• Ricardo Bonacorci

Livros: O Mistério do Cinco Estrelas - O maior sucesso de Marcos Rey


“O Mistério do Cinco Estrelas” (Ática) é o maior sucesso da carreira de Marcos Rey, escritor paulistano conhecido principalmente por suas obras direcionadas ao público infantojuvenil. É verdade que Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato, também escreveu muitas coisas para os adultos: principalmente livros e roteiros televisivos e cinematográficos. Inclusive, chegou a conquistar relevantes prêmios do mercado editorial por esses trabalhos (dois Jabuti, um Juca Pato e um APCA). Porém, o que o tornou cultuado foi a produção de romances policiais para as crianças e os adolescentes. A maioria dessas histórias foi publicada pela Editora Ática na famosa Coleção Vaga-Lume. E nenhum livro de Marcos Rey e da Vaga-Lume, que contava com outros autores, vendeu tanto quanto “O Mistério do Cinco Estrelas”. Foram mais de três milhões de exemplares comercializados, o que transformou este título em um dos maiores best-sellers da história do país. Ou seja, é impossível falar de literatura infantojuvenil sem citar Marcos Rey e seu grande sucesso.

Publicado em 1981, “O Mistério do Cinco Estrelas” é um romance policial protagonizado por um adolescente da cidade de São Paulo. A obra foi tão bem-sucedida entre a garotada que deu origem a uma série literária. Leo, Ângela e Guido, os personagens principais do romance, voltaram a estrelar novas tramas do autor. “O Rapto do Garoto de Ouro” (Ática), de 1982, “Um Cadáver Ouve Rádio” (Ática), de 1983, e “Um Rosto no Computador”, de 1992, dão sequência ao romance de 1981. Todos esses livros de Marcos Rey foram publicados pela Coleção Vaga-Lume.

Lembro com saudosismo dessas histórias porque as li na minha infância. Assim como acontece ainda hoje em muitas escolas públicas e privadas do país, as obras da Vaga-Lume faziam parte do currículo de leitura dos estudantes nas décadas de 1970, 1980 e 1990. As narrativas da coleção serviam de ferramenta pedagógica. Eram a última etapa do letramento dos estudantes: a leitura crítica. Eu e meus coleguinhas adorávamos esses livros. Raramente alguém se recusava a lê-los. Traumático mesmo foi quando os professores deixaram de sugerir essas obras e passaram a pedir a leitura de José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Lima Barreto... Aí, os protestos começaram!

Aproveitei que achei, no último final de semana, “O Mistério do Cinco Estrelas” na estante de casa para reler este livro. Assim, depois de um hiato de algumas décadas, pude degustar o melhor de Marcos Rey. E admito ter ficado mais uma vez encantado. O romance é realmente saboroso.

Leonardo Fantini é um garoto de quinze anos morador do Bexiga, bairro italiano de São Paulo. De família pobre, Leo, como é mais conhecido pelos amigos e pelos familiares, arranjou trabalho há pouco tempo em um hotel cinco estrelas da cidade de São Paulo. O emprego de mensageiro (bellboy) no Emperor Park é ótimo, pois rende muitas gorjetas no final do mês. Leonardo, que passou a frequentar a escola à noite, está adorando sua nova rotina. Isso até apertar, em um dia aparentemente normal, a campainha do 222.

O hóspede daquele quarto é o Barão, um senhor gordo e milionário. Conhecido na cidade inteira por fazer doações a campanhas beneficentes, o Barão pede de maneira simpática ao bellboy para ele buscar seus jornais. Leo atende o pedido com eficiência e rapidez. Contudo, ao retornar ao 222 com os periódicos em mãos, nota que há um corpo atirado em baixo da cama. Para piorar, o Barão está com a roupa suja de sangue e o recebe na porta com certo nervosismo.

Leonardo entra em desespero e conta o que viu a Guima, o porteiro do hotel. Guima é amigo dos Fantini e foi quem ajudou Leo a conseguir aquele emprego. À princípio, o porteiro não acredita no que o menino diz. O Barão é um homem com reputação inabalável e o Emperor Park Hotel é um estabelecimento de renome. Crimes como o descrito pelo bellboy são inimagináveis ali.

