• Ricardo Bonacorci

Crônicas: Eu e o Mundo - 14 - Meu Problema com as Mulheres


Descobri na semana passada qual é o meu maior problema com as mulheres. Este defeito da minha personalidade se revelou de maneira clara em um jantar a dois na última sexta-feira. Para explicar melhor o que aconteceu, preciso voltar no tempo.

Conheci, há cerca de duas semanas, uma mulher incrível: bonita, simpática, divertida e inteligente. No alto dos meus trinta anos, já acreditava que não era possível haver alguém assim. Para minha surpresa, ela não apenas existia como surgiu na minha frente. O nome dela é Madeleine. Conheci essa beldade na academia. Depois de conversarmos por alguns dias entre um exercício e outro, tomei coragem e a convidei para sair. Ela aceitou e fomos jantar. O local escolhido foi um restaurante romântico. Foi lá onde fiz a descoberta aterradora...

Depois que sentamos à mesa, a conversa fluiu numa boa. Ela era um doce de pessoa. Além de falar de todos os assuntos com desenvoltura, fazia isso com um jeito alegre e meigo. Sem conseguir entender como uma mulher tão perfeita como aquela ainda estava solteira, resolvi questioná-la a esse respeito.

- O problema está nos signos dos homens que tive - confidenciou a bela como se revelasse um segredo - Só namorei caras que tinham os signos incompatíveis ao meu. Você me entende, né? - Depois da minha leve balançada de cabeça em tom afirmativo, ela emendou - Você acredita em horóscopo?

É óbvio que eu nunca acreditei nisso! Não sou ingênuo para crer que os astros e suas movimentações no espaço têm o poder para reger o comportamento das pessoas aqui na Terra. Não podemos jogar toda a culpa do nosso destino na Astrologia.

- Sim, claro que acredito! Acho essa questão muito importante - respondi sem hesitar - Se a Astrologia não fosse tão certeira, ela não seria considerada uma ciência.

Atire a primeira pedra quem nunca mentiu em um primeiro encontro. Aquela mulher diante de mim jamais ouviria uma contestação saída da minha boca. Se ela acreditava no poder do horóscopo, na existência do Monstro do Lago Ness ou na honestidade do Paulo Maluf, eu também passaria a crer nisso tudo imediatamente.

- Ai que bom! Sabe como é, acho superimportante essa compatibilidade astrológica. Infelizmente, muitos homens não acreditam nisso - disse ela um pouco tímida e novamente decepcionada com os integrantes do meu sexo - Qual o seu signo?

- Touro - respondi feliz por saber ao menos o signo do zodíaco do qual pertenço.

A minha alegria momentânea se transformou em preocupação. O olhar dela se modificou. Acho que dei a primeira bola fora da noite. Viu como não é bom falar as verdades nesse tipo de encontro?!

- E o seu ascendente?

- Italiano e português - respondi de bate pronto - A família do meu pai veio da Itália e da minha mãe de Portugal.

- Gosto disso em você! - ela começou a rir - Você vem sempre com algo engraçado. Eu perguntei o ascendente do horóscopo, não a sua descendência...

- Ah! Não sei, não. O que é esse tal de ascendente?

- Como você não sabe? - Ela ficou alguns segundos em silêncio, para depois prosseguir - Para ser sincera, também não sei exatamente. Parece que é um lance que complementa o seu signo. Depois que você passa dos trinta anos, muitas vezes quem rege o seu comportamento não é o seu signo e sim o seu ascendente. Por isso ele é tão importante. Você deve estar sendo regido por ele. Vamos descobrir isso agora mesmo!

Ela sacou o celular da bolsa e entrou em um aplicativo desenvolvido especificamente para esse fim. Como é bom ver as utilidades que as pessoas fazem da Internet. Às vezes, me pergunto como é que vivíamos antes da invenção da web.

- Qual a cidade em que você nasceu? Qual o dia do seu nascimento? - Depois que respondi, ela prossegui no interrogatório - Qual o horário do seu nascimento?

Ri da pergunta. Era óbvio que eu não lembrava. Sem aceitar minhas desculpas, Madeleine me fez ligar para minha mãe. Ela sim saberia informar qual o horário do meu nascimento. Foi o que aconteceu. Minha mãe não pensou duas vezes para decretar: sete horas da manhã. Com essa informação, a moça a minha frente colocou os dados no aplicativo e ficou aguardando o veredito. Será que com isso ela se sentiria mais confiante para iniciar um romance comigo? Será que iríamos namorar? Casaríamos e teríamos um monte de filhos?

- Nãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaao!!! - gritou apavorada, em um misto de pânico e nojo. O urro foi tão alto que chamou a atenção de quem estava a nossa volta.

Antes que eu pudesse fazer alguma coisa, duas garçonetes chegaram para ajudar. Na certa, pensaram que havia algum problema com o prato servido. Como minha companheira olhava para baixo no momento do grito, as funcionárias devem ter pensado que ela encontrou algum ser indesejável andando ou jazendo na salada.

- Não há nada com o prato - respondeu Madeleine profundamente desconsolada - Apenas descobri que ele é Touro com ascendente em Touro.

- Ahhhhh! - gritaram as duas garçonetes, em desespero, olhando para mim.

A gerente do estabelecimento veio correndo saber o que havia acontecido de tão terrível naquela mesa. Afinal, todo mundo (ou quase todo mundo) estava gritando.

Uma das garçonetes, muito educadamente, cochichou no ouvido da patroa o que havia ocorrido ali. A senhora ficou sem reação. Ela me olhou com ódio.

- O que eu posso fazer por você, minha jovem - disse a gerente em tom protocolar para a bela dama sentada à mesa - é servir-lhe uma sobremesa como forma de amenizar sua dor. Que tal uma porção de brigadeiro de colher?

- Muito obrigada. Acho que vou precisar mesmo - respondeu Madeleine laconicamente.

Não houve a troca de uma só palavra em nossa mesa durante o restante da refeição. O que dizer numa hora como esta? Juro que não sei. O mais constrangedor, em minha opinião, eram os olhares das pessoas das outras mesas. Acredito que todas as mulheres presentes naquele estabelecimento rapidamente souberam da minha falha de caráter, solidarizando-se com a infeliz moça que estava diante de mim.

Madeleine comeu sua sobremesa mecanicamente. Na sequência, pedi a conta, paguei e retornamos às nossas casas em meu carro. O caminho todo foi feito em um silêncio sepulcral. Ao sair do veículo e entrar em seu prédio, ela limitou-se a se despedir com um aceno tímido de mão, saindo do meu campo de visão para sempre.

Nunca mais vi Madeleine. Ela nunca mais apareceu na academia nem respondeu às minhas insistentes mensagens no WhatsApp. É uma pena! Queria ter ao menos pedido desculpas a ela. Juro que não sabia o quão monstruoso eu era naquele momento. Se soubesse, é lógico que jamais a convidaria para sair. Deve ser por isso que nós homens não possuímos conhecimento aprofundado sobre Astrologia. Provavelmente é um comportamento nosso de autodefesa.

Hoje carrego comigo essa triste constatação. Até agora não sei exatamente o que quer dizer ser Touro com ascendente em Touro, mas sei que é algo ruim, muito ruim. Este é atualmente o meu maior problema com as mulheres. Agora tenho mais uma coisa para esconder no próximo primeiro encontro.

Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#SérieNarrativa

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento