• Ricardo Bonacorci

Livros: Na Minha Cadeira ou na Tua? – A vida de uma cadeirante por Juliana Carvalho


Aos dezenove anos de idade, a então estudante de publicidade Juliana Carvalho foi internada às pressas em um hospital de Porto Alegre. À princípio, ela pensara ter contraído uma forte virose que a deixava com febre alta e dores de cabeça e nas articulações. Sem qualquer problema de saúde prévio, a moça estava mais preocupada com as provas que perderia na faculdade e com sua ausência nas festinhas dos colegas do que com o diagnóstico médico. Afinal, Juliana achava que não seria nada muito grave. A principal suspeita da família, logo de cara, era que ela estivesse com meningite.

Em dois dias no hospital, entretanto, seu quadro clínico piorou sensivelmente. Ela precisou ser internada em uma UTI com grande chance de morrer. O que estaria acontecendo com uma jovem até então saudável e ativa? Após muitos exames, os médicos decretaram: Juliana tinha mielite longitudinal multifocal consequência do lúpus. Em outras palavras, a moça teve uma doença autoimune rara que causa inflamação na medula. Com isso, ela jamais teria de volta os movimentos das pernas. A vida de Juliana se transformou completamente da noite para o dia. De repente, ela se tornou uma cadeirante. Ela sobreviveu da séria doença e dos momentos dramáticos passados na UTI, mas precisaria encarar a nova rotina com muitas limitações.

Essa história é real e serve de base para “Na Minha Cadeira ou na Tua?” (Terceiro Nome), o primeiro livro de Juliana Carvalho. Nesta obra de memórias, a escritora gaúcha explica como foi acordar em uma nova condição e voltar a descobrir os prazeres simples da vida. Como cadeirante, ela precisou readquirir a independência perdida, aprender a dirigir veículos adaptados, voltar a estudar, entrar no mercado de trabalho, frequentar os eventos sociais e, principalmente, retomar a vida sexual. “Na Minha Cadeira ou na Tua?” é um relato sincero, desbocado, inteligente e muito bem-humorado das descobertas de Juliana Carvalho como cadeirante.

Nascida em Porto Alegre, em 1981, Juliana Carvalho é atualmente publicitária, apresentadora de TV e blogueira. A gaúcha apresenta o programa “Faça a Diferença” na TV Assembleia do Rio Grande do Sul e mantém os blogs “Comédias da Vida Aleijada” e “Sem Barreiras”. Além disso, ela dirigiu o curta-metragem “O que os Olhos Não Veem, as Pernas Não Sentem” (2008), filme premiado no Festival Claro Curtas de Cinema.

Juliana escreveu “Na Minha Cadeira ou na Tua?” quando tinha 28 anos. O livro, sua estreia na literatura, foi lançado em 2010. A publicação possui pouco mais de 220 páginas. Sua leitura é rápida e agradável. Li o livro inteiro em duas tardes, neste finalzinho de janeiro.

“Na Minha Cadeira ou na Tua?” é dividido em três partes. Na primeira, chamada de “Uma Cadeira em Meu Caminho”, conhecemos Juliana antes da inflamação na medula. Essa é a parte do livro com mais páginas. Nesse momento, acompanhamos a história da escritora da infância à entrada na faculdade. Vemos ali uma menina normal, cheia de planos, muito sapeca e extremamente sociável. O relato vai até o instante em que ela é diagnosticada com a doença que quase tirou sua vida.

Em “Pernas Pra Que Te Quero”, a segunda parte deste livro de memórias, avançamos no tempo e já vemos Juliana como cadeirante. O impacto do pulo temporal é forte. A menina sonhadora de outrora agora luta para fazer coisas básicas de sua rotina. Ao mesmo tempo, a Juliana brincalhona, alegre e sensível de antes se mantém intacta, mesmo diante das novas dificuldades. Ela encara cada adversidade com muito bom humor. O espírito faceiro da escritora contagia o leitor, que se diverte com as piadinhas infames que ela faz com suas novas condições. A cena dela indo para o motel com um rapaz sem uma perna é tragicômica.

Contudo, Juliana Carvalho não comete o erro de retratar sua realidade apenas de maneira colorida. A gaúcha também escancara os momentos de depressão e de angústia. Afinal de contas, quem está livre de períodos de melancolia e de baixo astral, hein? Acho que ninguém.

Na última seção da obra, chamada de “Cotidiano, Inclusão e Acessibilidade”, temos um texto engajado da autora sobre a condição dos cadeirantes em nosso país. Nesse instante, Juliana apresenta as dificuldades das pessoas que precisam se locomover de cadeiras de rodas pelas cidades brasileiras, os avanços nas leis de acessibilidade, os preconceitos de parte da população e o que ainda precisa ser feito para os cadeirantes serem mais ativos em nossa sociedade.

“Na Minha Cadeira ou na Tua?” é um livro muito bom! Tão interessante quanto a história de vida da escritora é a maneira como ela colocou isso nas páginas de sua memória. A proposta de primeiro apresentar a infância, a adolescência e o início da vida adulta de Juliana para só depois apresentar seus dramas como cadeirante é uma sacada genial. Para mim, que gosto de analisar as engrenagens narrativas das tramas, esse é o ponto alto desta publicação.

O leitor vê, na primeira parte do livro, uma menina cheia de vida, com vários planos para o futuro e extremamente ativa. Ao imaginar o que vai acontecer com a moça, ficamos com certa dor no coração. A segunda parte é um tapa na cara de todos. Além de expor com objetividade e emoção as angustias de Juliana, entendemos que é possível dar a volta por cima e encarar a realidade como ela é. Além de uma lição linda de vida, aprendemos muito sobre a rotina dos cadeirantes.

Também é elogiável o humor da escritora. Apesar desta história estar recheada de cenas e episódios tristes, o texto de Juliana Carvalho é leve, divertido e muito inteligente. Acabamos sendo envolvidos pelo espírito positivo e zombeiro da autora. Com isso, acabamos rindo (com certo constrangimento, é verdade) de várias situações que ela passou.

O principal mérito de “Na Minha Cadeira ou na Tua?” está em apresentar a realidade vivida pelos cadeirantes com coragem e sinceridade. Como consequência, acabamos ficando conectados à Juliana e às demais pessoas que utilizam cadeiras de rodas. Quando isso acontece, atingimos o primeiro passo no combate ao preconceito e em favor da conscientização geral da importância da inclusão social. Neste sentido, além de uma ótima escritora, Juliana Carvalho se mostra uma das mais importantes militantes da acessibilidade dos cadeirantes em nosso país. Impossível não ficar fã dela após a conclusão da leitura de “Na Minha Cadeira ou na Tua?”.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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