• Ricardo Bonacorci

Livros: A Outra Volta do Parafuso – O clássico de suspense de Henry James


Neste final de semana, reli um clássico do suspense. “A Outra Volta do Parafuso” (Penguin Companhia) é um dos livros mais famosos de Henry James, escritor realista nascido em Nova York, em 1843, e que viveu a maior parte da vida na Inglaterra, país em que se naturalizou após o início da Primeira Guerra Mundial. Estudioso das narrativas literárias, James foi um dos principais críticos literários da língua inglesa, além de ter sido um escritor ficcional extremamente inovador. Vale lembrar que foi ele quem inventou o recurso do flashback na literatura e quem melhor aprimorou a narração indireta. Nada mal, hein?

Os romances mais conhecidos de Henry James são “Pelos Olhos de Maisie” (Penguin Companhia), de 1896, e “Retrato de uma Senhora” (Companhia de Bolso), de 1881, além do próprio “A Outra Volta do Parafuso”, publicação de 1898. Curiosamente, essas três obras integram as duas primeiras fases dos trabalhos ficcionais do autor, desenvolvidas já em Londres, cidade onde ele fixou residência em 1876. Entretanto, James não produziu apenas romances. Ele criou narrativas curtas, peças teatrais, ensaios sobre viagens, obras biográficas e trabalhos sobre a teoria literária. Não é errado afirmarmos que Henry James foi um dos escritores mais completos na virada do século XIX para o século XX.

O que torna “A Outra Volta do Parafuso” tão especial é que esta história influenciou (e, acredite, ainda influencia) sensivelmente a produção das histórias de terror nos últimos 120 anos. Não existiria, por exemplo, Stephen King, William Peter Blatty, David Seltzer, Ira Levin, Richard Matheson e H. P. Lovecraft sem o trabalho de Henry James. Não podemos falar de livros e de filmes de suspense hoje em dia sem recordarmos o que o norte-americano naturalizado inglês fez no final do século XIX. Boa parte dos recursos considerados atualmente como convencionais em uma trama assustadora estão presentes em “A Outra Volta do Parafuso”. Não falei que James foi um escritor inovador e talentosíssimo?!

O livro nasceu a partir de uma encomenda feita por uma revista literária ao romancista norte-americano. O veículo de imprensa queria distribuir aos seus leitores uma história que se passasse no período de Natal e que comovesse seu público de uma maneira diferente. Henry James lembrou-se, então, de uma narrativa horripilante ouvida há alguns anos na casa do bispo de Canterbury. O religioso contou a história de duas crianças perseguidas por fantasmas na casa de campo da família. A partir desse enredo, James, com sua maestria, construiu uma trama recheada de surpresas e perigos.

“A Outra Volta do Parafuso” começa com um pequeno prefácio. Um grupo de amigos está reunido ao redor do fogo em uma casa de campo. É época de Natal e não há muito o que se possa fazer ali. Por isso, eles começam a contar histórias de terror. Uma das mais marcantes é do fantasma de Griffin, que assusta uma inocente criança. As narrativas despertam as lembranças de Douglas, um dos visitantes mais introspectivos do grupo. Ele diz que as histórias ouvidas ali não são nada perto de uma que ele conheceu, essa sim verdadeiramente assustadora. Curiosos, os amigos pedem, então, que ele conte sua terrível história. Porém, Douglas diz preferir outra alternativa.

Ele diz ter essa trama registrada em um manuscrito produzido pela própria protagonista, a antiga preceptora de sua irmã mais nova. A história foi escrita há muito tempo, logo depois do primeiro trabalho da preceptora, então uma jovem de apenas vinte anos de idade e sem muita experiência de vida. De tão impressionado que ficou com o que leu, o rapaz achou melhor trancar aquelas folhas em uma gaveta em seu quarto. Agora, depois de muitos anos, ele quer enviar uma carta para um funcionário seu trazer o material para ser lido. Se todos concordarem em aguardar mais alguns dias, Douglas promete ler a história para os amigos em primeira-mão.

A curiosidade é tamanha que muitos dos visitantes da casa de campo adiam o retorno das férias apenas para ouvir a trama diabólica do tímido amigo. Na primeira noite após a chegada do manuscrito, Douglas cumpre a promessa e inicia a leitura do material. Aí, começa efetivamente o enredo de “A Outra Volta do Parafuso”. O narrador passa a ser a jovem preceptora e os capítulos da obra são numerados normalmente. A sensação é que o leitor está ao lado de Douglas na sala da casa de campo ouvindo sua leitura, um relato em flashback da protagonista (a nova narradora) da trama. A moça não tem seu nome revelado em nenhum momento da obra. Esse recurso aumenta ainda mais o mistério sobre a narrativa.

