• Ricardo Bonacorci

Análise Literária: Khaled Hosseini


O Desafio Literário de outubro foi uma indicação de minha irmã, Marcela. O escritor Khaled Hosseini, um dos favoritos da minha "mana", publicou três romances que se tornaram best-sellers mundiais. Seu mais famoso livro é "O Caçador de Pipas" (Nova Fronteira), que se tornou enredo de filme. A vendagem das obras de Hosseini chega a aproximadamente 50 milhões de livros em setenta países.

Khaled nasceu em Cabul, capital do Afeganistão, em 1965. Desde muito novo, ele foi morar no exterior. Filho de diplomata, o futuro romancista viveu na França quando criança e aos 15 se mudou definitivamente para os Estados Unidos. Na América, se naturalizou norte-americano e passou a viver conforme o estilo de vida local. Formado em medicina, profissão na qual trabalha a maior parte do tempo, Khaled enveredou pela carreira literária com quase quarenta anos. Casado e com dois filhos, o médico-escritor continua morando nos Estados Unidos com sua família.

A estreia de Khaled Hosseini na literatura aconteceu, em 2003, com "O Caçador de Pipas". Esta trama aborda a relação entre Amir (o narrador) e Hassan, quando os dois personagens ainda eram garotos. Amir era filho de um rico empresário de Cabul, enquanto Hassan era filho de um pobre empregado da residência da família de Amir. A diferença social não impediu que os garotos se transformassem em grandes amigos na infância. Porém, um acontecimento trágico acabou os separando. Apesar de ter se mudado para os Estados Unidos na adolescência e ter construído sua vida por lá, Amir nunca tirou da sua mente o trágico episódio da sua infância, quando traiu seu melhor amigo por ter sido covarde.

O livro se tornou best-seller nos Estados Unidos em 2005, quando alcançou o topo da lista de livros mais vendidos do jornal New York Times. A história de "O Caçador de Pipas" foi adaptada para o cinema, em 2007, tornando seu autor ainda mais conhecido em todos os cantos do mundo.

Em 2007, na esteira do sucesso da sua obra de estreia, Hosseini lançou "Cidade do Sol" (Nova Fronteira). Novamente temos como cenário a sociedade tradicional afegã e os acontecimentos geopolíticos e históricos que permearam o Afeganistão ao longo das últimas décadas (dominação soviética, guerra civil, governo do Talibã e guerra com os norte-americanos). Ou seja, este segundo romance é muito parecido ao anterior, em estilo, forma e conteúdo. A principal diferença está no enfoque da trama. Ao invés de retratar a realidade masculina como em "O Caçador de Pipas", temos agora o ponto de vista feminino.

Mariam de 33 anos e Laila de 15 anos se tornam rivais quando viraram esposas de um mesmo homem, Rashid. As duas mulheres, como a maioria das afegãs, têm vidas sofridas e são peças secundárias, dependentes e frágeis da cultural patriarcal do seu país. O temperamento sórdido e violento do marido dentro de casa conseguiu o que parecia impossível: unir as esposas. Contra a violência e a tirania de Rashid, as duas mulheres tornaram-se amigas e passaram a combater o inimigo em comum com todas as forças.

"Cidade do Sol" recebeu uma enxurrada de críticas positivas e chegou ao posto de segunda publicação mais vendida do site da Amazon por algumas semanas entre 2007 e 2008. Esta publicação representou a consolidação da carreira de Khaled Hosseini na literatura. Estava provado, portanto, que o primeiro sucesso não havia sido "sorte de principiante". O afegão tinha realmente talento para contar histórias tristes e achar beleza em narrativas trágicas de seu país natal.

A terceira, e por enquanto última, obra de Hosseini foi "O Silêncio das Montanhas" (Globo). O livro foi lançado em 2013 e rapidamente alcançou o status de best-seller mundial. Em cinco meses, o livro já tinha vendido aproximadamente três milhos de unidades nos Estados Unidos.

O enredo desta nova história aborda a relação entre dois irmãos afegãos, Pari e Abdullah, que são separados na infância. Pari é "vendida" pelo pai quando tem apenas três anos para um casal rico de Cabul que não conseguia engravidar. Abdullah, de dez anos de idade, era quem cuidava da irmã caçula com a morte da mãe deles. Por isso, ele sente de mais a perda da pequena. A forte ligação existente entre eles não se desfaz com o tempo, apesar da distância e das dificuldades impostas pela vida que cada um passou a ter.

