• Paulo Sousa

Contos: Histórias de Macambúzios - 4 - O Afrossemita


A rodoviária de Búzios é o lugar da cidade mais parecido com Macambúzios, dada a quantidade de vendedores ambulantes e mendigos. Os turistas que chegam de ônibus, embora minoria, têm uma péssima primeira impressão, e logo chamam um táxi para tirá-los daquele espasmo de pobreza.

Certo dia, um homem negro e forte chegou à cidade. Tinha uma estrela de seis pontas tatuada no braço, uma barba por fazer e cabelos estilo black power. Ouvindo a discografia completa de Sammy Davis Junior, e carregando uma mala pequena e antiga, que devia ser usada em algumas peladas aos fins de semana, dirigiu-se a pé para Macambúzios. Seu nome é Salomão.

Sempre ouviu de seus tios, que o criaram, que o estado do Rio de Janeiro oferece muitas oportunidades. “Ainda mais para um homem como você, Salomão”, diziam, “nossa comunidade sempre é muito receptiva”. Seus pais e avós moram na Etiópia, mas ele não os via há muitos anos. Seu sonho era arrecadar dinheiro para poder viajar até o país, e junto com sua família, migrar para a outra ponta do mar vermelho.

Rapidamente encontrou uma moradia na cidade vertical. Era um lugar inóspito, difícil de encontrar, mas pelo menos tinha paredes, água encanada e uma porta, cujo batente foi rapidamente ornado com uma mezuzá à direita. Arranjar emprego também foi fácil, pois a Pousada do Cânhamo carecia de um ascensorista. Sequer precisou pedir ajuda aos seus pares, que muito frequentavam a cidade.

O salário que ganhava era pouco, mas as gorjetas eram suficientes para guardar para sua viagem e alguns luxos. Como trabalhava pela manhã, tinha suas tardes livres, e foi procurar o Museu Semita de Búzios, que anunciava vagas para professores voluntários para alguns cursos rápidos, voltados para distração mental de esposas de empresários. Lá chegando foi recepcionado por uma mulher pós-balzaquiana, loira e de olhos azuis.

“Bom dia, chamo-me Salomão. Gostaria de saber como me inscrevo para lecionar no curso de cultura semita.”

A mulher franziu o cenho, desconfiando da figura e do pedido. Mesmo assim, foi polida em sua resposta.

“Perdão senhor, mas somente aceitamos aqueles que comungam de nossa religião.”

“Eu entendo, já passei por isso. Mas eu faço parte de vocês, pois sou um falasha, e quero compartilhar de minha história com todos, até juntar dinheiro para viajar para Etiópia e ver meus pais.”

“Também entendo, mas infelizmente essa história não é abordada no curso”, a mulher insiste.

“Senhora”, a resposta da mulher irritou um pouco o homem. Acostumado a sofrer preconceitos daqueles que considerava irmãos, acreditava que na península seria diferente, “a história dos falashas é muito importante para a cultura semita, e pelo que li, vocês precisam de professores de história.”

“Bom... Vou falar com o rabino responsável pelo Museu, e amanhã você pode aparecer para ver se podemos aceitá-lo.”

Salomão também tinha o sonho de multiplicar sua religião, o que de certa forma não condizia com a postura do Museu. Insistente, na volta a Macambúzios, parou na maior igreja protestante de lá para conversar com os pastores sobre outro empreendimento que desejava, a fim de saber como a cidade encarava a religião.

“Uma sinagoga?”, perguntou o pastor líder. “Mas isso não é coisa do demônio?”

“Não senhor, muito pelo contrário. É algo Divino! Lembre-se que Jesus foi um de nós.”

“Mas existe algum sacrifício de animal?”, perguntou outro desavisado.

“Também não. Aliás, respeitamos muito os animais, tanto que não comemos alguns...”

A conversa entretinha mais do que espantava os crentes. Pouco a pouco foram cedendo espaço para perguntas de cunho mais pessoal, principalmente sobre hábitos matrimoniais e alimentares. Acreditavam que a construção de uma sinagoga não afugentaria mais fiéis que seu templo, mas que precisavam de uma autorização das autoridades de Macambúzios.

“Então esses são os doces de vocês?”, perguntou lá pelas tantas um interessado. “E doces normais, como leite condensado, vocês comem?”

