• Ricardo Bonacorci

Livros: Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada - O jovem Pablo Neruda


Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada de Pablo Neruda

Nesse domingo, li mais um livro de Pablo Neruda. "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada" (Martins) foi a primeira grande obra do chileno. Publicada em 1924, ela foi escrita quando o poeta tinha apenas vinte anos de idade. Seu conteúdo está relacionado aos primeiros amores e, por consequência, as primeiras desilusões afetivas do escritor.

Nessa publicação, Neruda relaciona o erotismo do corpo feminino aos fenômenos da natureza. O amor inocente e puro do poeta parece invocar o mundo externo em uma perfeita comunhão estética. A representação dos sentimentos das primeiras relações amorosas de Neruda surge metaforicamente encenada pela fauna e flora local.

Assim, a solidão resultante da ausência da amada é comparável ao escurecer provocado pelo crepúsculo. Os beijos e os carinhos a dois são como a produção de mel pelas abelhas. A dependência atiçada pelo amor intenso é parecida com a necessidade de ar e de alimento pelos seres vivos. A doçura das partes do corpo da mulher é tão afrodisíaca para o homem como são as flores e o néctar das plantas para os pássaros. E os momentos carnais vividos com a outra metade são tão intensos como as tempestades no mar e as agitações do céu.

Pablo Neruda

Abaixo estão alguns fragmentos extraídos dos poemas chamados de Amor.

"Ah vastidão de pinheiros, rumor das ondas quebrando,

lento jogo das luzes, solitária cabana

crepúsculo abatendo-se em teus olhos, boneca,

caramujo terrestre, em ti a terra canta!

Em ti os rios cantam e minha alma se perde neles

como tu o desejas e fazia para donde tu o querias".

"Silenciosa, minha amiga,

solidão do solitário desta hora das mortes

e cheia das vidas do fogo,

pura herdeira do dia destruído".

"Eis que manha chega de tempestade

em um coração do verão.

Como alvos lenços de adeus passeiam as nuvens,

e o vento os sacode com suas mãos andarilhas.

Incontável coração do vento

batendo sobre nosso silêncio enamorado".

"Recordas-te como era no último outono.

Era a boina gris e o coração em calma.

Em teus olhos guerreavam as chamas do crepúsculo

e as folhas caíam na água de tua alma.

Apegada em meus braços como uma trepadeira.

as folhas recolhiam tua voz lenta e em tua calma".

"Abelha branca zumbe ébria de mel em minha alma

e te estorces em lentas espirais de fumaça.

Sou o desesperado, a palavra sem ecos,

o que perdeu tudo, e o que tudo esvai".

Jovem Pablo Neruda

Das poesias intituladas de amor, a que mais gostei foi a de número doze (os poemas são numerados de um a vinte). Confira-a na íntegra:

"Para meu coração basta-me teu peito,

para tua liberdade basta, minhas asas.

De onde minha boca chegará até o céu

o que estava entorpecido sobre tua alma.

É em ti a ilusão de cada dia.

Chegas como o orvalho das corolas.

Socava o horizonte com tua ausência.

Eternamente em fuga como a onda.

Eu falei que cantavas com o vento

como os pinheiros e como os mastros.

Como eles é alta e taciturna

e entristeces de pronto, como uma viagem.

Acolhedora como um velho caminho.

Te povoam ecos e vozes nostálgicas.

Eu despertei e às vezes migraram e fugiram

os pássaros que adormeciam em tua alma".

A poesia 15 foi posteriormente musicada por Vicente Bianchi e interpretada por Arturo Gatica.

Como toda poesia de amor juvenil, essas contêm o exagero e a extravagância do impulso do autor pouco contido e sem qualquer experiência de vida. Aí estão as principais qualidades e defeitos do texto. Em "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada" temos um jovem Pablo Neruda extremamente passional e platônico. Assim, suas poesias se tornam sinceras (percebe-se que vieram dos seus mais nobres sentimentos) e imbuídas de uma força arrebatadora (como são típicas dessa idade) - essas são as qualidades. Ao mesmo tempo, elas são infantis e completamente desvinculadas da realidade - aqui estão seus defeitos.

Por isso, a melhor parte do livro surge no final. Quando o escritor toma "um pé na bunda" da sua amada, ele escreve a tal canção desesperada que complementa o título da obra. Esse desfecho tem a profundidade da primeira parte, mas possui um tom realista e concreto que a outra não tinha.

"Abandonado como o impulso das auroras.

É a hora de partir, oh abandonado!

Sobre meu coração chovem frias corolas.

Oh sentina de escombros, feroz cova de náufragos!

Em ti se ajuntaram as guerras e os vôos.

De ti alcançaram as asas dos pássaros do canto.

Tudo que o bebeste, como a distância.

Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!

Era a alegre hora do assalto e o beijo.

A hora do estupor que ardia como um faro.

Ansiedade de piloto, fúria de um búzio cego

túrgida embriaguez de amor, Tudo em ti foi naufrágio!".

Pablo Neruda

O livro é interessante. De rápida leitura, se gasta aproximadamente uma hora para lê-lo com atenção. Contudo, ele está longe de caracterizar a fase de maturidade e excelência de Neruda. "Ainda", livro lido há alguns dias, é uma obra muito mais rica e profunda (fora escrita nos últimos anos de vida do chileno). "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada" serve para termos uma noção do potencial que tinha o jovem Pablo Neruda no início da carreira. Ele estava, nessa altura, um pouco distante do poeta que seria condecorado como um dos principais do século XX.

É verdade que Neruda já possuía, nesse início de trajetória profissional, um talento enorme e suas obras já continham elementos e características que o definiriam como poeta: sentimentalismo exacerbado, o canto de amor à mulher amada, a criação de neologismos, os versos não metrificados, as rimas livres, a linguagem ousada e a citação da natureza para descrever seus sentimentos e os encontros amorosos.

Já é possível notar em "Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada" o DNA de Pablo Neruda como poeta. Porém, para conhecermos o ápice da escrita desse autor, precisamos avançar na leitura dos livros produzidos durante a fase mais madura de sua vida. É com esse objetivo que começarei a ler "Cem Sonetos de Amor" (L&PM Pocket), sua obra mais conhecida e que será analisada em um post do Desafio Literário no dia 15. Não perca as próximas novidades sobre Pablo Neruda no Blog Bonas Histórias.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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