• Ricardo Bonacorci

Filmes: Dona Flor e Seus Dois Maridos - Um clássico do cinema nacional


"Dona Flor e Seus Dois Maridos" é um filme produzido por Luiz Carlos Barreto e dirigido por Bruno Barreto, tendo a direção de fotografia Murilo Salles. De 1976, esta comédia foi um grande sucesso do cinema brasileiro. Por muitos anos, ela foi a recordista de público, ao levar mais de 10 milhões de espectadores às salas de cinema. Apenas 34 anos depois, Tropa de Elite 2 (2010) conseguiria superar este feito.

A vida de Dona Florípedes Guimarães, conhecida como Dona Flor, com seus dois maridos, Vadinho e Teodoro, seria depois filmada nos Estados Unidos com o título "Meu Adorável Fantasma" (Kiss Me Goodbye: 1982). Em 1998, a Rede Globo produziu uma minissérie sobre esta história com Giulia Gam, Edson Celulari e Marco Nanini nos papéis principais. De autoria de Dias Gomes, Ferreira Gullar e Marcílio Moraes, a minissérie teve direção de Mauro Mendonça Filho.

O filme de Bruno Barreto teve o protagonismo de Sônia Braga, no papel de Dona Flor, de José Wilker como Vadinho (o primeiro marido de Florípedes) e Mauro Mendonça interpretando Teodoro (o segundo esposo). A atuação dos três foi tão espetacular que eles ficaram marcados para sempre como os rostos destes três personagens. Até hoje, quando falamos em Dona Flor, Vadinho e Teodoro, nos vem na mente as imagens, respectivamente, de Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça. Sônia Braga fez tanto sucesso neste papel que seria chamada posteriormente para fazer outro personagem importante da obra do escritor baiano, Gabriela, no filme homônimo produzido em 1983, pelo mesmo Bruno Barreto. Assim, a atriz ficaria marcada para sempre como a imagem concreta da mulher sensual concebida por Jorge Amado.

O enredo do filme, como não poderia ser diferente do livro, aborda a história de Dona Flor, uma professora de culinária, proprietária da escola Sabor & Arte. Depois de perder seu primeiro marido, o malandro Vadinho, morto durante o Carnaval, a viúva se casa, após respeitar o período de luto, com Teodoro, um respeitável farmacêutico da cidade. Apesar de ter arranjado um ótimo marido, Flor ainda sente saudade do primeiro marido. E após pedir para que ele voltasse, o espírito do falecido retorna para ela. A antiga esposa de Vadinho é a única capaz de vê-lo, o que provoca cenas curiosíssimas. E é exatamente por isto que começam as confusões na vida de Dona Flor. Insistindo em manter a fidelidade a Teodoro, ela resiste o quanto pode aos avanços libidinosos do primeiro marido, até cair na tentação.

O filme de Bruno Barreto respeita fielmente a narrativa do livro de Jorge Amado. Este, talvez, seja o grande mérito do longa-metragem e o principal fator do seu grande sucesso. Ele começa exatamente como se inicia a obra literária, com a morte de Vadinho em pleno Domingo de Carnaval. O ano era 1943. Depois, a narrativa avança para o velório e para o enterro do malandro. Nestes dois momentos, enquanto os amigos louvavam os feitos do falecido, as amigas de esposa dele o condenavam como o pior marido que Dona Flor poderia ter arranjado.

Com o estabelecimento da viuvez de Dona Flor, a retrospectiva da vida do morto é feita através do recurso de flashback. Dona Flor lembra como era o tempo de casada com o seu primeiro marido. Tanto no livro quanto no filme sabemos quem foi Vadinho por estas lembranças. Ou seja, as duas obras (livro e filme) utilizam da retrospectiva para contextualizar a história. Viciado em jogo, frequentador assíduo dos cassinos, dos bares e das casas de meretrizes da cidade, infiel contumaz (inclusive traiu a esposa na noite do casamento), flertando até com as alunas do curso de culinária da esposa, Vadinho era o orgulho dos amigos. Vagabundo incorrigível, andava seminu pela casa (só de shortinho, meio indecente), vivia bêbado e pedindo dinheiro para todo mundo para apostar em jogo e em apostas das mais variadas. Chegava a bater na mulher porque ela não queria lhe dar uns trocados. Mas, ao mesmo tempo, era um marido apaixonado por Dona Flor, capaz de levá-la a loucura na cama e também fazer gestos de romantismo, como proporcionar serenatas à noite, na porta da janela de casa. Também lhe dava presentes caros como joias e a levava, de vez em quando, para passeios memoráveis. A atuação de José Wilker como Vadinho é espetacular!

