• Ricardo Bonacorci

Livros: Insônia - Os contos de Graciliano Ramos


Neste final de semana, reli “Insônia” (José Olympio), uma obra de contos de Graciliano Ramos (já havia lido essas histórias há mais de vinte anos). Publicado originalmente em 1947 (seis anos antes da morte do escritor), esse livro demonstra o lado contista de Graciliano, tão identificado com os romances regionais. A publicação possui treze histórias: “Insônia”, “Um ladrão”, “O relógio do hospital”, “Paulo”, “Luciana”, “Minsk”, “A prisão de J. Carmo Gomes”, “Dois dedos”, “A testemunha”, “Ciúmes”, “Um pobre-diabo”, “Uma visita” e “Silveira Pereira”. As tramas são independentes entre si, apesar de haver a repetição de personagens em alguns contos.

Para ser sincero, não gostei do livro. O motivo? Primeiramente, poderia dizer que achei os enredos muito pessimistas. Os temas preponderantes são: morte, doença, limitação física, envelhecimento, crimes e injustiça social. O clima, na maior parte da publicação, é pesado e mórbido. Aqui temos um Graciliano Ramos amargo, angustiado e pessimista com o ser humano, com a sociedade e com o mundo. Acredito que o escritor (já idoso e debilitado) tenha colocado no papel todas as suas preocupações com o fim de sua vida.

Contudo, não é essa a razão principal do meu desgosto. Afinal, sempre goste de Edgar Allan Poe, Stephen King, Mário de Sá-Carneiro, John Steinbeck e Herman Melville, autores que tiverem a proposta de enaltecer o lado obscuro e sombrio da nossa existência.

Se não foi a temática, talvez tenha sido a forma na qual os contos foram escritos que me desagradaram tanto. Considerei a narrativa muito seca, tanto em relação aos vocábulos utilizados quanto à expressividade emotiva. Assim como em “Vidas Secas”, Graciliano é muito econômico na narração dos acontecimentos, preferindo descrever de maneira indireta as emoções dos seus personagens (quase sempre com problemas de relacionamento e com dificuldades para externar suas emoções) e as situações do que expor os fatos. Com isso, cada conto se torna mais uma trama de cunho psicológico do que uma explanação factual. Se no romance de Fabiano e Dona Vitória esse recurso se tornou incrível (retratando a realidade do cenário e da alma dos sertanejos), aqui ele se mostrou enfadonho e repetitivo. Há pouquíssimos diálogos nas tramas (quando há, eles são monossilábicos e pouco representativos). A sensação é que cada personagem vive uma vida solitária, completamente desvinculada dos demais. Parece que estamos lendo um testemunho (a maioria das histórias é em primeira pessoa). O livro tem, assim, certo ar documental.

Sei que talvez tenha sido exatamente essa a intenção de Graciliano Ramos: demostrar toda o seu incômodo em relação à vida com uma narrativa opressora e angustiante. E nada mais natural do que transmitir essa sensação provocando-as no leitor. A história que abre o livro, “Insônia”, por exemplo, é um belo conto. Descrevendo, em primeira pessoa, os pensamentos de um homem que sofre para dormir à noite, acabamos sendo jogados para a cama com aquele indivíduo. Somente quando compreendemos as angústias do sujeito, passamos a entender suas ações. Todas as suas frustrações e moléstias são sentidos por nós, leitores. Neste aspecto, o conto é incrível.

Um ponto interessante da obra é a mudança de cenário. Dessa vez, Graciliano Ramos abandona o sertão para abordar a cidade. Quase todas as tramas são ambientadas na região urbana (provavelmente o Rio de Janeiro, cidade onde o escritor morava naquele momento). Assim, temos uma nova perspectiva do autor, que ficou exatamente conhecido por retratar o cenário rural e sertanejo.

Agora que estou externando essa minha impressão, acho que consegui chegar a uma conclusão definitiva. O problema do livro não está na sua temática nem na sua estética. Afinal, se fosse analisar todos os contos separadamente, acredito que iria avaliar a maioria de forma positiva. Contudo, quando os agrupados, eles se tornam cansativos. O cenário doentio e mórbido, constituídos por personagens frios emocionalmente, causam tanta repulsão e ojeriza no leitor que compromete a leitura. Admito que pensei em parar de lê-lo várias vezes (só continuei por causa do compromisso de analisá-lo depois).

Assim, depois do bom romance “Vidas Secas”, acho que os contos de “Insônia” ficaram a desejar. Vamos ver se tenho uma melhor impressão do próximo livro do Desafio Literário: “São Bernardo” (Record). Até o próximo post do Blog Bonas Histórias!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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