• Ricardo Bonacorci

Filmes: Gabriela - A sedutora criação de Jorge Amado


“Gabriela" é um dos filmes produzidos por Bruno Barreto, cineasta que ficou conhecido pela direção de "O Que é Isso, Companheiro", produção nacional indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1997, e "Dona Flor e Seus Dois Maridos", de 1976, a segunda maior bilheteria da história do cinema brasileiro. Baseado na obra "Gabriela, Cravo e Canela" de Jorge Amado, este longa-metragem foi produzido em 1983 e filmado na cidade fluminense de Paraty. Sônia Braga e Marcello Mastroianni interpretam Gabriela da Silva e Nacib al Saad. E Antônio Cantafora, Paulo Goulart, Jofre Soares e Flávio Galvão são, respectivamente, Tonico Bastos, João Fulgêncio, Coronel Ramiro Bastos e Mundinho Falcão.

Diferentemente do que aconteceu com o filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos", que seguiu estritamente a narrativa do livro homônimo, "Gabriela" teve algumas alterações em relação à obra da qual foi inspirada. Primeiramente, o início do filme é distinto ao do livro. Logo de cara conhecemos Gabriela (algo que no livro demora um pouco para acontecer). Ela é uma imigrante do Sertão nordestino. Ela foge da grande seca que se abateu na região, indo para o Sul da Bahia. O destino é Ilhéus, região próspera, de cultivo de cacau. A região também é conhecida pelos seus coronéis e pelas disputas sangrentas perpetuadas à bala.

Chegando à cidade, Gabriela conhece Nacib al Saad, turco dono de um movimento bar chamado Vesúvio. O local é ponto de encontro dos importantes homens de Ilhéus e de debate sobre os acontecimentos do município. O gringo está a procura de uma cozinheira e contrata Gabriela. A moça, que possui o dom da culinária, rapidamente conquista o coração do turco. Além de cuidar da cozinha do restaurante com grande êxito, a moça também cuida da casa do patrão e vira a sua amante.

Enquanto a história de Nacib e Gabriela se sucede, tomamos conhecimento dos bastidores da política local. O jovem e rico Mundinho Falcão é o forasteiro, vindo do Rio de Janeiro. Ele traz o progresso para a cidade com seus vários empreendimentos (novas agências bancárias, empresa de ônibus, jornal diário, construção de avenida na praia e, principalmente, a contratação de um engenheiro para reformar a barra da cidade), provocando muitas mudanças na cidade. Coronel Ramiro Bastos é o representante do poder local e é quem mais se sente incomodado com a atuação do jovem empresário. Mundinho e o Coronel Ramiro começam a disputar o poder político de Ilhéus. O povo se divide na hora da eleição, entre o político conservador, que já fez muito pela cidade, e o político moderno, que promete fazer muito pela região. A disputa entre Mundinho e o Coronel Ramiro provoca brigas, intrigas e grande instabilidade na cidade.

Como esta história de Jorge Amado possui muitos personagens e muitos acontecimentos, o filme, obviamente, optou por priorizar apenas alguns. Mesmo assim, ainda temos muitos episódios sendo narrados e vários personagens sendo retratados, o que confere uma grande agilidade à narrativa do longa-metragem. A impressão que se tem é que sempre está acontecendo alguma coisa importante. Quase sempre são fatos sociais e familiares envolvendo as personalidades mais conhecidas de Ilhéus, em uma mistura de fofocas, intrigas e polêmicas, normalmente envolvendo casos de amor e traição. Quando as questões não se relacionam aos assuntos do coração, são brigas políticas. Tudo isso é discutido sem cerimônias nas mesas do bar Vesúvio.

Sônia Braga está impecável como Gabriela. A graça, a sensualidade, a inocência e a simplicidade da personagem são muito bem retratadas pela atriz. A escolha de Marcello Mastroianni para representar Nacib al Saad, por sua vez, foi um tanto equivocada. Apesar do grande ator italiano conferir maior importância a esta produção com a sua presença, é difícil acreditar que ela seja um árabe turco. Sua figura e seu sotaque são mais representativos de um europeu. Assim, não combinou a imagem do ator com a imagem do personagem Nacib. Para tentar atenuar um pouco esta questão, em determinada passagem do filme, o proprietário do bar Vesúvio afirma não ser turco e sim italiano. Mas como?! Onde isto aparece na obra de Jorge Amado? Além disso, como é possível confundir um turco com um italiano? Se Nacib al Saad é italiano por que todos os tratam como turco?! Estranho. A emenda saiu pior que o soneto.

A trilha sonora é muito boa. Temos músicas personalizadas com a temática sobre Gabriela cantadas nas vozes de Gal Costa e Tom Jobim. Destaques para "Modinha para Gabriela" e "Tema de Amor de Gabriela". Melhor que isto, impossível!

A sensualidade e o erotismo, marcas de Jorge Amado, estão presentes no filme. Gabriela é filmada completamente nua várias vezes. Quando vestida, suas roupas são decotadas, sensuais e com pouco pano. Ela encanta os fregueses do bar de Nacib quando anda por entre as mesas distribuindo os quitutes feitos por ela. Cortejada pelos coronéis da cidade, que lhes prometem um mundo de riqueza, Gabriela prefere continuar vivendo sua vida simples ao lado do turco.

Os problemas surgem quando Gabriela e Nacib se casam. O peso das convenções sociais afeta as relações entre os dois. Esta é a questão principal tanto do livro quanto do filme. Entretanto, no filme não é possível abordar com grande profundidade esta questão.

Outro ponto negativo é o corte brusco das cenas. Muitas vezes, mal acaba uma cena e outra se inicia imediatamente. A rapidez entre a transição das cenas confere grande agilidade ao filme, mas também transmite a sensação de falta de cuidado e acabamento da produção.

O filme também não consegue retratar a complexidade e a riqueza da personagem Gabriela. Ela tem um coração puro e não tem preconceitos sexuais. No livro de Jorge Amado, ela tem vários parceiros sexuais. No filme, a moça é mais contida e menos liberal. Aqui, ela não tem quase nenhum parceiro, além do marido. A exceção é Tonico, o amante e melhor amigo do marido. Ou seja, na produção cinematográfica, ela é retratada apenas como uma moça com alma infantil, mas não como uma mulher madura sexualmente e moderna em relação aos seus hábitos sexuais. Desta forma, fica um pouco estranha a descoberta da infidelidade de Gabriela, algo que no livro é encarada de forma natural (já esperada). Assim, a Gabriela de Bruno Barreto não é a mesma de Jorge Amado.

"Gabriela" é um bom filme. Seus principais méritos e seus maiores defeitos são frutos da complexidade da obra de Jorge Amado. Não é fácil reproduzir as várias histórias paralelas, as dezenas de personagens e os inúmeros acontecimentos da Ilhéus de Jorge Amado em uma obra de pouco mais de uma hora e meia de duração. A concorrência com a telenovela da Rede Globo, filmada em 1976, também não ajudou o filme. A novela foi um sucesso de crítica e de público. De certa forma, ao assistir ao longa-metragem sete anos mais tarde, muita gente fez comparações. A escalação de Sônia Braga para o mesmo papel nas duas produções (ela participou tanto no filme quanto na telenovela) alimentava ainda mais as comparações entre as obras.

Veja um trecho de "Gabriela":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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