A representação do segundo marido de Dona Flor também foi muito bem feita por Mauro Mendonça. Entrando em ação principalmente na segunda metade do longa-metragem, o ator consegue conferir ao personagem um aspecto sério, honrado e regrado. Teodoro é o oposto do primeiro marido de Dona Flor. Ele é trabalhador, honesto, fiel, culto, carinhoso, educado, sistemático e civilizado. Flor adora o segundo esposo, tendo o maior respeito e consideração por ele. Entretanto, o casamento perfeito, como este é intitulado por todos, não satisfaz plenamente a protagonista. Ela sente falta da paixão e dos momentos carnais vivenciados com o primeiro marido, quase inexistentes no segundo matrimônio. De certa forma, o ideal seria unir Vadinho e Teodoro em uma única pessoa. Afinal, os dois se completam. É isto que, de certa forma, Dona Flor tenta fazer ao ficar com os dois.

O filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos" tem trilha sonora de Chico Buarque e Francis Hime. A música principal é "O que Será?" (1976), interpretada pela voz potente e marcante de Simone. Chico ficou responsável pela letra, enquanto Hime cuidou da melodia. Esta é uma das músicas mais libidinosas de Chico Buarque, se encaixando perfeitamente ao enredo desta ficção. Ela foi desenvolvida pelo músico especialmente para este filme, possuindo três versões, denominadas "Abertura", "À Flor da Pele" e "À Flor da Terra". Cada uma destas versões é uma música independente, feitas para marcar diferentes passagens da trama. A escolha desta canção para integrar o longa-metragem foi uma decisão sábia, pois ela consegue pontuar e valorizar os principais momentos da produção cinematográfica.

Um dos pontos que mais chama a atenção deste longa-metragem é a sua sensualidade e sua sexualidade. Típicas da obra de Jorge Amado, estas questões se evidenciam na tela pela maneira arrojada como as cenas foram filmadas. Aqui temos muita influência da Pornochanchada, gênero do cinema brasileiro que teve seu auge exatamente na época da produção deste filme, na década de 1970. Questionando os costumes e explorando o erotismo, as Pornochanchadas usavam e abusavam da nudez e das cenas de sexo. E é exatamente o que temos aqui. "Dona Flor e Seus Dois Maridos" mostra tudo (ou quase tudo). Vadinho é um libertino, capaz de fazer sexo com todas as mulheres, a todos os momentos. José Wilker fica completamente pelado na maioria das cenas depois que seu personagem volta depois de morto.

Assim como acontece no filme "Gabriela", este também é muito sinestésico. Temos uma confluência de sentidos. A audição é aflorada (as serenatas protagonizadas por Vadinho e os concertos de Teodoro são encantadores, além de todo momento alguém estar cantando em cena), o paladar é realçado (as receitas de Dona Flor parecem ser deliciosas), a visão é valorizada (principalmente com os enquadramentos de câmera das partes mais atraentes dos corpos dos atores) e o tátil é reforçado a todo instante (Vadinho está a todo momento mexendo em seu corpo ou nos das mulheres a sua volta).

O principal defeito do filme está atrelado ao principal problema da história escrita. A parte mais interessante desta obra é quando Vadinho volta, depois da morte, para atazanar o cotidiano de Dona Flor. Tanto o livro quanto o filme gastam a quase totalidade do seu tempo narrando a vida de Flor com Vadinho e, depois, com Teodoro, deixando para o finalzinho as confusões provocadas pela presença dos dois maridos juntos. Esta parte poderia ser mais explorada, tanto na produção literária quanto na cinematográfica, pois é quando se concentra os momentos mais ricos, inovadores e cômicos, narrativamente falando.

O filme, como é típico de qualquer adaptação para este gênero, acabou suprimindo a atuação de alguns personagens da obra literária. Quem foi mais prejudicada foi a mãe de Dona Flor, Dona Roselina. Nos textos de Jorge Amado, a velha senhora é retratada como uma megera, a atazanar a vida de todos a sua volta. No filme, ela tem passagens pontuais, não ficando tão claro este papel de vilã da história. As amigas de Dona Flor e os amigos de Vadinho também têm um peso menor no filme. Alguns destes personagens foram completamente suprimidos da história contada na tela.

O filme de Bruno Barreto consegue retratar muito bem Salvador da década de 1940. Porém, seu grande mérito está em ser fiel a obra escrita de Jorge Amado. Afinal, seria um pecado fazer qualquer grande mudança nesta história tão sublime. A atuação fantástica dos atores principais também contribuiu sensivelmente para colocar esta produção em um patamar mais elevado de qualidade.

Além do sucesso de bilheteria, "Dona Flor e Seus Dois Maridos" foi congratulado com dois Kikitos, no Festival de Cinema de Gramado, um na categoria de melhor diretor e outro na de melhor trilha sonora. Recebeu também uma indicação ao Globo de Ouro na categoria de melhor filme estrangeiro e uma indicação ao Bafta (a principal premiação da Inglaterra) na categoria atriz revelação (para Sônia Braga). Trata-se de um grande filme para uma ótima história, uma referência do cinema nacional.

Veja o trailer de "Dona Flor e Seus Dois Maridos":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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