• Ricardo Bonacorci

Livros: O Monge e o Executivo – O best-seller de James C. Hunter


No último final de semana, fui até a estante do meu quarto para pegar um livro que eu tinha achado muito interessante há sete ou oito anos. Minha dúvida, agora, era se ele me surpreenderia positivamente numa segunda leitura. A passagem do tempo seria ou não seria um adversário cruel para esta publicação?! Estou falando de “O Monge e o Executivo” (Sextante), a principal obra da carreira do norte-americano James C. Hunter. Se você ainda não a leu, aposto que ao menos já ouviu falar dela. Impossível alguém que tenha frequentado minimamente as livrarias brasileiras na última década não ter se deparado com este título em algum momento.

Nas páginas de “Um Monge e o Executivo”, temos um debate franco sobre as formas modernas de liderança e de gestão de pessoas. Com perspicácia, o autor apresenta essas questões através de uma narrativa ficcional, o que tira um pouco o tom didático e professoral do livro. Ou seja, por meio de uma pequena novela, o leitor compreende as diferenças entre o estilo de administração antigo e o moderno, uma questão que tem preocupado muitos profissionais nos últimos anos. Atire a primeira pedra quem ainda não perdeu o sono com algo nesse sentido!

Adianto que, mais uma vez, não fiquei nem um pouco decepcionado com esta leitura. Mais de uma década e meia após seu lançamento, “O Monge e o Executivo” continua cumprindo magnificamente bem seu propósito de orientar executivos, empresários, gerentes, supervisores e líderes organizacionais na trilha de como devem atuar. Apesar de muitos dos seus conceitos serem atualmente clichês, a obra permanece atual e didática.

Para quem achava que na minha biblioteca só havia títulos na área de literatura, confesso que ela possui uma boa dose de livros de negócios. São os resquícios da época em que trabalhava como executivo de empresas nacionais e multinacionais. Contudo, ressalto que, à princípio, não gosto (nunca gostei) de publicações voltadas para a autoajuda e com propostas muito midiáticas de liderança e gestão. Acho este tipo de literatura empresarial pobre e com um cheirinho de oportunismo. Por isso, minha recusa, na maioria das vezes, de comentá-las no Blog Bonas Histórias. Geralmente, leio essas obras com os “dois pés atrás” (ou seria com “a pulga atrás da orelha”?).

Surpreendentemente, minha previsão e os meus preconceitos estavam errados neste caso. Lembro de ter gostado muitíssimo de “O Monge e o Executivo” na época em que o li pela primeira vez. Diferentemente da maioria dos seus similares, este livro consegue despertar no leitor uma reflexão profunda e inteligente sobre a forma como ele (o leitor) tem agido, seja no âmbito familiar, profissional ou pessoal. Não à toa, esta criação de James C. Hunter se transformou, com todo merecimento, em um dos maiores best-sellers do gênero em nosso país.

Lançado, em 1998, nos Estados Unidos com o título “The Servant”, “O Monge e o Executivo” foi publicado no Brasil em 2004. E em nosso território, a obra se tornou um dos maiores sucessos editoriais da área empresarial. Até hoje, este é o livro de maior vendagem da editora Sextante, com aproximadamente 3 milhões de unidades comercializadas. Na América do Norte, por outro lado, a publicação de Hunter só vendeu 200 mil exemplares, pouquíssimo se comparado ao seu desempenho no Brasil – um mercado infinitamente menor do que o norte-americano.

Curiosamente, James C. Hunter não é um escritor profissional - do tipo romancista ou que trabalha prioritariamente para vender seus livros. Ele é consultor empresarial e sócio de uma empresa de consultoria e treinamento especializada em liderança organizacional. Hunter também se dedica a realizar palestras motivacionais, principalmente nos Estados Unidos. Na esteira do sucesso de “O Monge e o Executivo”, o autor deu sequência aos conceitos apresentados em seu livro mais famoso. “De Volta ao Mosteiro” (Sextante) e “Como Se Tornar um Líder Servidor” (Sextante) são algumas das obras do norte-americano que foram traduzidas para o português.

“O Monge e o Executivo” é um texto em primeira pessoa narrado por John Daily, um alto executivo de uma empresa em Michigan. O protagonista está vivendo uma séria crise tanto no âmbito profissional quanto no doméstico. No trabalho, Daily é alvo das críticas dos funcionários e dos colegas por causa de seu estilo de gestão turrão e pouco democrático. Se no passado, ele se tornou o gerente mais jovem da companhia, considerado um talento raro, hoje o executivo vive atormentado com o baixo desempenho da sua equipe, a ação cada vez mais nefasta do sindicato e o desânimo geral. Em casa, por sua vez, o casamento de John também não vai nada bem. Tanto a esposa, Rachel, quanto os dois filhos adolescentes do casal reclamam da ausência e do pouco caso que a personagem central da trama tem em relação às suas rotinas.

Para refletir sobre seus problemas, John Daily vai passar uma semana no mosteiro João da Cruz, localizado às margens de um lago em Michigan. Naquele lugar bucólico e com muita natureza, ele vivenciará uma mistura de retiro espiritual com aulas sobre liderança. Ao todo, a turma de John é composta por seis alunos. Além dele, temos Lee, um pastor evangélico, Greg, um sargento do Exército, Teresa, diretora de uma escola, Chris, uma treinadora de um time de basquete, e Kim, uma experiente enfermeira. O professor do sexteto é um monge idoso chamado Simeão.

