• Ricardo Bonacorci

Livros: Memórias do Cárcere - O prisioneiro Graciliano Ramos


Acabei hoje um dos livros de memórias de Graciliano Ramos. O escritor alagoano teve duas obras desse gênero publicadas: “Infância” (José Olympio) em 1945 e “Memórias do Cárcere” (Record) em 1953. Enquanto a primeira relatava a vida do jovem no interior alagoano, a segunda narrava os meses de prisão que precisou cumprir, já adulto, devido à perseguição política instaurada no país na metade da década de 1930. Pelo peso histórico, a leitura escolhida por mim foi a segunda.

“Memórias do Cárcere” foi publicada alguns meses depois da morte do escritor. Ela foi lançada inacabada, pois o autor não conseguiu escrever o desfecho da trama. Ao invés de escrever os capítulos derradeiros dessa passagem de sua história (descrevendo como ele saiu da prisão), Graciliano ficou postergando o trabalho, que dizia ser breve, de algumas semanas apenas. Com sua morte, ficamos sem saber o que de fato aconteceu.

Há também quem acuse a família Ramos de ter aceitado os pedidos de vetos e de cortes feitos pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual Graciliano era afiliado. Essa acusação teria provocado certa censura na obra original. Sinceramente, não acredito nessa versão.

Em dois volumes, que totalizam quase 700 páginas, a narrativa se concentra no período de 1936, quando Graciliano Ramos foi preso pelo governo de Getúlio Vargas. Naquele ano que precedeu a instalação da ditadura do Estado Novo, os políticos estavam assustados com uma possível revolução socialista no país. A Intentona Comunista, de Luís Carlos Prestes, em 1935, havia tentado dar um golpe no governo, mas acabou frustrada pela intervenção militar.

Graciliano, que nesta época era diretor de Instrução Pública de Alagoas, foi preso confundido com comunista. Curiosamente, nesse período, o escritor ainda não tinha uma ideologia socialista plenamente desenvolvida (só iria se filiar formalmente ao Partidão em 1945). Em 1936, ele apenas promovia um trabalho voltado para os pobres em sua passagem pelo Estado alagoano. Além disso, suas duas primeiras obras publicadas (“Caetês” e “São Bernardo”) faziam reflexões sobre o poderio econômico dos mais ricos, as injustiças sociais e a miséria do povo. A atuação e a literatura mais esquerdistas provocaram muitos inimigos e, provavelmente, despertaram a suposição de que se tratava de um comunista instalado em um gabinete do governo estadual e com capacidade para escrever romances.

Ainda desconhecido do grande público, (“Caetês” e “São Bernardo” não haviam caído, até então, na graça do público leitor e “Angústia”, o terceiro romance, havia acabado de ser enviado para a editora), Graciliano precisou contar com a colaboração de amigos para escapar da prisão. Vale a pena destacar a atuação marcante de José Lins do Rego (conforme descrito no próprio livro). O romancista paraibano, já conceituado nesse período, não foi apenas importante para livrar Graciliano da cadeia, mas foi decisivo para a publicação dos novos livros do alagoano.

Após a experiência no cárcere, o autor “guardou” sua história por quase uma década, quando, enfim, decidiu escrever sobre os meses terríveis passados nas prisões do país (em Maceió, Recife e Rio de Janeiro). Desse relato, temos “Memórias do Cárcere”.

O primeiro livro tem aproximadamente 380 páginas. Nele, lemos sobre as duas primeiras partes da obra, intituladas de “Viagens” e “Pavilhão dos Primários”. Em “Viagens” tomamos conhecimento da esquisita demissão do diretor de Instrução Pública de Alagoas. Graciliano estranhou aquela postura do governador e já percebeu que algo de ruim iria acontecer com ele. Já prevendo sua prisão, arrumou sua mala, despediu-se da esposa e dos filhos e ficou aguardando a chega da polícia, que se concretizou no final da tarde. Levado pela polícia, o escritor foi enviado, no dia seguinte, para uma base do exército em Recife, onde passou algumas semanas. De lá, embarcou no navio “Manaus”, sendo despachado para o Rio de Janeiro. Durante essa viagem no porão da embarcação, misturado com prisioneiros comuns e perseguidos políticos, temos um retrato de um dos piores momentos da trama. Em um porão insalubre e abarrotado de gente, ficamos conhecendo um pouco o horror do cárcere e a degradante condição que o ser humano pode chegar.

Ao chegar ao Rio de Janeiro, Graciliano Ramos é enviado para uma penitenciária. Para sua sorte, é colocado no Pavilhão dos Primários. Assim, começa a segunda parte da história. Nessa ala, há um conforto um pouco maior se compararmos as condições descritas na ala onde ficavam a maioria dos presos. Essa regalia é rapidamente esquecida quando ficamos sabendo como é o dia a dia daquele lugar.

O autor narra seu cotidiano, as pessoas que conhece, a dinâmica de uma prisão durante a década de 1930, as intrigas políticas da época e seus medos e incertezas. Curiosamente, somos apresentados às personalidades históricas que também cruzaram por aquelas celas, como Olga Benário (esposa judia de Luís Carlos Prestes, que seria depois enviada para ser morta na Alemanha nazista), Rodolfo Ghioldi (comunista argentino preso e torturado no Brasil) e Epifrânio Guilhermino (revolucionário comunista do Rio Grande do Norte). Há citações também sobre relevantes figuras da história de nosso país como Filinto Muller (chefe da polícia de Vargas), José Olympio (fundador da editora que leva seu nome) e José Lins do Rego (escritor amigo de Graciliano).

