• Ricardo Bonacorci

Análise Literária: Paulo Coelho


Este mês já está terminando. E com seu desfecho é chegada a hora de concluirmos o Desafio Literário de setembro. O autor analisado ao longo das últimas quatro semanas no Blog Bonas Histórias foi Paulo Coelho. Para conhecê-lo bem, lemos cinco de suas obras. Elas foram publicadas entre 1987 e 1998. Nossa lista tem "O Diário de Um Mago" (Rocco), "Alquimista" (Planeta), "Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei" (Rocco), "O Monte Cinco" (Objetiva) e "Veronika Decide Morrer" (Objetiva).

Paulo Coelho nasceu no Rio de Janeiro, em 1947, em uma família de classe média alta. Desde pequeno, seu sonho era ser escritor. Contudo, a família sempre se opôs a este plano, desencorajando-o, pois acreditava que ele não ganharia dinheiro desta forma. Depois de um curto período como diretor e autor teatral, Paulo trabalhou como compositor musical, jornalista e produtor em uma gravadora de discos entre o final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Nesta época, foi parceiro de Raul Seixas, tendo criado músicas antológicas como "Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás", "Al Capone" e "Gita", e produziu a revista "2001", sobre o estilo de vida alternativo daquele período.

Somente na década de 1980, ele decidiu abandonar a vida de executivo da indústria musical e partir para a produção dos livros, seu sonho de infância. Suas duas primeiras obras foram "Arquivos do Inferno", de 1982, e "O Manual Prático do Vampirismo", de 1985. Enquanto a primeira não apresentou grande repercussão, a segunda foi retirada das livrarias, pouco tempo depois do lançamento, pelo próprio autor, envergonhado com a qualidade do trabalho apresentado.

O sucesso literário veio com a terceira publicação, em 1987. Após realizar uma jornada pelo místico Caminho de Santiago, Paulo lançou a autobiografia da viagem: "O Diário de Um Mago". Neste livro, narrou em detalhes a viagem de três meses a pé pelos mais de 700 quilômetros entre o sul da França e a cidade espanhola de Compostela.

"O Diário de Um Mago" é um bom livro de ficção. É difícil para quem não é crente acreditar em tudo o que é relatado. Ele possui muitos elementos religiosos, rituais secretos e componentes mágicos. Os personagens principais conversam com espíritos, movimentam objetos pelo pensamento, enfrentam demônios, entre outras práticas mágicas. Depois de realizar exercícios banais, eles passam a possuir poderes sobrenaturais.

Apesar da boa vendagem deste livro, o sucesso literário de Paulo Coelho chegou de forma retumbante com a publicação, em 1988, da sua quarta obra. "O Alquimista" é o livro de maior sucesso internacional produzido por um escritor brasileiro. A obra teve mais de 80 milhões de unidades vendidas, sendo traduzida para mais de 60 línguas.

Este romance é uma parábola sobre a importância das pessoas seguirem seus sonhos e confiarem em seus potenciais. Ou seja, através de uma história simples de um jovem pastor de ovelhas chamado Santiago que deseja viajar para o Egito, o autor transmite ensinamentos de autoajuda e moral para os leitores.

"O Alquimista" é um livro bem curto (tem pouco mais de 100 páginas). Admito que gostei muito de seu conteúdo (por mais que chovam pedras em cima de quem fale algo do tipo). Paulo Coelho construiu uma trama de caráter universal e filosófica. Seus ensinamentos são transmitidos por uma prosa recheada de simbologia. Assim, este livro se parece muito, neste sentido, com "O Pequeno Príncipe" de Antoine de Saint-Exupéry, com o "Conto da Ilha Desconhecida" de José Saramago e com "A Cabana" de William P. Young.

Em 1994, Coelho publicou seu sétimo livro: "Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei". Esta obra veio após a publicação dos romances "Brida" (Rocco) de 1990 e "As Valkírias" (Rocco) de 1992. Nesta história, conhecemos o conflito amoroso de uma jovem espanhola e um homem com poderes mediúnicos. Aqui temos um livro apenas razoável. O que incomoda mais em "Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei" é a repetição da fórmula literária usada por Paulo Coelho.

Isso ocorre novamente em "O Monte Cinco", publicado em 1996, um romance ainda mais fraco. Baseado em um pequeno trecho da Bíblia, este livro mistura ficção com passagens religiosas, expandindo a narrativa do Velho Testamento. A história de "O Monte Cinco" é sobre a fé de Elias, jovem profeta israelense que precisa deixar sua terra natal, Israel, para atender a um pedido de Deus.

O problema aqui está na religiosidade excessiva e no alongamento da trama. Praticamente esta é uma obra de evangelização do autor para com os leitores. Além disso, a transformação dessa história em um romance foi fatal para a queda de sua qualidade. Esta história poderia ter sido contada através de um conto ou de uma novela (narrativas menores e mais enxutas). Ao alongá-la, o autor conseguiu torná-la enfadonha. "O Monte Cinco" é um livro fraco. A história é até boa (costumeiramente o Velho e o Novo Testamentos trazem boas narrativas), mas a forma como ela é contada torna tudo cansativo.

Em 1998, foi lançado "Veronika Decide Morrer". Esta obra tem muitos elementos autobiográficos, pois o escritor foi internado, quando adolescente, em um hospício do Rio de Janeiro após tentar se suicidar (basicamente o mesmo enredo do livro, só que passado com uma personagem feminina nos dias atuais - final da década de 1990). A história foi adaptada para o cinema duas vezes.

