estante de casa e prometi para mim mesmo que iria relê-la daqui alguns anos. Com certeza, ficarei mais uma vez impressionado positivamente com seu conteúdo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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