“Sim, comemos”, naquele momento Salomão já estava entediado e sentindo-se um exótico. “Embora nunca tenha comido leite condensado, pois meus tios nunca tiveram dinheiro para esse luxo.”

“Adoramos você e sua conversa, Salomão”, o líder tomou a palavra, “mas para você construir uma sinagoga por aqui é necessário conversar com a autoridade local. Fique tranquilo, uma hora ela descobre seus planos.”

Depois daquelas conversas, Salomão ficou desmotivado. Gostava muito de sua cultura e sua história, mas era sempre considerado um pária. Entretanto, lembrou-se da história de Jó, cujos infortúnios e úlceras somente aqueceram seu amor, e continuou em sua devoção. Acalmou-se e foi dormir.

O dia seguinte reservou algumas surpresas para o rapaz. No trabalho, teve a felicidade de conhecer um empresário mundial, cujos negócios estavam prosperando, principalmente na Etiópia. “Um sinal”, pensou o homem de negócios, que presenteou o trabalhador humilde com quinhentos reais, quantia jamais vista junta por Salomão, que muito agradeceu e desejou sorte.

Já pela tarde, voltou ao Museu Semita de Búzios, para conversar com a mulher, e talvez com o rabino responsável. Dessa vez, foi melhor recebido.

“Salomão, acho que não me apresentei ontem”, a mulher ariana falava séria, um pouco à contra gosto. “Meu nome é Hanna, e sou curadora do Museu. Conversei ontem com o rabino a seu respeito.”

“E então, alguma novidade?”

“Sim. Todos nós temos que obedecer as regras e a hierarquia, e nosso Museu tem o privilégio de contar com um rabino como consultor. Ele autorizou sua aula para a próxima semana.”

O coração de Salomão não se continha. “Valeu a pena lembrar-me de Jó”, pensou ele, enquanto caminhava pelo Museu. Em meio a diversas fotos de campos de concentração, festas e até mesmo celebridades, não encontrou nenhuma referência a Beta Israel. Perguntou o porquê daquilo, e Hanna lhe informou que não conhecia a história deles, muito embora fosse curadora de um museu.

Não queria voltar para casa, pois estava muito feliz e com dinheiro no bolso. Tinha que comemorar sozinho, já que ainda não fizera amigos na nova cidade, e por isso, foi buscar companhia no mais caro prostíbulo de Búzios, a boate Espelho do Mundo. O lugar era muito bonito, caro para entrar, mas com uma infinidade de mulheres.

De início não entendeu direito o sistema de preços da casa, pois todas as mulheres negociavam muito. Já cansado, sentou-se ao lado de uma branca lindíssima, com olhos claros e cabelos negros. Apresentou-se como professor do Museu Semita de Búzios, o que despertou a atenção da moça. Em pouco tempo, já tinha lhe contado sobre sua família na Etiópia, sua vida em Macambúzios e seus objetivos. Mas a moça estava mais interessada em outra coisa.

Salomão achou o pedido estranho, mas o atendeu. No meio do salão, tirou seu pênis para fora da calça, e o mostrou sem pudor. Amigas da garota se aproximaram, todas de olhos abertos e espantadas, mas ele sabia que não era por causa das dimensões maximizadas que tanto lhe orgulhavam.

“Veja isso! Veja o pênis dele! Nunca vi nada parecido!”, exclamou uma delas, que foi secundada por outra histérica, que gritava “Ele é um dos nossos, apesar de negro. Shabbat shalom!”. A prostituta inicial via a tudo em silêncio, pois somente queria comprovar o que ao rapaz dissera.

“Eu também sou judia, e não vejo muitos negros judeus por aqui”, disse a moça.

“Eu sei, também conheço muito poucos, por isso quero viajar para a Etiópia, e de lá para Israel.”

Mesmo sendo boa negociadora, a moça fez um desconto, e proporcionou a Salomão uma noite de amor. O homem chegou em casa com o dia já amanhecido, satisfeito pela comemoração judaica, muito embora tivera que gastar toda a generosidade que o empresário lhe concedera.

Enquanto sonhava com matzás e chalás, alguém lhe bate à porta. Acorda de supetão, sem saber o horário da visita inesperada, mas reparando que já escurecia. Não tinha amigos, tampouco inimigos na cidade, por isso estranhou muito. Vestindo apenas uma bermuda, o que deixava seu corpo musculoso exposto, abriu a porta para uma mulher. Ela era negra, cabelos ondulados e dentes muito brancos. Era de sua altura, algo raro de se encontrar, e parecia estar um pouco assustada, mas forçando para parecer ávida e decidida.