No dia seguinte, Leo vai à lavanderia do hotel e acha o corpo que viu no quarto 222. Nesse momento, ele leva uma pancada na cabeça e cai desacordado no chão. Quando desperta, o corpo sumiu novamente. Ciente que não está imaginando coisas, o bellboy procura Percival, o gerente do hotel.

Para surpresa do protagonista, Percival não só não acredita em seu relato como diz que há uma acusação de roubo envolvendo Leo. Alguém teria roubado um isqueiro de ouro do quarto do Barão no dia anterior. Leonardo se diz inocente e deixa o gerente revistá-lo. Percival acha o objeto no bolso do novato. Segundo o jovem funcionário, alguém teria colocado propositadamente o isqueiro em seu bolso para incriminá-lo. A pessoa teria feito isso quando ele estava desacordado na lavanderia. Obviamente, Percival não acredita na versão do rapaz. Dessa forma, Leo é demitido do hotel e ninguém no Emperor Park acredita em sua versão de assassinato.

Triste com os acontecimentos, Leo decide investigar por conta própria o estranho fato que presenciou no 222. Alguns dias depois, o protagonista descobre, através de uma nota do jornal, que o corpo de um homem foi achado boiando no Rio Tietê. Intrigado com a notícia, Leo vai ao IML, Instituto Médico Legal, para reconhecer o morto. Trata-se da mesma pessoa que ele viu embaixo da cama do Barão.

Com essa evidência, Leo conta tudo o que sabe para o delegado. Mais uma vez, ninguém acredita nele. Ao visitar o hotel, a polícia descobre que o rapaz está sendo acusado de mais roubos. Ao invés de testemunha de um crime, o protagonista do romance se transforma em um procurado pela polícia. Ao mesmo tempo, bandidos perigosos parecem querer matar o adolescente.

Acuado, Leo pede ajuda para seu primo Guido, um rapaz de vinte anos paralítico que anda de cadeira de rodas, e para seu amigo Guima. O trio investigará o que aconteceu de fato no quarto 222. Leo também será ajudado por Ângela, sua “quase namorada”. A menina que pertence a uma família rica parece gostar muito do rapaz.

“O Mistério do Cinco Estrelas” é um livro curtinho. A obra tem pouco mais de 100 páginas. Sua leitura é extremamente rápida (no caso do leitor ser um adulto, obviamente). Concluí o romance em pouco mais de duas horas. Na certa, uma criança ou um adolescente (o verdadeiro público-alvo da publicação) levarão muito mais tempo.

Como um romance policial infantojuvenil, “O Mistério do Cinco Estrelas” é excelente. A trama de Marcos Rey tem tudo o que um bom thriller precisa possuir: muito suspense, bastante ação, ótimas personagens, doses certas de romantismo e um belo enigma. O mistério embala a trama do início ao final.

Gostei também do humor do texto e da excelente ambientação da cidade de São Paulo. Nesse último caso, repare no quanto o Bexiga e os Fantini, uma típica família italiana do tradicional bairro, são magistralmente descritos. Eu juro que consegui visualizá-los. Marcos Rey, em muitas obras, é um exímio cronista da realidade e das pessoas de São Paulo.

Outro ponto positivo é a construção das cenas. O autor é preciso em colocar seu protagonista em situações de perigo. Desde a primeira página, há ação. Leo e seus amigos conseguem escapar tanto da polícia quanto dos bandidos ao unirem coragem e inteligência. Em certo ponto, “O Mistério do Cinco Estrelas” é quase que “O Fugitivo” (Coleção Estadão) do público infantojuvenil. Que J. M. Dillard me desculpe pela comparação inusitada (e, talvez, estrambólica), mas Leonardo Fantini é a versão brasileira e adolescente do Dr. Richard Kimble.

Eu adorei este livro quando o li pela primeira vez na infância. Lembro bem de tê-lo escolhido como o meu favorito dentro da Coleção Vaga-Lume. Curiosamente, o mesmo aconteceu agora. Mesmo adulto, com trinta e muitos anos passados, achei a trama de Marcos Rey encantadora. Se tivesse filhos, juro que leria esta obra para eles. Afinal, nada como um bom romance policial infantojuvenil para despertar nos pequenos o gosto pela leitura e pela literatura.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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