• Ricardo Bonacorci

Filmes: Tenda dos Milagres - O preconceito e o racismo na Bahia de Jorge Amado


Um ano após o sucesso retumbante de crítica e de público, nos cinemas brasileiros, do filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976), dirigido por Bruno Barreto, o cineasta Nelson Pereira dos Santos lançou o longa-metragem "Tenda dos Milagres" (1977). Nesta época, Pereira dos Santos já era um dos mais importantes cineastas nacionais, pioneiro do Cinema Novo no Brasil e muito influenciado pelo Neo-Realismo italiano. É dele, por exemplo, o clássico "Vidas Secas" (1963), filme baseado no romance de mesmo nome de Graciliano Ramos e que ganhou muitos prêmios internacionais (conquistou o OCIC e Prêmio dos Cinemas de Arte, além de ter sido indicado a Palma de Ouro daquele ano).

Com Hugo Carvana no papel de Fausto Pena, Sônia Dias como Ana Mercedes, Jards Macalé e Juarez Paraíso interpretando Pedro Archanjo (em diferentes momentos, o primeiro no período jovem do personagem e o segundo no momento mais maduro) e Nildo Parente como o Professor Nilo Argolo, o filme foi baseado na obra homônima de Jorge Amado, publicada oito anos antes, em 1969. O próprio autor da obra literária participou da elaboração e da adaptação do roteiro do longa-metragem, conferindo mais autenticidade à produção cinematográfica.

O espaço de tempo entre o lançamento do livro e do filme representou muitas mudanças no cenário político-social do país. Em 1969, quando Amado publicou "Tenda dos Milagres", o Brasil tinha acabado de instaurar o AI-5, o Ato Institucional No 5, que restringia as liberdades da população e o seu direito à livre expressão. Assim, o escritor baiano foi muito corajoso ao debater temas políticos em sua obra. Oito anos mais tarde, em 1977, o país já estava se preparando para a retirada gradual dos militares do poder. Assim, foi mais tranquilo para o cineasta Nelson Pereira dos Santos debater as ideias de Jorge Amado, sem sofrer muito com a censura e com a perseguição dos poderosos.

Nos cinemas nacionais, "Tenda dos Milagres" não teve o mesmo sucesso de "Dona Flor e Seus Dois Maridos". O novo filme não alcançou um décimo da bilheteria do seu antecessor. Mesmo assim, em 1985, a Rede Globo lançou uma minissérie televisiva com esta história, obtendo relativo sucesso.

No filme de Nelson Pereira dos Santos, temos a mesma dinâmica encontrada no livro de Jorge Amado: a história é contada em dois períodos de tempo distintos. Ora estamos no final da década de 1969, quando o poeta Fausto Pena se encarrega de pesquisar sobre a vida e sobre a obra de Pedro Archanjo. Archanjo foi alçado do completo desconhecimento à fama repentina (e póstuma) por uma declaração do prêmio Nobel, o intelectual norte-americano James D. Levenson. Em outro momento, voltamos ao final do século XIX e ao início do século XX e passamos a acompanhar a trajetória de vida de Pedro Archanjo, mulato simples e pobre que trabalhava como bedel na Faculdade de Medicina da Bahia quando passou a escrever livros defendendo a mestiçagem do povo brasileiro. O filme é um constante vai e volta entre esses dois períodos de tempo, conferindo certo dinamismo à produção.

O enredo do filme respeita, na maior parte do tempo, a história original de Jorge Amado. Foram poucas as adaptações necessárias para o longa-metragem. Uma delas foi a inclusão da produção de um filme, por parte do poeta Fausto Pena, sobre a vida e as obras de Pedro Archanjo. Enquanto na literatura o poeta desenvolveu um livro sobre o seu conterrâneo (fica implícito que o livro que lemos de Jorge Amado é aquele escrito por Pena), no filme não existe um livro e sim um longa-metragem (neste caso a metalinguagem permanece e entendemos que o filme de Fausto Pena é aquele que assistimos na tela de Nelson Pereira dos Santos).

Além disso, na produção cinematográfica de Pereira dos Santos, há a inclusão de muitas cenas com notícias jornalísticas da TV comunicando algum acontecimento do país e de Salvador, algo incomum no livro de Jorge Amado. O filme, por exemplo, começa com o comunicado televisivo sobre a previsão de tempo ("tempo bom, temperatura amena"), que em um contexto ditatorial assume uma conotação satírica e de paródia (como pode estar tudo bem se o país sofre com ditadores no poder?!).

Outra mudança se deu na cena que retrata a morte de Pedro Archanjo. Se no livro ele morre na rua, atuando em um movimento social e pensando em escrever um novo livro, no filme ele morre em uma festa promovida por Damião de Souza (seu amigo) em um decadente prostíbulo onde ele foi morar de favor.

As questões sobre a miscigenação e o debate sobre o preconceito racial permeiam o filme o tempo inteiro. Desde o início podemos perceber isso. As imagens fotográficas do século XIX com brancos e negros convivendo em espaços públicos e privados chama a atenção do espectador na abertura da produção. Algumas destas fotos mostram negros vestidos à moda dos brancos, enquanto outras imagens destacam a africanidade deles. Depois, com o desenrolar do filme, temos muitos debates e várias discussões, principalmente entre os professores da Faculdade de Medicina da Bahia, sobre a questão racial. Pedro Archanjo defende o processo de miscigenação da população brasileira e Nilo Argolo defende a segregação racial. Os diálogos são ótimos e foram muito bem extraídos do livro.

A trilha sonora ajuda a criar um clima de "África" e de "Brasil Negro" para a trama. A canção “Babá Alapalá”, de autoria de Gilberto Gil, embala as principais cenas do filme e é marcante.

O principal ponto negativo do filme está no excesso de personagens, o que torna, às vezes, a história um pouco confusa para quem não leu o livro. Aqueles que não gostam de filmes com muitos diálogos e com tramas sem grandes acontecimentos podem achá-lo um pouco chato e tedioso. Esta impressão é a mesma que tive ao ler o livro.

"Tenda dos Milagres" foi indicado na categoria "Melhor Filme" na Palma de Ouro e ganhou os prêmios de "Melhor Diretor" (Nelson Pereira dos Santos) e de "Melhor Atriz" (Sônia Dias como Ana Mercedes) no Festival de Cinema de Brasília de 1977.

Veja um trecho de "Tenda dos Milagres":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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