“Você é o Salomão, o judeu negão?”

“Sim, sou eu. Quem é você?”

“Meu nome é Madalena, mas não vim aqui para papo furado. O Mano quer ter contigo agora mesmo.”

Era muita informação para a cabeça de um homem recém-chegado à cidade. Não sabia quem era Mano, tampouco como ele o conhecia. Mas diante de tamanha intimidação, seguiu a mulher. Era um labirinto de casas e ladeiras, com algumas escadas, crianças brincando nos vãos e homens armados e suspeitos. Percorreram o trajeto em silêncio, e chegaram a um campo de futebol deserto. Parado debaixo de uma das traves estava um homem rodeado por outros, todos armados. Presumiu que esse era o tal do Mano, e foi ter com ele.

“Muito prazer, meu nome é Mano Metido”, apresentou-se o anfitrião. “E o seu presumo que seja Salomão.”

O judeu estava de frente para Mano, na outra extremidade do campo, enquanto Madalena e os demais esperavam à distância. A conversa era particular, e pelo tom de voz sussurrado, intimidadora.

“Eu só conheço o seu nome”, prosseguiu o homem, “mas já reclamaram de você por aqui. Caso você não saiba, sou eu quem dá as ordens na cidade, e você pulou algumas etapas. Refiro-me à proposta de montar uma sinagoga em Macambúzios, que você fez para os pastores.”

“Sim, eu tenho esse sonho, e será muito bom para a cidade...”

“Ei!”, interrompeu Mano. “Você só responde quando eu perguntar, entendido?”

“Entendido.”

“Em primeiro lugar, que porra é essa de sinagoga?”

“É como uma igreja ou templo, mas judaica. É lá que os judeus fazem seus casamentos e cerimônias.”

A voz de Salomão parecia tremida. Era estranho para um homem de quase dois metros e muito forte temer alguém, mas as armas dos capangas e o fim do crepúsculo davam à conversa um ar de julgamento.

“Mas então você é judeu... e é negro. Eu conheço alguns judeus da cidade vizinha, mas nenhum deles é preto. Caralho, judeu não é preto!”

“Sim, eu sou judeu e negro. Meus familiares são da Etiópia, de uma das tribos perdidas de Israel.”

“Mas você é pobre. Judeu não é pobre! Judeu não é pobre nem preto!”, exclamou Mano, já muito desconfiado.

“Eu conheço judeus muito ricos e prósperos, mas com certeza não é o caso dos falashas, de onde meus pais vieram e para onde eu vou.”

Resignado, Mano coça seu queixo pensativo. Não via nenhuma ameaça no homem, mas ao mesmo tempo não poderia deixar sua autoridade ser questionada. Após alguns eternos segundos de reflexão, decidiu que Salomão poderia abrir sua sinagoga, desde que vinte por cento do dízimo fosse revertido para ele e a milícia. Novamente acuado e sem poder de escolha, Salomão aceitou.

“Que bom que você aceitou, afinal, as regras aqui são bem claras para todo mundo. Pode entregar o dinheiro para Madalena, quando for o caso.”, afirmou Mano. “E é como eu sempre digo, otário nasce morto...”

“Mano, com licença.”, era Madalena, a única que podia interromper Mano sem ser morta. “Eles ainda não comeram hoje, e falta de alimento atrapalha na procriação.”

Mano então se despede de Salomão e vai embora com seus asseclas. Somente então Madalena indica ao judeu o caminho para voltarem para casa. Entretanto, dessa vez conversaram um pouco. Ele contou sua história para a moça, muito atenta, e aproveitava para encarar suas pernas grossas e rijas, quando ela se punha à sua frente. Pelo menos naquele dia, pensou, conseguira vencer duas resistências.

Qual não foi sua surpresa ao novamente ser acordado, dessa vez no início da madrugada, pela porta batendo. Entretanto, a batida não era agressiva, mas sim claudicante, cerimoniosa. Era Madalena.

“Ouvi dizer que você nunca comeu leite condensado. Pensei em trazer-lhe para experimentar.”

A mulher entrou na casa um pouco reticente. Percebia-se que estava perfumada, com brincos diferentes que usara, e uma saia curta que deixava suas longas pernas retintas ao natural.

