• Paulo Sousa

Contos: Histórias de Macambúzios - 0 - A Cidade Vertical


Uma península é quase uma ilha, pelo fato de ter alguma ligação com o resto do continente. Uma quase-ilha, pode-se dizer, que infelizmente é obrigada a manter contato com alguma formação muito menos interessante. Esse fenômeno geológico é uma dádiva da teoria evolutiva, pois garante os benefícios de ambas as partes, como o exílio de uns e o reino de outros.

Trocando em miúdos, uma península é o paraíso. Imaginem oito quilômetros de pura península, como seria cobiçada! Os índios tupinambás logo aprenderam sobre a sabedoria da vida, e em uma se instalaram. Viviam basicamente da pesca, da caça e do cultivo de mandioca. Logo perceberam que poderiam prosperar, principalmente com a inesperada chegada de corsários franceses, e entraram em negócios mais lucrativos, como desmatar o pau-brasil e vender escravos.

Séculos se passaram de histórias muito enervantes e belas, daquelas que um livro seria pouco para descrever. Somente as praias daquela península sabem o quanto de história carregam. Mas não são essas histórias sobre formação do Brasil que serão contadas aqui.

Fato é que, no início do século vinte, a cidade de Armação de Búzios, ou simplesmente Búzios, para os íntimos, era ainda um vilarejo de pescadores, que faziam armações para pegarem seus peixes. Mas também não é essa cidade que será a protagonista desse livro.

Vale ressaltar que ao falar do passado são citados heróis, guerras, revoluções, crimes e injustiças. E uma das maiores injustiças que os compêndios da história da humanidade cometem é o anonimato de um grande homem de vanguarda. Um homem chamado Jeremiah Bonsucesso.

Vindo de uma família tradicional do Rio de Janeiro, que naquela época devia ser muito mais animada que hoje, Jeremiah sempre foi autodidata. Ainda jovem, sonhava em conhecer o mundo, singrando oceanos e enfrentando maremotos. Uma grave crise de varíola o impediu de sair do país.

Entretanto, Jeremiah era perseverante, e resolveu criar seu próprio mundo, incrustado no Rio de Janeiro. Um dia, avistou um pequeno vilarejo de pescadores, em uma península maravilhosa. Anteviu, então, o quanto as pessoas do mundo inteiro poderiam admirar aquela região de Búzios. Jeremiah não precisava ir ao mundo; o mundo viria a Jeremiah.

Polímata, dominava vários assuntos. Dizem que seus manuscritos sobre relógios de pulso foram plagiados por Santos Dummont, e que seus ensaios sobre uma substância de efeitos benéficos chamada penicilina foram o ponto de partida de Alexander Fleming. Além de dominar geometria, história, política, oratória, filosofia e religiões comparadas, era também um empreendedor. Visionário, logo vislumbrou que Búzios rapidamente se encheria de turistas, hotéis, restaurantes, pousadas e charutarias. “Quem trabalharia nesses lugares?”, perguntou-se.

A cidade precisava de pessoas dispostas a doar seus trabalhos para o mundo inteiro admirar. Pessoas engajadas, com motivação para a labuta. Para tal, Jeremiah não confiava nos remanescentes tupinambás, por considerá-los preguiçosos; tampouco dava seu aval aos pescadores, cuja visão considerava pequena, e a corsários franceses, por pura homofobia, que na época era uma opinião mais tolerada.

Os trabalhadores da futura Búzios não poderiam lá morar, pois assim iriam gozar dos luxos iminentes e se tornariam preguiçosas. Também deveriam estar dispostas a longas jornadas de trabalho, muitas vezes mal remunerada. Bem relacionado, Jeremiah se aproximou de prefeitos, cônegos e autoridades diversas, e após subornos e reuniões a portas fechadas, conseguiu a liberação de um terreno dentro da península para construir sua cidade, que não era lá essas coisas. Tratava-se de um morro incrustado aos oito quilômetros, sem fronteira para nada além de Búzios, com vista distante para o mar.

A cidade seria em um lugar muito íngreme, chegando a alguns pontos a ter constantes desmoronamentos. Mas isso não seria problema, pois o concreto se encarregaria de dar sustentação às casas de futuros operários do mundo, e a cidade poderia ser toda vertical.

