• Ricardo Bonacorci

Livros: São Bernardo - A obra-prima de Graciliano Ramos


Aproveitei a manhã dessa sexta-feira para ler “São Bernardo” (Martins). Em pouco menos de cinco horas, concluí a leitura das cerca de 250 páginas dessa edição. E agora posso dizer que conheci de fato o grande Graciliano Ramos. Eita livro bom! Bom não. Diria excelente!

“São Bernardo” é o segundo livro publicado pelo escritor. A data de sua primeira edição é 1934. Ou seja, ele chegou às livrarias do país um ano após a edição do romance de estreia, “Caetés”. Logo em seguida, Graciliano Ramos foi preso em decorrência da ação de Getúlio Vargas de fazer frente a Intentona Comunista que se alastrava pelo país.

Para muitos críticos, “São Bernardo” rivaliza com “Angústia” com a melhor obra do escritor alagoano. Se “Vidas Secas” é a publicação mais conhecida, essas outras duas são apontadas como o auge literário de Ramos. Em 1972, o cineasta carioca Leon Hirszman filmou “São Bernardo” e o longa-metragem ganhou vários prêmios em festivais no Brasil e no mundo.

Nesse romance, conhecemos a história de Paulo Honório. O próprio personagem é quem narra sua saga. Logo de início, ficamos sabendo da origem sofrida do sujeito. Ele não conheceu seus pais e desde cedo precisou se sustentar. Criado por uma negra doceira em Alagoas, o menino pobre ralou como ajudante de cego, caixeiro viajante, vendedor de cocada e peão em fazendas do interior. Aos dezoito anos, foi preso ao esfaquear o homem que estava se engraçando com a moça com quem tinha perdido a virgindade. Na prisão, o rapaz aprendeu a ler e escrever.

Outra vez em liberdade, Paulo pegou dinheiro emprestado com um agiota e iniciou uma série de negócios arriscados e ousados pelo sertão nordestino. Economizando ao máximo e realizando operações questionáveis (como ludibriar o filho de um amigo com o intuito de colocar as mãos nas propriedades deles e assassinar o vizinho para ter os limites da sua fazenda expandidos), ele enriqueceu. A marca maior do seu progresso era a fazenda “São Bernardo”. O latifúndio era uma indústria do agronegócio. O poder e a riqueza de Paulo Honório despertaram interesse até do governador do estado, que certa vez foi visitar a propriedade.

Aos quarenta e sete anos, o fazendeiro decidiu se casar. A escolhida foi Madalena, uma delicada e dedicada professora de pouco mais de vinte anos. A escolha de Paulo pareceu, no início, acertada. A moça era dotada de todos os predicados que um homem na posição dele podia exigir. Ela era venerada por todos e tinha uma ótima reputação. Contudo, rapidamente as brigas entre o casal surgiram. As personalidades distintas deles eram as causas dos entreveros. Ela era carinhosa, preocupada com as pessoas, letrada e consciente socialmente. Ele, por sua vez, era seco emocionalmente, bravo, mesquinho e unicamente preocupado com o dinheiro. Obviamente aquele relacionamento estava fadado ao fracasso.

Além da história ser muito boa, dessa vez Graciliano Ramos conseguiu colocar em prática todo o seu talento literário. Apesar do aspecto e dos comportamentos repugnantes de Paulo Honório, acabamos nutrindo certo apreso pelo personagem. Como a narrativa é contada em primeira pessoa, acabamos compreendendo os motivos das ações do rico fazendeiro.

Há alguns recursos estilísticos utilizados que são bem interessantes. O fato do filho do casal não ser citado pelo nome próprio, por exemplo, indica o desprezo que o pai sente pelo garoto. O enredo político que tangia a trama também torna a história mais interessante. Os personagens secundários também possuem uma boa caracterização. A construção deles se faz mais pelos relatos de suas ações do que pela descrição dos seus aspectos físicos.

Em “São Bernardo”, a história possui muita ação. Os capítulos são curtos e objetivos. Se ficamos com a sensação de que o livro não caminha em “Vida Secas” e em “Insônia”, agora a impressão é oposta. Rapidamente as histórias de vida de Paulo Honório, da sua esposa Madalena e daqueles que cercam o casal passam aceleradamente pelos nossos olhos. Parece que estamos assistindo a um filme de ação/suspense, tamanha é a velocidade da narrativa. Ou melhor, o livro parece um documentário, já que tomamos conhecimento dos episódios com base unicamente na visão e na opinião do personagem-narrador.

No meio da leitura, automaticamente me recordei de várias outras obras literárias. O ciúme doentio de Paulo para com sua esposa me fez lembrar de Machado de Assis (“Don Casmurro”). A trama política e a perspectiva comunista que cerca a história é parecida com o estilo de Jorge Amado (principalmente em “Gabriela, Cravo e Canela” e “Capitães de Areia”). A questão do herói da história ser um homem um tanto bruto e sem muitos sentimentos altruísta me remeteu a Emily Brontë (“Morro dos Ventos Uivantes”). O relacionamento amoroso conturbado entre o casal de protagonista é típico de José de Alencar (“Senhora”). E até das novelas de Benedito Ruy Barbosa me lembrei (“Rei do Gado”), com as constantes brigas das poderosas famílias em relação as divisas de suas propriedades.

Se em “Vidas Secas” Graciliano Ramos enfocou o dia a dia da família pobre de retirantes nordestinos, aqui a trama se concentra na vida do coronel local (o fazendeiro rico e autoritário). É evidente o aspecto social da narrativa. Enquanto Paulo Honório faz o papel de sujeito ultrapassado, capitalista, arrogante e ganancioso, Madalena, sua esposa, age como uma comunista, caridosa, preocupada com as pessoas menos favorecidas e disposta a acabar com o status quo.

Esse choque de visões dos personagens principais é um dos ingredientes que levam às denúncias sociais que marcaram fortemente a carreira de Graciliano Ramos. A miséria do povo, a exploração do trabalho dos humildes pelos poderosos, as intrigas políticas e a ganância desenfreada da elite são evidenciadas da primeira à última página. A inserção de ideais esquerdistas em suas obras, assim como aconteceu com Jorge Amado, trouxe muitos dissabores ao alagoano. Porém, esses problemas não o impediram de ingressar, anos mais tarde, no Partido Comunista do Brasil e de viajar com a esposa para os país soviéticos.

O que considerei mais interessante em “São Bernardo” é que essa concha de retalhos de temas variados foi inserida em uma história bem estruturada e muitíssimo interessante. Li facilmente, em algumas horas, essa obra fascinante. As horas passadas foram muitos agradáveis. Depois de ler “Insônia”, juro que não acreditava na capacidade de Graciliano Ramos de proporcionar algo deste tipo ao leitor. Estava equivocado. Agora entendi perfeitamente porque ele é considerado um dos grandes escritores modernistas do nosso país.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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