“Entre, deixe-me colocar uma música de Sammy Davis Júnior para ouvirmos.”

Ao som de Candy Man, o judeu puxa a mulher para si, e de rostos colados, dançam um pouco. Salomão reparava nos braços fortes, mãos um pouco pesadas de Madalena. A tensão aumentava, e rapidamente foram aos beijos, e dos beijos aos amores. Ele se maravilhara com os pelos da vagina um pouco hirsutos, mas aparados para formar um caminho; já ela deliciava-se com o pênis longo e circuncidado, lambuzando-o de leite condensado, que fazia um contraste interessante sobre as tezes negras e belas de ambos.

Tudo acabou se juntando, se amassando, as peles, os pelos, o condensado, o sêmen, gemidos, Sammy, e um pouco do coração, que ora ofegante, enternecia-se. Já era de manhã quando Madalena se foi, pedindo para que esse encontro se mantivesse em segredo, principalmente para Mano.

Depois daquela noite, a sorte mudou para Salomão. Quando andava pelas ladeiras era comum as pessoas o olharem de soslaio, espreitando-o. Não o intimidavam, mas o analisavam e mediam, como alguém que tenta prever o próximo passo do oponente. Chegou a conversar com alguns moradores sobre seu projeto da sinagoga, pedindo alguma contribuição, haja vista que seu salário como ascensorista era insuficiente, mas eles não se entusiasmaram.

Os encontros com Madalena ficaram mais frequentes, praticamente diários. Ela sabia toda a história dele, mas o achava misterioso; ele, por sua vez, em nada a conhecia, mas sabia de suas intenções. Salomão perguntava-se sobre o risco de dormir com a mulher, das conversas da cidade sobre sua vida, mas não deixava isso tirar-lhe o ímpeto.

No dia de sua primeira aula no Museu acordou antes da mulher, ansioso para que a manhã passasse rápido. Sequer prestou atenção no trabalho, muito embora não tenha feito falta. Madalena arranjou-lhe um terno, e foi assim vestido. Encontrou uma sala de poucos lugares, com algumas mulheres querendo passar o tempo. Uma delas estava interessada em se o Museu tinha um lugar apropriado para os filhos pequenos matarem o tempo, enquanto se fartava de sua cultura, mas não obteve resposta.

A aula sobre Beta Israel foi pouco comentada. Enquanto fazia suas digressões a respeito da Lei do Retorno e a operação homônima, as mulheres mais se interessavam sobre a rotina de um marido viajante, e em como seria bom se tivessem um negro daqueles para lhes fazer companhia. Uma delas, a mais espirituosa, chegou a convidar o homem para uma tarde na piscina de um resort. “Se falar que você é meu convidado”, dizia, “vão lhe deixar entrar”. Mas Salomão negou o pedido.

A frustração com sua aula fora aplacada novamente entre as pernas de Madalena, cujo mistério se fortalecia. Quando indagada sobre sua vida, dizia que não poderia contar naquele momento. Certa noite, enquanto fumavam diamba, travaram o seguinte diálogo:

“Madalena, afinal, quem é você?”

“Se eu lhe contar, você não acreditaria. Mas eu te amo.”

“Eu também. Quando eu for para a Etiópia, você vem comigo?”

“Depende. Afinal, quem é você?”

Aquela pergunta sempre alfinetava o homem, cujas respostas variavam com o estado de seu humor. Na realidade, pouco sabia sobre si, o que não é nenhum privilégio.

“Para os negros, eu sou um judeu. Para os judeus, não passo de um negro.”

Voltaram então ao monólogo da televisão ligada, presente dela. Era uma entrevista do galã Guilherme Boaventura, explicando que no momento que tirou fotos de sua experiência sodomita, estava confuso quanto à sua sexualidade. “Finalmente veio a público explicar”, falou Madalena, “eu já sabia que isso ia acontecer uma hora ou outra”.

É verdade que Salomão também estava confuso. Suas aulas não atraíam interesse das esposas, a cidade lhe considerava um estranho forasteiro e seu caso com Madalena se intensificava. Todas as noites, escondida, ela vinha lhe trazer algum presente, além de seu corpo. Assim, a casa de Salomão ganhou televisão, microondas e muitos aparelhos eletrônicos. A origem do dinheiro para essas aquisições era um segredo.