Em seu relato em primeira pessoa, conhecemos a jovem recém-chegada de uma pequena localidade de Hampshise. A moça atende a um anúncio de emprego em Londres. Ela vai até a mansão de Harley Street, onde um charmoso cavalheiro lhe faz o convite para ser a preceptora de duas crianças, Miles e Flora. A dupla é sobrinha do milionário. Os pais de Miles e Flora morreram e, agora, o tio é o único parente vivo dos meninos. Sem paciência e tempo para cuidar da educação das crianças (na verdade, o tio é um bon vivant, interessado apenas em usufruir da sua beleza e de sua fortuna), ele quer que a jovem cuide de todos os aspectos da vida dos pequenos. Para isso, ele a enviará para a casa de campo em Bly, um lugar seguro e saudável no interior do país onde Miles e Flora vivem tranquilamente. Na casa, trabalha Mrs. Grose, uma empregada antiga e leal.

Segundo o empregador, a moça terá total autonomia para fazer o que acredita ser o correto, porém em hipótese nenhuma deve entrar em contato com o tio dos meninos. Ele não quer ser importunado em hipótese nenhuma com questões relativas aos sobrinhos e ao trabalho da preceptora. Essa é a única condição que ele exige da nova funcionária: não ser incomodado com nada.

Empolgada com o alto salário oferecido para o cargo, a narradora segue para seu trabalho em Bly. Logo de cara, ela fica encantada com a magia do lugar e a meiguice dos meninos. Miles e Flora são as crianças ideais. Inteligentes, obedientes e carinhosas, elas recebem muito bem a nova preceptora. Contudo, à medida que vai conhecendo a casa em Bly, a moça descobre os segredos terríveis do lugar. A morada da família é visitada por dois fantasmas. A dupla sobrenatural é composta por antigos funcionários do local. Peter Quint, o antigo mordomo, e Srta. Jessel, a preceptora anterior das crianças, parecem habitar a casa e possuir desejos malignos em relação a Miles e Flora.

A jovem narradora da história se desespera em tentar proteger a inocência das crianças para um mal tão terrível como aquele. Sem poder entrar em contato com o tio dos meninos, a moça terá que resolver a questão sozinha. Ela terá no máximo a ajuda da Srta. Grose, que apesar de medrosa é uma companheira honesta e bem-intencionada.

“A Outra Volta do Parafuso” é um romance pequeno se pensarmos no tamanho de sua narrativa. São apenas 200 páginas. Por pouco, ele não poderia ser classificado como uma novela. Sua leitura é bem rápida. É possível concluir a obra integralmente em duas tardes ou, no mais tardar, em três noites.

A primeira coisa que chama à atenção do leitor neste romance de Henry James é a quantidade de elementos típicos das tramas de terror que esta história possui. Em outras palavras, este livro é recheado de clichês. Repare: um grupo de amigos que fica em volta do fogo contando histórias assustadoras à noite; uma casa isolada no interior do país que possui um segredo sinistro; fantasmas que assustam crianças inocentes; e uma jovem corajosa disposta a enfrentar sozinha entidades sobrenaturais. Confesse que você já viu esses recursos narrativos em vários livros e filmes de terror! Para ser franco, há muitas obras atuais que reúnem não apenas um ou vários desses elementos, mas todos eles.

Paradoxalmente, essa constatação só prova a excelência da literatura de James. “A Outra Volta do Parafuso” foi escrito no finalzinho do século XIX. Ou seja, se sua trama parece tão moderna aos olhos do leitor contemporâneo, trata-se de um dos principais méritos de seu escritor. Ele não tem culpa que os roteiristas e romancistas das últimas doze décadas não evoluíram muito, repetindo descaradamente suas fórmulas até hoje.

Outro ponto elogiável é a quantidade de reviravoltas que esta história tem. O tempo inteiro, Henry James acrescenta algo novo e surpreendente à trama, prendendo à atenção do leitor. Este é aquele tipo de livro que basta ler as primeiras páginas para você ficar grudado nele.

Gostei também da forma como o romance foi contado. Escrito em primeira pessoa, temos contato com a visão e, principalmente, as opiniões da narradora, a jovem preceptora das crianças. Em muitos momentos, ficamos em dúvida se ela está realmente certa em suas análises. A questão que intriga o leitor mais atento é: o que a protagonista está nos descrevendo possui um fundo de verdade ou será que ela enlouqueceu e está divagando? Adorei esta dúvida que permeia o conflito da metade para o final do livro.

Repare também no espetacular desfecho do romance. Se muitas histórias de terror atuais pecam em seu final, “A Outra Volta do Parafuso” dá uma aula de como uma narrativa deve ser concluída. Talvez os escritores e roteiristas de hoje não tenham aprendido tudo o que deveriam com Henry James. A literatura do norte-americano naturalizado inglês continua sendo um primor para os olhos dos bons leitores. Adorei ter relido esta obra. Confesso que agora estou curioso para mergulhar na leitura de “Pelos Olhos de Maisie”, considerado por muitos críticos literários como a obra-prima de James.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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