Antes de virar monge e passar a viver enclausurado no mosteiro João da Cruz, Simeão, que ganhara esse nome após sua conversão, havia trabalhado por muitas décadas como diretor e presidente em grandes companhias norte-americanas. Leonard Hoffman (esse é seu nome de batismo) liderou empresas que passavam por dificuldades financeiras e as levou de volta ao sucesso comercial. Por isso, se tornou uma das figuras mais respeitadas no mercado empresarial de seu país. Porém, hoje em dia, Simeão/Leonard atua quase que anonimamente na orientação de pessoas interessadas em conhecer o estilo de liderança chamado de servidor. Ou seja, abandonou uma carreira de sucesso para viver quase que isolado no interior de um centro religioso.

É através das discussões protagonizadas nas aulas diárias com Simeão que John, Lee, Greg, Teresa, Chris e Kim poderão refletir sobre suas crenças e seus comportamentos. Os capítulos do livro são, basicamente, o relato dos diálogos travados entre a turma de alunos e o professor-monge sobre a liderança servidora. Cada capítulo da obra apresenta um dia do retiro espiritual do grupo no mosteiro (ou seja, são 7 capítulos).

“O Monge e o Executivo” é uma publicação com uma leitura extremamente rápida. Com menos de 140 páginas, é possível ler a obra integralmente em uma única tarde. Foi o que fiz no último sábado. Demorei entre três e quatro horas para concluí-la.

O que chama a atenção logo de cara neste livro é a falta de ação em sua narrativa. A trama está quase que totalmente ancorada nos diálogos. Para sorte do leitor, James C. Hunter sabe produzir boas conversas. Acabamos conhecendo a vida, os pensamentos e os dramas de cada uma das personagens através do que elas dizem. Nesse sentido, não achei a obra parada ou entediante. Pelo contrário. Sua vitalidade está diretamente associada à qualidade dos diálogos travados. Repare na riqueza conceitual e filosófica por trás do que é discutido nas aulas de Simeão.

O conflito central da obra está na resistência da turma em assimilar os conceitos apresentados por Simeão. De maneira esquemática, temos uma disputa ideológica entre alunos (sistema antigo de gestão de pessoas) e professor (sistema moderno de gestão de pessoas). Todos os participantes da aula são, de alguma forma, resistentes (uns mais do que outros, obviamente) à prática da liderança baseada na autoridade (e não na do poder, como é normalmente visto em nossa sociedade). Pouco a pouco, contudo, cada um dos integrantes da turma vai entendendo e absorvendo os ensinamentos do religioso (assim como o leitor também absorve suas lições).

Hunter foi tão feliz em sua produção que ele conseguiu criar heróis e antagonistas dentro da turma de Simeão. Note na ojeriza que Greg desperta nos colegas, e, principalmente, em John. A postura de confronto do protagonista em relação ao sargento é muito sintomática. Será que John não agia igualzinho a Greg antes de passar a semana no mosteiro? A impressão pelos seus comportamentos é que a resposta é positiva a esta pergunta.

Outro aspecto elogiável é a objetividade do texto de James C. Hunter. O autor não perde tempo com nada que não seja essencial. Ele vai direto ao ponto, o que deixa sua história mais rápida e interessante para o leitor.

É verdade que “O Monge e o Executivo” tem seus problemas de ordem narrativa. A maioria dos diálogos, apesar de excelente, é pouco verossímil. Não conheço ninguém que converse apresentando tão bem fontes bibliográficas como os alunos do mosteiro João da Cruz. Além disso, todos os participantes trocam impressões profundas sobre os conceitos apresentados pelos colegas como se tivesse ouvido, lido e analisado em profundida cada livro comentado. Já participei de muitos workshops e cursos de excelente qualidade e isso não acontece na prática.

Outro problema conceitual está nas derrapadas de ordem religiosa. Quando o texto começa a descambar para a doutrinação cristão e os elogios hiperbólicos a Jesus Cristo, o livro perde um pouco de sua vitalidade. A tentação de explicar a força da liderança servidora comparando a atuação de figuras religiosas e até mesmo a presença de Deus (?) me parece um recurso apelativo do autor, se bem que condizente com a personalidade de Simeão, o professor religioso.

Tenho a impressão de que quando “O Monge e o Executivo” foi lançado no final da década de 1990, muitos dos conceitos abordados por Hunter em seu texto não eram tão clichês como são agora. A disseminação dos princípios, dos exemplos e das referências apresentados nos capítulos da obra só atingiu, em grande parte, às massas (de profissionais engravatados, obviamente) graças ao sucesso retumbante desta publicação.

Nesse sentido, “O Monge e o Executivo” é um livro muito bom e atual, apesar de ter perdido um pouco de sua força exatamente por ter se tornado um best-seller. É como se uma ótima música, depois de tantas vezes ouvida na rádio, tivesse se transformado em algo brega, de segunda categoria ou repleta de chavões. A culpa desse envelhecimento prematuro não é da canção, propriamente dito, e sim do excesso de vezes em que ela é ouvida. Acho que o mesmo pode ser aplicado ao “Monge e o Executivo”.

Continuo gostando muito deste livro e do trabalho de James C. Hunter. Tenho certeza que se voltar a ler essa obra daqui a sete ou oito anos, continuarei gostando do seu conteúdo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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