Uma noite, Madalena estava diferente. Séria, pensativa e mais carinhosa do que erótica, veio com uma proposta. A moça estava cansada de sua vida em Macambúzios, e gostaria de fugir com Salomão. Dinheiro não era problema, dizia, pois poderia encontrar. Tudo dependia da vontade e do amor de Salomão para com ela.

“Madalena, nos conhecemos recentemente, e sequer sei de seu passado.”

“Quando chegarmos à Etiópia, como você realmente quer, lhe contarei tudo. Conto-lhe como ganhava a vida, arranjava dinheiro, tudo o que quiser saber."

Essa promessa era muito forte, pois a obrigaria a renunciar toda sua vida, e mais, colocá-la ao crivo de um amor relâmpago, muito longe de sua cidade. Além do que, era uma evangélica fervorosa, dessas de não trocar o culto nem por uma noite de amor. Sua religião poderia atrapalhar a vida do casal, e isso preocupava Salomão, acreditando que a moça poderia se arrepender.

“Não vou me arrepender”, suplicava Madalena. “Afinal, Jesus também foi judeu, conforme me ensinaram os pastores.”

Balançado, Salomão pensou por três dias e três noites. Sentia um amor muito grande pela mulher, mas abandonaria seus projetos em Macambúzios, com certeza efêmeros, mas não por isso menos importantes. Sua família iria ficar espantada, mas acolheria a moça. Acabou concordando com a proposta, e combinaram a fuga.

Ele estava arrumando suas malas, agora permeada de roupas caras que sua mulher lhe arranjara, quando esta chega ofegante, carregando em sua bolsa duzentos mil reais em dinheiro. “Peguei a grana faz alguns dias, ainda não me pergunte como, mas será suficiente para começarmos uma nova vida em Israel. Também pagará as despesas das nossas viagens e de seus familiares etíopes”, disse.

Madalena entregou o dinheiro ao homem, e disse para ele ir rápido, com medo de que alguém desconfiasse. Disse que teria que passar antes em um lugar, para se despedir de um amigo, o que seria perigoso com tanto dinheiro. “Hoje estão à minha procura. Caso me encontrem, me matam”, disse. “Todas as casas estão sendo revistadas, por isso precisamos ir logo e separados”.

Sozinho, então, Salomão foi para a rodoviária de Búzios, após quase um mês da sua chegada. Reparou que muitas casas estavam com os umbrais das portas de entrada marcados de vermelho, o que lhe deu certa alegria. “Talvez seja alguma influência semita”, pensou crédulo. A rodoviária estava idêntica, com mendigos e vendedores ambulantes, mas o homem era diferente. Pensava que poderiam formar uma família unida, caso Madalena realmente aparecesse.

Ele entra no ônibus para o aeroporto. Segurava o dinheiro firme, com um medo inconsciente de perdê-lo. Refez toda sua agitada passagem pela cidade, e viu que pouco acrescentou a ela. Sua missão de disseminar os preceitos judaicos fora mal sucedida, e uma ponta de vergonha lhe tomava.

Entretanto, tinha ganhado um amor. Quando o ônibus ligou seu motor, pouco importava para Salomão se suas aulas foram um tédio, se sua sinagoga nunca tenha sido construída, ou se abandonara o emprego sem maiores explicações. Tinha ganhado o amor de Madalena, e isso realmente tinha valido a pena.

Mas a moça não aparecia. Tudo poderia ter sido um delírio, uma ilusão. O dinheiro poderia ser falso, os orgasmos fingidos, tudo para espantar o pária que chegara sem ser convidado. Quando os pneus começaram o movimento, as esperanças começaram a partir.

E então, como uma cena de cinema, Madalena aparece na rodoviária, correndo e ofegante. Colocou-se à frente do ônibus, exigindo que o motorista a deixasse entrar. Não sorria, estava assustada, e Salomão se surpreendeu com a quantidade de sangue que lhe escorria.

A face de Madalena estava toda cortada e com hematomas. Sua testa tinha um imenso corte. Seus dentes, antes branquíssimos, reluziam o vermelho de um sangue ainda em convulsão. Sua roupa também estava rasgada e rubra. Chorava muito, mas sentia-se aliviada por ter chegado ao ônibus.

“O que aconteceu?”, perguntou Salomão, quando o veículo retomou o rumo.

“Agora eu posso lhe contar tudo”, respondeu Madalena. “Mas vou começar pelo início. Espero que continue me amando.”

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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