O relato também se estende aos tipos comuns que se abrigavam na prisão. Aí ficamos sabendo das histórias sobre rebeliões dos prisioneiros (por melhores comida, por exemplo), intrigas e parcerias entre presos e policiais (a corrupção policial permitia a entrega de certos produtos e alguns privilégios) e abusos sexuais (tanto na prisão quanto nas viagens no porão dos navios).

No segundo livro, somos apresentados à terceira e quarta partes da obra, chamadas de “Colônia Correlacional” e “Casa de Correção”, respectivamente. O autor é enviado, após alguns meses no Pavilhão dos Primários, para a temida Colônia Correlacional. Lá os presos sofrem privações, são tratados como animais e são forçados a trabalhar até a exaustão física. Não é surpresa que muitos de definham e morrem ali mesmo. Graciliano emagreceu muito neste período (não conseguia se alimentar por ojeriza dos pratos servidos). Ele passou por maus bocados, porém não precisou trabalhar. Ele ficou alojado em uma ala para doentes. A perna do escritor dava sinais de que a operação que tinha passado alguns anos antes não ia bem. Contudo, ele preferiu sofrer a passar pelas mãos pouco cuidadosas dos médicos da penitenciária.

As coisas só melhoraram quando Graciliano foi enviado, após meses no “inferno”, para a Casa de Correção. No novo lugar, ele contava com o respeito dos policiais e dos presos. Destinado exclusivamente aos prisioneiros políticos, a Casa de Correção oferecia um tratamento VIP aos seus usuários. Para ser ter uma ideia, o diretor da prisão, quando viu que Graciliano estava tentando escrever contos no meio dos presos, reservou-lhe uma sala exclusiva para ele trabalhar em paz. Apesar das melhores condições, ele e seus colegas ainda estavam confinados, desprovidos de liberdade.

Para a alegria do narrador, “Angústia” foi publicado, gerando interesse do público pelo escritor. Um advogado conceituado também foi contrato para livrá-lo da cadeia. É nesse momento em que a obra acaba. O último capítulo é uma explicação breve do filho de Graciliano, Ricardo, justificando esse final abrupto: “Faltava apena um capítulo dessas memórias, quando morreu Graciliano Ramos”.

Assim, ficamos sem saber o desfecho. Quem tiver interesse, pode assistir ao filme “Memórias do Cárcere”, de 1984. Na produção de Nelson Pereira dos Santos, diretor que levou para o cinema várias histórias de escritores brasileiros como Jorge Amado (“Tenda dos Milagres” e “Jubiabá”), Graciliano Ramos (“Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere”) e Guimarães Rosa (“Terceira Margem do Rio”), temos enfim a cena do autor deixando a prisão e ganhando a liberdade (o que de fato aconteceu, mas não foi narrada no livro).

O livro é bom, porém é muito inferior, por exemplo, a “São Bernardo”. O principal problema de “Memórias do Cárcere” foi a tentativa de Graciliano Ramos em relatar tudo o que aconteceu com ele neste período, descrevendo também todas as pessoas que ele se recordava. Assim, a obra ganhou uma extensão maior do que deveria. Há muitos capítulos nos quais a narração e a ação são colocadas de lado e o autor se perde em reflexões vagas (característica típica de Graciliano). Também há um excesso de personagens, a maioria de importância diminuta. O ideal seria se o escritor tivesse destacado os principais momentos vividos por ele nesse período. Como não fez isso, momentos importantíssimos passam despercebidos no meio de instantes banais e enfadonhos.

O ponto alto da obra está na descrição realista e impactante que Graciliano faz do período em que esteve preso. A realidade, aqui, é nua e crua. O escritor alagoano não se furta em esconder nada. Tudo fica sobre os panos. Assim, temos uma narração assustadoramente real do pesadelo vivenciado pelo autor. O cenário sombrio da penitenciária, os medos do homem comum jogado no meio de uma vida insensível, a monstruosidade de muitos presos e o cotidiano nada fácil atrás das grandes ficam diante dos nossos olhos, como jamais estiveram.

Outro ponto interessante foi acompanhar a confecção dos contos escritos dentro das celas. Quem leu “Insônia” pode perceber que várias histórias daquele livro foram extraídas dos relatos de outros prisioneiros. Aí aparece a grandiosidade de Graciliano: soube transformar em ficção muitos episódios reais.

O que provoca certa estranheza foi a passividade de Graciliano Ramos durante todo o período em que esteve encarcerado. Sem saber o porquê havia sido preso, ele não se indignou com aquela situação em nenhum momento. Praticamente foi enviado, por quase um ano, de uma prisão a outra sem reclamar da falta de uma acusação formal. Ele aceitou sua condição de prisioneiro e ali ficou passivamente.

Outro ponto que choca é a quantidade de cigarros que o autor fuma. Ele, um fumante inveterado, deixa muitas vezes de comer (fica dias em jejum), mas não para de fumar em nenhum momento sequer. Não é à toa que morreu, alguns anos depois, de câncer no pulmão. Chega a dar nojo esse vício pelo cigarro.

Quem gosta da História do nosso país (como é o meu caso) também apreciará as passagens marcantes desse período, o ambiente político efervescente da época e o desfile de personalidades conhecidas.

Gostei de ter lido “Memórias do Cárcere”. Apesar de longo e um pouco enfadonho, é uma excelente obra de memórias de um momento marcante do Brasil e da vida de um dos nossos maiores escritores.

Retorno ao Blog Bonas Histórias no próximo dia 25 para analisar o quinto e último livro do Desafio Literário de maio, "Caetés" (BestBolso), o romance de estreia de Graciliano Ramos. Até lá!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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