No começo, Jeremiah tentou convencer as pessoas no centro do Rio de Janeiro, local de precárias condições sanitárias, a irem morar em sua cidade, mas a ideia não teve muitos adeptos. Conversou com associações, igrejas, governantes, mas a resposta era sempre a negativa. Mas Jeremiah era perseverante, e resolveu povoar sua cidade com pessoas um pouco menos exigentes. Visitou os cais dos portos e cortiços superlotados, e as afirmativas começaram a surgir. Em pouco tempo, já acumulara quase cem pessoas, os primeiros moradores, que teriam a oportunidade vislumbrada por Jeremiah de ter uma vida melhor e mais altruísta para com o mundo.

E foi com estivadores, prostitutas, jurados de morte e afins que a cidade foi fundada. Jeremiah, elegante e irônico, batizou o município de Macambúzios, em clara referência tanto ao nome da cidade vizinha quanto ao tamanho da alma de sua gente. E a cidade prosperou.

As casas construídas eram simples, sem vitrais ou azulejos, mas confortáveis e melhores que cortiços. Foram todas dispostas ao pé do morro, para facilitar a locomoção para Búzios. Jeremiah queria observar a movimentação de sua obra do alto, e um pouco mais acima das demais casas, construiu seu modesto palacete.

Entretanto, em alguns meses, os moradores já tinham trazido seus familiares, principalmente ex-escravos que foram libertados e não conseguiram trabalho nas lavouras de café como semi-servos. Quase todos chegavam descalços. Então, quase quinhentas pessoas se instalaram em Macambúzios. As casas foram construídas com madeira e tapumes, poucas de alvenaria, e acima das primeiras. Jeremiah foi obrigado a levantar outro palacete, acima deste segundo andar.

Após dois anos, Búzios ainda não tinha alcançado a glória, ao contrário de Macambúzios, que aumentava exponencialmente sua população. Aquilo enchia Jeremiah de orgulho, mas dar assistência àquelas pessoas, até que a cidade litorânea desencantasse, se tornava cada dia mais dispendioso. O fundador, que já distribuía lenha e óleo para os lampiões, promoveu o comércio local vendendo concessões para o comércio de mercadorias, principalmente alimentos e bebidas. Os moradores aprovaram, e montaram mercearias.

Entretanto, outros produtos acabaram sendo vendidos por lá, como bebidas alcoólicas, programas sexuais e diamba, que fazia muito sucesso. Como Jeremiah era terminantemente contra tal comércio, poderes paralelos surgiram para coordenar essas atividades, camuflando-as e distribuindo concessões.

Foi nesse momento que Jeremiah viu-se perdendo o controle sobre seu município, e instituiu leis drásticas, que desafiavam seu poder moderador. Chamou a todos, que no momento somavam mais de dois mil, e divulgou a Lei dos Sexagenários Senis, que proibia a entrada de moradores acima de sessenta anos, e a Lei do Ventre Assistido, que limitou a vinte o número de nascimentos na cidade.

O povo se opôs aos mandados do fundador, e elegeu um representante para conversar com Jeremiah, a fim de solucionar o impasse. Seu nome era João Cândido Felisberto, filho de ex-escravos, que passava por um período de afastamento da marinha por atos de desobediência à hierarquia.

“Caro Jeremiah, essas medidas serão inócuas”, iniciou João Cândido. “Meu povo já passou por leis parecidas que em nada acrescentaram.

“João, eu discordo”, respondeu Jeremiah. “Eu sempre digo que o progresso é inevitável, mas temos que tomar certas medidas. Entenda, eu faço de tudo para a cidade dar certo, e com o tempo as coisas vão melhorar.”

Triste Jeremiah, mal sabia que a previsão de João Cândido levaria pouco tempo para se confirmar. No fim daquele ano a cidade foi tomada por mais de quatro mil pessoas que participaram da Revolta da Vacina e foram desalojadas. Suas casas foram levantadas acima da segunda leva, obrigando Jeremiah a novamente subir seu palacete e a criar uma via principal para os transeuntes, chamada jocosamente de Ladeira Oswaldo Cruz. A cidade se tornava mais vertical com o passar do tempo.

