• Ricardo Bonacorci

Livros: E Não Sobrou Nenhum - A mais famosa história de Agatha Christie


Li, nessa sexta-feira, o quinto e último livro de Agatha Christie para o Desafio Literário de junho. E deixei o melhor para o final. Considerado por muitos como a melhor obra de suspense de todos os tempos, "E Não Sobrou Nenhum" (Globo) foi a história da Rainha do Crime mais vendida em todo o planeta. Aproximadamente 100 milhões de livros foram comercializados desde 1939, ano de sua primeira publicação.

"E Não Sobrou Nenhum" também pode ser encontrado como "O Caso dos Dez Negrinhos", seu nome original ("Ten Little Niggers"). A mudança no título se deu quando a obra chegou ao mercado norte-americano. Lá a palavra "negrinho" foi encarada como um possível sinal de preconceito racial. Para evitar acusações racistas, "Ten Little Niggers" virou "And Then There Were None" ou "Ten Little Indians".

No Brasil (onde a influência norte-americana é maior), o livro foi publicado como "E Não Sobrou Nenhum", enquanto em Portugal (onde a influência britânica é mais acentuada), o título ficou "As Dez Figuras Negras". Até os anos de 1950, essa obra foi lançada em nosso país com outro nome: "O Vingador Invisível". Ou seja, é uma confusão dos diabos.

Polêmicas a parte, trata-se de um grande sucesso editorial. Mais tarde, essa história foi adaptada para o teatro e para cinema com grande êxito. Em 1943, a trama foi teatralizada com o nome "O Caso dos Dez Negrinhos". Dois anos mais tarde, o diretor René Clair lançou o longa-metragem com esse enredo com o nome "O Vingador Invisível" (And then There Were None: 1945). Nas décadas seguintes, mais um punhado de filmes foram lançados com essa temática tanto na televisão quanto no cinema.

A história do livro se passa basicamente na Ilha do Negro, localizada na costa de Devon, na Inglaterra. O nome do lugar é fruto de algumas rochas negras que parecem com o formato de um rosto humano. Para lá são convidadas oito pessoas por um anfitrião misterioso, o Sr. U. N. Owen. Pelas notícias veiculadas nos jornais do país, a ilha particular e deserta foi recentemente comprada por um milionário. Curiosos para saber quem é esse indivíduo e atraídos por uma carta endereçada especialmente para eles, os oito indivíduos desembarcam naquela localidade com a finalidade de aproveitar alguns dias de mordomias, descanso e diversão.

Os convidados são bem heterogêneos e nenhum se conhece: há um juiz idoso, uma solteirona de meia idade, um médico bem-sucedido, um ex-policial aposentado, uma professora do ensino infantil, um playboy amante de carros, um militar da reserva e um malandro trambiqueiro. O grupo se junta ao casal que cuida da mansão da ilha. Ou seja, são apenas dez pessoas naquela residência isolada do mundo. A Ilha do Negro não possui comunicação com o continente e o transporte só pode ser feito através dos barcos vindos dos povoados a beira mar.

Surpreendentemente, nenhum dos convidados nem os empregados conhecem o tal Sr. U. N. Owen. Além disso, o proprietário milionário não está ali no momento. Segundo informações enviadas por correspondência, ele irá surgir nos próximos dias. Esses são os primeiros mistérios da trama: Quem é o tal Sr. Owen?; e o que ele deseja dos convidados?

Logo após o primeiro jantar na casa, episódios estranhos começam a acontecer. Primeiramente, um dos convidados morre misteriosamente ao ingerir uma bebida alcoólica. Logo depois, uma gravação em um gramofone informa que todos naquela residência são assassinos, descrevendo a data, a situação e os nomes dos assassinados. A tensão do local aumenta quando se descobrem as ameaças do anfitrião misterioso e ausente. Assim como em um poema antigo espalhado pela mansão, as dez pessoas daquele local irão morrer. É esta a promessa do dono do lugar.

Inicia-se, então, a busca por saber o que está acontecendo. Enquanto as mortes são efetuadas sucessivamente, os sobreviventes precisam se proteger ao mesmo tempo em que devem encontrar o real assassino. Isso tudo sabendo que foram abandonados pelo pessoal em terra. A ilha está sem comunicação com o continente e fugir ou pedir ajuda não é possível.

"E Não Sobrou Nenhum" é uma história incrível. Ela possui todos os elementos de um grande suspense: ilha deserta, uma mansão misteriosa, personagens contraditórios e suspeitos, ambiente fantasmagórico e mistério envolvendo um poema antigo. O clima é de tensão do início ao fim. Não é à toa que mais tarde muitos desses elementos foram banalizados pelas futuras tramas de mistério.

A narrativa é feita em terceira pessoa, algo incomum em se tratando de Agatha Christie (os outros quatros livros lidos nesse "Desafio do Mês" foram escritos em primeira pessoa). Além disso, a história não possui como personagens principais os investigadores (Hercule Poirot e a dupla Thomas Beresford e Prudence Cowley nem aparecem por aqui). Na verdade, os detetives e a polícia só surgem no final, de forma um tanto tímida. Os principais envolvidos nessa trama são os dez habitantes da residência, que ao mesmo tempo são vítimas e suspeitos.

A construção psicológica desses personagens merece uma exaltação. Não há nenhum bonzinho ou santinho no grupo. Contudo, eles sofrem com a tensão do ambiente e ficam sujeitos aos dramas que qualquer um sentiria se fosse abandonado para o sacrifício em uma ilha deserta. Assim, é difícil saber se, como leitores, tememos ou torcemos pelas personagens. É um misto de curiosidade e resignação.

Outro ponto positivo dessa narrativa é a sua velocidade. Ela se desenvolve muito velozmente. O livro não é longo e é possível lê-lo em uma tarde. Tudo acontece rapidamente por aqui. O estilo de escrita é direto e focado na ação. Não há enrolação ou componentes supérfluos. A linguagem é simples e clara.

"E Não Sobrou Nenhum" é realmente um livro digno da fama alcançada. A história é muito interessante e o final é tipicamente Agatha Christie, ou seja, surpreendente. Só iremos saber o que aconteceu de fato quando percorrermos todas as linhas da publicação. É no último capítulo em que o mistério é finalmente desvendado.

Curiosamente, sabemos do desfecho porque o(a) assassino(a) resolve nos contar. Ele(a) escreve uma carta, coloca-a em um garrafa e a joga ao mar. Afinal, este é um daqueles típicos assassinatos perfeitos, em que a polícia não consegue desvendar os fatos.

Gostei muito de "E Não Sobrou Nenhum". Merecidamente é um clássico do romance policial moderno.

Para quem está acompanhando o Desafio Literário de junho, aviso que no dia 27, próxima segunda-feira, retornarei ao Blog Bonas Histórias para postar a análise completa da literatura de Agatha Christie. Não perca a última parte da investigação sobre a maior romancista policial de todos os tempos.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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