"Veronika Decide Morrer" segue o padrão dos romances de Paulo Coelho - rápido e fácil de ser lido. O ponto positivo deste livro está em sua história. Aproveitando-se de uma experiência real, o autor consegue construir um enredo interessante sobre a loucura e a vida em um hospício. As formas como ele retrata a clínica e seus pacientes são incríveis. A discussão de quem é ou não louco em nossa sociedade, apesar de não ser original, é ótima. O problema deste livro não está em seu conteúdo e sim em sua forma. Infelizmente, o escritor transforma uma ótima ideia em um romance mediado. O excesso de religiosidade, o romantismo barato e algumas cenas paranormais (almas que deixam momentaneamente os corpos e ficam flutuando pelo ambiente, por exemplo) tomam espaço da narrativa, empobrecendo a história.

Depois de ler estas cinco obras, acredito que cheguei a uma conclusão sobre o estilo literário de Paulo Coelho. Suas principais características são: trabalhar com romances breves (no máximo 200 páginas), linguagem simples, predomínio de diálogos e reflexões, personagens com problemas existenciais, religiosidade excessiva, amor platônico, crença no sobrenatural e proposta do livro servir como um guia de autoajuda ao leitor.

A linguagem e o estilo narrativo do livro são simples e objetivos. Paulo Coelho escreve fácil e de maneira coloquial. Ele não perde tempo descrevendo cenários, caracterizando personagens ou apresentando perfis psicológicos. Ele vai direto ao ponto, em uma narrativa seca. Em suas histórias, só há espaço para o essencial. Se o texto fica curto e direto, ele também fica sem qualquer sofisticação literária. Isso pode incomodar os leitores mais exigentes e críticos.

O ponto mais interessante, em minha opinião, é o debate filosófico e humanista protagonizado pelos personagens. Se as histórias têm pouca ação, elas são recheadas de bons diálogos. Se esses diálogos não são sempre de alto nível, pelo menos levam o leitor a refletir sobre os temas tratados. Sempre é possível extrair algo de positivo dessas discussões.

Os principais problemas estão na forte religiosidade e na necessidade de todo momento querer transmitir uma lição de moral ao leitor. Em determinados momentos, as tramas demoram muito para avançar, deixando o leitor entediado. Em outras partes, os diálogos se tornam desnecessários e repetitivos. Isso acontece principalmente nas últimas obras lidas.

Em muitos casos, se excluirmos a mensagem religiosa, não sobra nada (ou quase nada) da história. É como se estivéssemos ouvindo um padre/pastor na missa/culto de domingo descrevendo as aventuras religiosas de personagens comuns. Nada contra a religião, mas ancorar boa parte da literatura neste tema torna tudo muito chato.

A impressão é que Paulo Coelho já transmitiu todas as "lições de vida" que poderia passar para o leitor com seus dois grandes sucessos da década de 1980 ("O Diário de Um Mago" e "O Alquimista"). A partir daí, ele fica se repetindo, reciclando seus conceitos e sua religiosidade. Os diálogos perdem força e a mensagem se torna vazia.

Se no começo os protagonistas com poderes mediúnicos, com romantismo platônico (as personagens se apaixonam sempre ao primeiro olhar) e com necessidades de deslocamento (estão sempre com problemas existenciais e, por isso, precisam viver na estrada, viajando de uma cidade para outra) são legais, depois de alguns livros esses recursos se tornam infantis e pobres.

Minha conclusão é que Paulo Coelho escreveu um grande livro: "O Alquimista". Realmente gostei muito desta obra. Como parábola, ela é excelente. Contudo, assim como ocorre com a maioria dos escritores de autoajuda, suas histórias se tornam enfadonhas e fracas literariamente quando repetidas incansavelmente.

Meu veredito é: "O Alquimista" é um ótimo livro; "O Diário de Um Mago" é uma obra de boa qualidade (se a considerarmos como sendo uma ficção e não como relatos reais de uma viagem); "Veronika Decide Morrer" é razoável; e "Na Margem do Rio Piedra, Eu Sentei e Chorei" e "O Monte Cinco" são publicações fraquíssimas. Na média, Coelho fica com nota 6. Com esta pontuação, ele passa de ano, porém não se torna o melhor da classe.

Assim, não concordo com aqueles que criticam acidamente o escritor brasileiro mais vendido no mundo (colocando o no patamar dos piores autores da atualidade) nem com aqueles que o louvam (colocando-o como um dos melhores autores de nossa literatura). Os dois lados estão equivocados tanto ao subestimá-lo quanto ao supervalorizá-lo. Não acho este radicalismo, seja para qualquer um dos lados, correto.

Paulo Coelho é um autor mediano no geral, porém com ótima capacidade para construir parábolas, obras de autoajuda e livros com alto teor religioso. Neste segmento, ele pode ser visto com destaque e ser uma referência mundial. Precisamos respeitar suas opções literárias e reconhecer seus méritos neste tipo de livro.

O Desafio Literário de 2016 irá prosseguir no próximo mês. Em outubro, o autor que será analisado no Blog Bonas Histórias é Khaled Hosseini, romancista afegão naturalizado norte-americano. Continue acompanhando as análises literárias do Desafio Literário no Bonas Histórias!

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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