• Ricardo Bonacorci

Filmes: Capitães da Areia - Os meninos de rua de Jorge Amado


"Capitães da Areia" é o filme lançado, em 2011, por Cecília Amado, neta de Jorge Amado, que estreava no papel de diretora. A obra é baseada no romance homônimo do escritor baiano, publicado originalmente em 1937. O lançamento nos cinemas deste longa-metragem marcou os dez anos da morte do escritor, falecido em 6 de agosto de 2001, e o início das comemorações do centenário de nascimento de Jorge Amado (ele nasceu em 10 de agosto de 1912). "Capitães da Areia" teve orçamento de R$ 9,2 milhões e atraiu aos cinemas nacionais pouco mais de 35 mil espectadores.

A história do filme narra as aventuras de um grupo de meninos pobres de Salvador durante a década de 1930. Comandados por Pedro Bala e intitulados "Capitães da Areia", o grupo de crianças e adolescentes foi abandonado por suas famílias e agora vive em uma comunidade do trapiche. Para sobreviverem, eles praticam uma série de pequenos crimes, o que fazem ser perseguidos pela polícia e ser mal vistos pela sociedade baiana. Pedro Bala (Jean Luís Amorim), Professor (Robério Lima), Gato (Paulo Abade), Sem Pernas (Israel Gouvêa) e Boa Vida (Jordan Mateus) são os personagens principais. Pouco antes da metade do filme, Dora (Ana Graciela) se junta ao grupo após ficar órfã, sendo a primeira menina a integrar a trupe. Querida por todas, ela é chamada de "Mãezinha" pelos meninos, por cuidar deles. Dora se apaixona por Pedro Bala e os dois dão início ao namoro.

A produção cinematográfica de Cecília Amado respeita, em termos, a obra literária do avô. Apesar de manter os principais personagens e os mais importantes episódios da narrativa, no filme os acontecimentos ocorrem em uma ordem distinta ao do livro. Além disso, a constituição física de alguns personagens não bate com a descrita da obra original de Jorge Amado. Por exemplo, no filme nem Pedro Bala nem Dora são loiros.

Além disso, algumas adaptações foram feitas no longa-metragem. O padre José Pedro tem pouco destaque no filme. No livro, seu papel tem muito mais relevância. Querido de Deus, o capoeirista, teve mais sorte e não teve sua participação podada nas telas. Pedro Bala tem uma fuga distinta no reformatório onde ficou preso. Essas pequenas alterações do enredo original não prejudicaram a produção. A única que não gostei foi em relação ao desfecho da história dos meninos. Enquanto no livro, Jorge Amado afirmava o destino de cada um dos personagens, explicando o que lhes aconteceu, no filme o Professor explica para José, irmão de Dora, o que ele acha que pode acontecer com cada um. Ou seja, a afirmação se transforma uma mera previsão, sem a obrigação de acontecer.

A trilha sonora foi muito bem escolhida. Ela consegue retratar a cultura e o jeito baiano de ser. Consegue transmitir o mundo da malandragem dos meninos de rua e da capoeira. Passa as influências africanas e da religiosidade tão presentes em Salvador. E soube intensificar a emoção, o drama e ação nos momentos mais críticos da narrativa.

A principal característica do filme "Capitães da Areia", assim como era a proposta do livro, é retratar de maneira realista a vida dos meninos pelas ruas de Salvador. E isto ele conseguiu. Para tal, a produção optou por escolher apenas crianças e adolescentes pobres sem experiência no cinema para interpretar os papéis da turma de Pedro Bala. O trabalho de seleção do elenco foi demorado e exigiu de mais da equipe. Todos os atores mirins foram selecionados a partir de pesquisas em comunidades carentes de Salvador. A busca mobilizou 22 ONGs e se estendeu por quase dois anos. Israel Gouvêa, intérprete do Sem Pernas, por exemplo, foi descoberto em uma clínica de reabilitação por Cecília Amado. A atrofia em suas pernas e em parte do seu corpo são reais, frutos de um acidente quando ele era um bebê. A preparação do elenco demorou dois meses.

A escolha de um elenco inexperiente e formado exclusivamente por meninos e meninas que conheciam a realidade vivenciada nas telas teve suas vantagens e suas desvantagens. As vantagens estavam no maior realismo das cenas e no sotaque baiano dos atores. A desvantagens estavam na pouca qualidade interpretativas dos atores (algo esperado pela idade e pela inexperiência deles) e nos problemas de dicção da maioria deles.

"Capitães da Areia" é um bom filme. Não apresenta tão intensamente as polêmicas e o debate social do livro original, mas consegue levar o público a refletir sobre o drama das crianças de ruas, que de certa forma continua sendo um tema atual no Brasil contemporâneo. Além disso, as adaptações e alterações do enredo original se mostraram, na maior parte das vezes, acertadas, não afetando a qualidade da narrativa.

Veja o trailer de "Capitães da Areia":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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