A população, aos poucos, foi formando sua cultura. Já eram notórias figuras distintas do povoado, como a principal prostituta, chamada Camélia. Ela era muito altruísta, e antes de ir para Macambúzios oferecia favores sexuais a um famoso comerciante português chamado José de Seixas Magalhães, que foi quem lhe deu o apelido profissional. Outra personalidade marcante era Navalha, malandro mulherengo famoso por brigas com mendigos e travestis. Sua origem anterior ao município é desconhecida.

A cidade passava por uma onda de óbitos causados por varíola. Jeremiah viu que Macambúzios carecia de melhores condições, não só sanitárias, mas de urbanização. Começaria seu projeto de revitalização com a substituição de lampiões e fornalhas por energia elétrica. “Macambúzios ficará tão desenvolvida quanto Campos dos Goytacazes”, dizia. A mudança geraria um custo enorme para o autointitulado prefeito Jeremiah, mas fazia parte do projeto a cobrança de um mísero imposto dos moradores.

Isso foi suficiente para que corresse o boato que Jeremiah queria, na verdade, explorar as pessoas da cidade, uma imensa pilhéria. A história foi se avolumando, com manifestações populares intensas, sendo a mais significativa a formada por Navalha, Camélia e João Cândido, líder do grupo. Eles se reuniram e formularam um plano para expulsar Jeremiah da cidade, no movimento que ficou conhecido como Conjuração dos Macambúzios.

“Camélia, tudo vai começar contigo”, iniciou João Cândido. “Você vai até o palacete e se oferece a Jeremiah. Mas você o obriga a ir até seu puteiro. Navalha e eu estaremos lá dentro, e vamos intimidá-lo a sair da cidade.”

O que João Cândido não sabia era que Navalha tinha um plano mais ambicioso e inconfidente. No dia da execução, Camélia foi ao palacete, como combinado. Entretanto, o malandro mentiu para João Cândido, dizendo que Camélia declinara do plano de última hora. Isso enfureceu o líder, que foi até a casa dela reclamar.

Quando Camélia e Jeremiah chegaram ao puteiro, viram apenas Navalha, que rapidamente pediu para que a horizontal se retirasse e ficou a sós com o fundador. O diálogo, crucial para entender o prumo da narrativa, segue.

“Jeremiah, queria ter com o senhor.”

“É claro, Navalha. Mas poderia ser amanhã? Hoje tenho uma conversa com Camélia.”

“Não. Ouvi dizer que o senhor vai cobrar para colocar a energia elétrica.”

“Sim, uma mísera quantia. Pouco comparado ao avanço que a cidade terá!”

“Mas o senhor não vai fazer isso.”

“Porque não, Navalha? O progresso é inevitável.”

“Porque quem vai fazer isso sou eu.”

Com isso, Navalha saca sua arma homônima, e com uma lambida ágil e sem resistência, degola o pescoço de Jeremiah, não deixando tempo para uma súplica ou um último suspiro. Os outros conjuradores, ao perceberem que foram traídos, voltam para o puteiro, mas já encontram Jeremiah morto e Navalha proclamando-se o novo dono de Macambúzios.

Camélia voltou aos seus programas habituais, mas era obrigada a dormir com Navalha sem ordenados. João Cândido voltou para a marinha, embora fosse contrário aos castigos físicos impostos pelos superiores. Navalha, por sua vez, tomou como primeira medida a vacinação obrigatória contra varíola de todos da cidade.

“Se alguém se opuser, eu mesmo vou tomar providências”, disse à população. “Acreditem, chora menos quem pode mais.”

Ao longo dos anos, muitas navalhas se cortaram, muitas águas rolaram, e muitos homens provaram do poder. Postes, botijões de gás, canais a cabo e substâncias ilícitas também eram de domínio destes, que viam do alto do morro os oito quilômetros de península, cada vez mais repleta de turistas, hotéis, restaurantes, pousadas e charutarias.

Muitas histórias aconteceram em Macambúzios, a cidade vertical, e são essas que serão contadas a partir de agora. Até hoje a cidade existe, em algum lugar incrustado em Búzios, como se poderá provar pelas narrativas que seguem. Entretanto, é ignorada por cidadãos desatentos e autoridades políticas. Até que se prove o contrário, todas as histórias são completamente verídicas e fidedignas à realidade.

Boa leitura.

Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#SérieNarrativa

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento