• Ricardo Bonacorci

Filmes: Quincas Berro D'Água - A comédia escrachada de Jorge Amado


O filme "Quincas Berro D'Água" foi produzido em 2010 e teve direção de Sérgio Machado, cineasta baiano conhecido por ter produzido o roteiro de "Madama Satã" (2002) e "Abril Despedaçado" (2001) e pela direção de "Alice" (2008) e "Cidade Baixa" (2005). Adaptação da obra literária "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água", de Jorge Amado, o filme contou com a participação de Paulo José (no papel principal, sendo Quincas Berro D'Água), Mariana Ximenes (como Vanda), Marieta Severo (Manuela) e Milton Gonçalves (Delegado Morais).

Filmado inteiramente em Salvador, onde a história original se passa, "Quincas Berro D'Água" teve orçamento de US$ 6,5 milhões e bilheteria modesta nos cinemas brasileiros, com pouco mais de 170 mil ingressos vendidos. Ele ganhou dois troféus no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, no ano de 2011: melhor direção de arte e melhor figurino.

O enredo deste longa-metragem aborda a vida de Joaquim Soares da Cunha, um funcionário público de Salvador, pai de família, homem íntegro, pessoa honrada e sujeito trabalhador. Ou melhor, a narrativa não é sobre a vida e sim sobre a morte dele, pois quando a história começa Joaquim acabou de falecer. Na verdade, desculpe a nova retificação, a história não é sobre a morte de Joaquim Soares da Cunha. Afinal, ao morrer, homem trabalhador, de vida regrada, convencional e passada junto à família tinha deixado de existir havia muito tempo. O falecido era mais conhecido, nos últimos anos, pelo apelido: Quincas Berro D'Água. Vivendo da bebida, da vadiagem, de pequenos biscates e do vício ao jogo, Quincas era o orgulho dos amigos e vergonha para a família. Conhecido como o "Rei dos Vagabundos", o sujeito abandonou a família para viver nas noites e nas ruas de Salvador.

Assim, pensando mais um pouco, é necessário fazer mais uma correção (a última, prometo!). O enredo não é sobre a morte de Quincas e sim sobre as mortes dele. O plural faz referência ao fato do corpo do falecido ter sumido após os amigos dele o retirarem do velório para uma despedida digna: a última grande farra. Agora sim: o enredo é sobre as mortes de Quincas Berro D'Agua. A primeira aconteceu no seu quartinho pobre, após uma noite de vadiação. E a segunda ocorreu após a despedida homérica protagonizada pelos seus amigos no velório.

A comédia de Sérgio Machado tem o mérito de respeitar a maior parte da narrativa de Jorge Amado. Contudo, algumas diferenças entre a produção literária e o roteiro do filme se fazem evidentes. A primeira: no filme, Quincas conta a sua história, depois de morto, utilizando-se de suas memórias. O falecido explica como foi o seu último dia de vida. No livro, também somos apresentados logo de cara a morte do personagem principal. Entretanto, não é Quincas que conta a sua própria narrativa. Essa mudança foi muito favorável ao filme. Com Quincas contando sua história em off, ficamos mais próximos do personagem, entendendo seu ponto de vista.

Outra diferença: enquanto no livro a primeira morte é descoberta por uma amiga que vai visitar Quincas de seu quartinho (ele lhe prometera dar ervas), no filme o responsável pela descoberta é um amigo que vai visitá-lo (o rapaz estava intrigado porque Quincas não apareceu na noite passada na festa do seu aniversário de 72 anos). A própria idade do personagem principal é distinta nas duas obras. No livro, ele tinha 60 anos.

A inserção no filme de um delegado de polícia (Delegado Morais) para investigar o desaparecimento do corpo ajudou na narrativa, tornando-a mais cômica e dando maior agilidade as cenas. Os amigos de Quincas, enquanto farreavam, precisavam fugir da polícia, protagonizando boas cenas de ação e perseguição. O desfecho de Vanda também é diferente no filme em relação ao livro. Curiosamente, gostei mais do final da história da filha do falecido no filme do que na obra escrita. Aqui, ela abandona as convenções sociais e consegue dar vazão aos seus desejos e às suas vontades. De certa forma, ela repete um pouco os passos do pai, que há muitos anos decidiu se entregar aos prazeres.

Apesar de pequenas mudanças, a história retratada na tela é quase idêntica ao do livro. O humor está presente em todo momento do filme. A graça se faz mais pelos comentários do falecido do que pelos acontecimentos surreais protagonizados pelos amigos do morto (Curió, Negro Pastinha, Cabo Martim e Pé-de-Vento). Ao vermos na tela o passeio noturno dos amigos com o corpo de Quincas, na farra e na bebedeira, é impossível não se recordar do filme "Um Morto Muito Louco" (Weekend at Bernie's: 1989). Assim, a originalidade da obra de Jorge Amado, que foi um marco para a literatura brasileira, perde considerável força dramática e graça nesta adaptação ao cinema por causa da comparação com o filme norte-americano que tinha um enredo parecido. Ou seja, se em 1959 "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água" era uma história original e engraçada, fruto de um livro inovador, em 2010, "Quincas Berro D'Água" é um filme convencional e de tema batido.

O filme consegue retratar a diferença entre os dois estilos de vida do personagem principal. De um lado a existência convencional, em família, onde o trabalho enobrece o homem e a imagem social define a posição que ele tem diante dos amigos. Do outro a vida marginal, onde a bebida, o sexo, a vadiagem e falta de trabalho são valorizados.

Também fica nítido o preconceito de classes sociais. A família de Joaquim Soares da Cunha quer manter as aparências, respeitando a memória do falecido, desvinculando-o da imagem de Quincas Berro D'Água. Para isto, humilham e desprezam as pessoas pobres, amigas de Quinca, que resolveram visitar o velório. Vanda, filha do falecido, e Manuel, o genro do morto, encarnam a figura dos ricos metidos e sem solidariedade, preocupados apenas em manter a imagem que construíram na sociedade. Sem se preocupar com as aparências e imbuídos pelo espírito de amizade e lealdade, os quatro amigos de Quincas são retratados de maneira caricata e muito engraçada.

Quincas lembra muito o personagem Vadinho, de "Dona Flor e Seus Dois Maridos". A diferença é que Berro D'Água era um senhor que abandonou a família depois de velho para viver uma vida de prazer e luxúria, enquanto Vadinho era jovem e morreu cedo enquanto aproveitava ao máximo os prazeres mundanos.

"Quincas Berro D'Água" é um filme razoável. Chega a ser engraçado em algumas partes e consegue entreter o público, de maneira geral. A atuação dos atores é apenas regular. Paulo José (não é fácil interpretar um morto), Mariana Ximenes (como a vilã) e Marieta Severo (não convence no papel da espanhola Manuela), os mais experientes, não conseguiram ir além do convencional. Assim, de todas as adaptações de Jorge Amado para o cinema, esta é aquela que apresenta resultado mais fraco. Este filme não tem a força dramática e o humor surpreendente de "Dona Flor e Seus Dois Maridos", não tem a graça e o carisma da história de "Gabriela" e não consegue criticar a sociedade com tanta contundência como "Capitães da Areia".

Veja o trailer de "Quincas Berro D'Água":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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