• Ricardo Bonacorci

Livros: A Cidade do Sol - O drama das afegãs por Khaled Hosseini


Em 2007, Khaled Hosseini lançou seu segundo romance: "A Cidade do Sol" (Nova Fronteira). Embalado pelo sucesso de "O Caçador de Pipas" (Nova Fronteira), best-seller antecedente, "A Cidade do Sol" rapidamente foi alçado à lista dos livros mais vendidos dos Estados Unidos. A crítica também recebeu muito bem esta obra, que de certa forma consolidou a literatura de Hosseini. Estava provado que "O Caçador de Pipas" não era "sorte de autor principiante". O romancista afegão tinha realmente talento literário. Além disso, ele havia encontrado uma fórmula editorial bem-sucedida. Ao narrar com lirismo e charme os dramas da população do seu país natal, Khaled Hosseini transformara-se em um best-seller mundial.

Nesta nova trama, conhecemos a vida sofrida de duas mulheres afegãs: Mariam e Laila. A diferença de idade entre as duas é de quase quinze anos. Apesar de suas histórias serem contadas no início de maneira separada, no meio do livro elas se cruzam. A violência da sociedade patriarcal do islã conservador irá uni-las em uma única tragédia.

Mariam era uma filha fora do casamento. Jalil, pai da menina, era um rico homem de negócios de Herat, cidade afegã do interior do país. Sua mãe, Nana, era empregada doméstica na casa de Jalil. Mesmo tendo três esposas, Jalil engravidou a empregada. Para não ter seu nome desonrado pela família e pela alta sociedade local, ele mandou Nana e sua criança morarem em uma casa localizada fora da cidade. Uma vez por semana, Jalil ia visitar as duas, levando mantimentos e alguns presentinhos.

O sonho de Mariam, à medida que crescia, era conhecer seus irmãos, que moravam na mansão paterna no centro da cidade. Ela também queria visitar o cinema que Jalil possuía em Herat. Ao completar quinze anos, a menina pediu como presente de aniversário a ida com o pai até o cinema. Ela idolatrava Jalil e não entendia porque ele não a deixava partilhar mais sua vida. Um dia, Mariam fugiu de casa e foi visitar o pai na mansão dele. Ele não a recebeu e fez a menina dormir na rua. Ao voltar para casa decepcionada, Mariam encontrou a mãe morta. Ela se suicidou achando que a filha havia a abandonado.

Só depois da tragédia familiar, Jalil recebeu a filha bastarda em sua casa. Contudo, as três esposas do empresário, desconfortáveis com aquela visita indesejada em sua residência, arranjaram rapidamente um casamento para a menina. Mariam foi prometida e entregue a Rashid, um sapateiro de Cabul de mais de quarenta anos. Assim, da noite para o dia, ela foi enviada à capital do Afeganistão para servir ao seu marido (patrão). O pai da menina, em nenhum momento, se opôs aquele plano macabro que condenaria sua filha para sempre.

Rashid se tornou, dessa forma, o vilão da narrativa ao maltratar diariamente Mariam. Como ela não conseguiu engravidar dele, o sapateiro passou a espancá-la e a desprezá-la cada vez mais. A esposa, segundo a cultura tradicional afegã, era uma mistura de escrava sexual e de empregada doméstica do marido.

Quinze anos mais tarde, Mariam já não era mais uma menina e havia se tornado uma mulher de quase trinta anos muito castigada pelo tempo e pelo tirano esposo. Sem os encantos da juventude, ela se acostumou à constante violência doméstica. Neste momento, em plena Guerra Civil que o país atravessava, Rashid trouxe para seu lar uma vizinha chamada Laila. A menina de treze anos tinha visto sua casa ser destruída e seus pais morrerem com a queda de um míssil. Ao ver aquela criança muito ferida e sem ninguém para cuidar dela, Mariam implorou para o marido aceitar aquela pobre jovem em sua casa. Rashid afirmou que não era certo uma solteira viver na casa de um homem casado. Além disso, ele não achava justo ter que alimentar outra boca. A única forma de Laila passar a viver ali era se casando com ele, agora um homem sexagenário. Sem esperanças, Laila aceita a proposta de casamento, para desgosto de Mariam.

Da noite para o dia, a menina bonita tornou-se a rainha da casa de Rashid. A vida de Miriam piorou ainda mais, tendo agora que servir de empregada do marido e de sua nova amante. Por isso, a primeira esposa passou a odiar a segunda. Quando a jovem ficou grávida, o ódio de Miriam só aumentou. Contudo, o temperamento sórdido de Rashid conseguiu unir as esposas. Contra a violência e a tirania do marido, as duas mulheres, com o tempo, passaram a unir-se contra o vilão em comum. Elas não eram inimigas uma das outras, descobriram depois. O marido era o responsável por transformar suas vidas em algo terrível. Unidas, elas passaram a combatê-lo de todas as formas.

"A Cidade do Sol" tem muitos elementos parecidos ao romance "O Caçador de Pipas". A narrativa é uma sequência de dramalhões sem fim. Quando você acha que a história não pode piorar para as personagens, ela piora ainda mais. Quando se acha que se chegou ao fundo do poço, descobre-se que o poço não tem fim. Outra vez parece que estamos em uma telenovela mexicana. A diferença é que agora o enfoque é sobre a vida feminina na conversadora sociedade afegã (em "O Caçador de Pipas", o relato era sobre a vida dos homens).

Como cenário à narrativa principal, temos mais uma vez os acontecimentos históricos e geopolíticos que permearam o Afeganistão ao longo das décadas de 1970 até hoje. A vida das personagens é afetada pelas constantes guerras e conflitos que marcaram esse país. A chegada ao poder do Talibã, nos anos 1990, representou um alívio momentâneo à população local, cansada de tanta guerra e morte. Se a violência armada parou, a violência aos civis não parou nunca com os radicais islâmicos comandando a nação.

Como em "O Caçador de Pipas", temos em "A Cidade do Sol" um desfecho trágico e melancólico, com pitadas sutis de esperanças quanto ao amanhã. Mesmo com todas as tragédias, dramas, violências e injustiças vivenciadas pelas personagens, acabamos admirando a trama e o jeito poético de Hosseini em escrever. O escritor constrói seu romance de maneira magnífica. É impossível não gostar do que lemos, apesar da história ser digna dos mais sórdidos enredos de terror.

Gostei muito de "A Cidade do Sol". Quem for coração mole, prepare-se para chorar horrores ao longo das quase 370 páginas. Um belo romance também se faz com muita tristeza, como já provara a britânica Emily Brontë na metade do século XIX.

Em pouco mais de uma semana, retorno ao Desafio Literário de outubro para comentar o terceiro, e até aqui, último romance de Khaled Hosseini: “O Silêncio das Montanhas” (Globo). O post com a análise desta obra estará disponível no Blog Bonas Histórias no dia 24. Confira!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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