• Ricardo Bonacorci

Livros: O Assassinato de Roger Ackroyd - O primeiro best-seller de Agatha Christie


Conclui nessa quinta-feira a leitura de “O Assassinato de Roger Ackroyd” (Globo). Esse foi o primeiro grande sucesso de Agatha Christie. Muitos fãs da britânica, até hoje, consideram este livro com sendo uma das melhores tramas da escritora. Publicado pela primeira vez em 1926, a obra foi responsável por consolidar Agatha como uma das grandes autoras de seu país, levando-a ao posto de uma das mais vendidas em toda a Europa. Parte do charme desse livro se deve a polêmica criada em relação ao seu desfecho. A solução do enigma da narrativa contrariou a lógica até então em voga nos romances policiais da época, despertando a ira dos mais conversadores. Há também quem aponte os estranhos acontecimentos que rondaram a vida de Christie no período de lançamento do livro como um dos responsáveis pela grande divulgação da obra.

“O Assassinato de Roger Ackroyd” é narrado em primeira pessoa por um dos seus personagens, o médico James Sheppard. Ele mora e trabalha na pequena e pacata cidade interiorana de King's Abbott. Naquele povoado inglês do início do século passado, onde o tempo parece não passar e a vida de todos é motivo de fofoca geral, o médico é um dos poucos habitantes que conta com o respeito e a confiança de quase toda a população. O doutor também sabe de muitos segredos de seus pacientes, sendo discreto em relação as particularidades de cada um e de cada família.

O cotidiano da cidade muda drasticamente com o assassinato de Roger Ackroyd, um milionário local, patriarca de uma das mais importantes famílias da região. Essa foi a terceira morte trágica no período de um ano. O senhor e a senhora Ferrars também morreram repentinamente e a boataria da cidade é que eles também foram assassinados.

A polícia do povoado fica encarregada de investigar o episódio da morte de Roger Ackroyd, mas a sobrinha do milionário, Flora Ackroyd, contrata o conceituado investigador particular Hercule Poirot para também descobrir o que de fato aconteceu. Poirot, depois de alcançar fama como um dos melhores detetives do mundo, tinha resolvido se aposentar e vivia de forma tranquila na cidade de King's Abbott. O principal suspeito é Rudolph Paton, filho adotivo de Roger e principal herdeiro da fortuna do milionário.

O Dr. Sheppard, muito amigo da família do assassinado e vizinho de Poirot, de certa forma participa diretamente da investigação. A irmã do médico, a solteirona e fofoqueira Caroline Sheppard, acaba ajudando no trabalho investigativo. Astuta e muito perspicaz, a senhorita consegue ter uma visão geral da situação sem precisar visitar os locais nem conversar com os suspeitos. Da janela da sua casa, ela consegue montar um panorama completo do que acontece na cidade, auxiliando o irmão e o detetive belga na investigação.

A trama do “O Assassinato de Roger Ackroyd”, como a maioria das histórias de Agatha Christie, é muito boa. A narrativa é ágil e prende o leitor. Os mistérios se tornam intrigantes e a pergunta “Quem foi que matou?” fica o tempo inteiro martelando na cabeça de quem lê as páginas dessa publicação. Como de hábito, a escritora inglesa deixa um monte de pistas durante a narrativa que só iremos sacar quando a trama é elucidada por Poirot. Até isso acontecer, a cada momento, acredita-se que um personagem diferente é o responsável pelo assassinato, o que gera muitas reviravoltas.

Algo interessante dessa história é que ela é narrada em primeira pessoa por um dos personagens aparentemente secundários do livro. Desse jeito, não temos uma visão completa da situação (sabemos apenas o que esse personagem tem consciência). Além disso, esse recurso torna mais verossímil a investigação, pois parece que estamos participando dela como os demais envolvidos.

Gostei muitíssimo desse livro. Ele possui uma dinâmica totalmente distinta da obra anterior da escritora britânica que li há alguns dias. Enquanto temos aqui o típico caso de investigação policial que se realiza em um espaço físico e de tempo determinados, em “O Inimigo Secreto” (a obra anterior) temos uma aventura policial que envolve um variado número de personagens, de políticos a criminosos, com uma abrangência maior de lugares e de tempo. Ou seja, são histórias de formatação bem diferente.

O final de “O Assassinato de Roger Ackroyd” é espetacular!!! Sem sombra de dúvida, os últimos capítulos dessa obra são os melhores que já li em um romance policial. Um leitor atento consegue descobrir o verdadeiro responsável pela morte do Sr. Ackroyd um pouco antes dele ser anunciado pelo investigador Poirot. Mesmo assim, essa revelação é chocante. Não é à toa que ela tenha provocado tanta polêmica na época do lançamento do livro (óbvio que não vou contar quem era o assassino). Além do assassino ser uma das pessoas menos óbvias da história, o recurso narrativo utilizado por Agatha Christie foi de uma ousadia digna de aplauso. Ficou evidente toda a maestria dessa escritora durante o desfecho dessa trama.

“O Assassinato de Roger Ackroyd” chegou às livrarias inglesas, em 1926, poucas semanas antes do estranho desaparecimento de Agatha Christie. A escritora, nessa época, estava envolvida em um ruidoso processo de separação matrimonial. Seu primeiro marido, o Coronel Archibald Christie, piloto das forças britânicas, saiu de casa e foi viver com uma amante, deixando Agatha com a filha pequena do casal. Aí, misteriosamente, a escritora desapareceu. O carro e a mala da escritora foram encontrados abandonados na beira de uma estrada. Depois de onze dias de mobilização nacional, ela retornou sem explicar o que de fato aconteceu. Há quem alegue que ela sofreu um acidente automobilístico e perdeu momentaneamente a memória. Outros falam que ela tentou se vingar do marido traído, mas desistiu e retornou para casa para cuidar da filha. E há quem veja nesse episódio uma ação de publicidade para aumentar as vendas de “O Assassinato de Roger Ackroyd”.

A única verdade que sabemos é: o livro é monstruosamente fantástico. Ele mereceu ter o sucesso retumbante que teve desde o seu lançamento. A história é boa, a trama é muito envolvente e o final é absurdamente incrível. O resto é lenda ou intriga da oposição.

O Desafio Literário continua no dia 13, segunda-feira, com a análise de "Morte na Mesopotâmia" (Nova Fronteira), o terceiro livro de Agatha Christie que o Blog Bonas Histórias investiga em profundidade.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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