Apesar de ter se naturalizado norte-americano e de ter vivido a maior parte do tempo segundo a cultura ocidental, Khaled Hosseini tem suas obras totalmente ancoradas na realidade do Afeganistão. Com os atentados terroristas de 11 de Setembro e a guerra dos Estados Unidos contra o Talibã, o interesse do mundo para o até então desconhecido país asiático cresceu. Com isso, muitas pessoas passaram a procurar informações sobre a realidade do Afeganistão. Graças a esta tendência, a literatura de Hosseini ganhou evidência rapidamente. E graças a esta situação, o público leitor pode conhecer um tipo de escritor extremamente talentoso.

Apesar do cenário favorável para um escritor de origem afegã, acredito que Khaled Hosseini seja muito mais um escritor talentoso do que um autor consagrado pelo oportunismo das Guerras Pós 11 de Setembro. Ao narrar com lirismo e charme os dramas da população do seu país natal, o escritor consegue emocionar os leitores do mundo todo. Ele seria um best-seller de qualquer forma. Talvez se o Afeganistão não tivesse "entrado na moda", este êxito editorial demoraria alguns anos ou décadas para acontecer, mas com certeza viria um dia em escala mundial.

A fórmula de sucesso de Hosseini na literatura está baseada nas seguintes características: narrar histórias tristes e trágicas da população do Afeganistão; apresentar as tradições, a cultura e a história afegã para os "leitores estrangeiros"; produzir narrativas com beleza e lirismo, apesar da temática sombria e do cenário aterrorizante; personagens muito bem construídos; narrativas que avançam por longos períodos de tempo; e desfechos, ao mesmo tempo, melancólicos e esperançosos.

Os acontecimentos geopolíticos e históricos que permearam o Afeganistão desde a década de 1950 estão presentes fortemente nas tramas, afetando diretamente a vida dos personagens. É possível analisar, por exemplo, como a população local viu a acessão ao poder dos Talibãs e como eles transformaram a vida de todos naquele país. Em "O Caçador de Pipas" e "A Cidade do Sol", o destino das pessoas é predeterminado. Segundo Khaled Hosseini, seus personagens não podem fugir da trajetória na qual estão amarradas e da realidade do lugar onde estão. A vida pode dar várias reviravoltas, mas ninguém passa impune do que precisa passar, seja das coisas boas quanto das ruins. Apenas em "O Silêncio das Montanhas" este determinismo não é tão acentuado (porém, ainda aparece em algumas histórias). Na maior parte do tempo, o futuro das personagens, neste terceiro romance, foi construído mais pelas decisões familiares, as opções individuais e pelo acaso do que pelo ambiente.

Quem gosta de drama, os romances de Hosseini são um prato cheio. Ao lê-los, me recordei das telenovelas mexicanas: repletas de tragédias, traições, maldades e reviravoltas trágico-cômicas. A narrativa é uma sequência de dramalhões sem fim. Quando você acha que a história não pode piorar para as personagens, ela piora ainda mais. Quando se acha que se chegou ao fundo do poço, descobre-se que o poço não tem fim. "O Caçador de Pipas", "A Cidade do Sol" e "O Silêncio das Montanhas" são dramalhões ao estilo das telenovelas mexicanas, mas com tempero afegão.

Apesar de serem histórias muito tristes, há muita beleza nessas narrativas. Mesmo com todas as tragédias, dramas, violências e injustiças vivenciadas pelas personagens, acabamos admirando estas tramas e o jeito poético de Hosseini em escrever. O escritor constrói seus romances de maneira magnífica. É impossível não gostar do que lemos, apesar das histórias serem dignas dos mais sórdidos enredos de terror. Hosseini possui uma visão poética da vida e do ser humano, conseguindo retratar isso em suas obras. As emoções que o leitor sente durante os romances são variadas. A única coisa que não se altera é o resultado delas: as lágrimas rolam várias vezes durante os livros. Até mesmo os corações mais frios irão sofrer durante a leitura.

Os personagens são muito bem construídos e há boas reviravoltas nas tramas. O maniqueísmo é também relativo. Muitos dos personagens principais não podem ser classificados precisamente como sendo bons ou maus. Tudo depende do contexto, do ponto de vista e da situação. Isso torna as obras ainda mais ricas.

Os desfechos são espetaculares. Todos os romances possuem elementos trágicos e melancólicos na última parte, com pitadas sutis de esperanças quanto ao amanhã. Ou seja, nem mesmo no finalmente temos um colorido alegre e feliz. Hosseini não dá refresco para os leitores nem mesmo no encerramento de suas publicações. Sua visão pragmática e realista da vida, até nestes instantes, se manifestam com propriedade.

Considerei "Caçador de Pipas" como sendo o melhor romance em conteúdo (pela profundidade da narrativa), enquanto "O Silêncio das Montanhas" é a obra mais impactante (pela forma e estrutura como a história foi contada). Contudo, os três romances são excelentes. Todas são narrativas marcantes que têm a propriedade de se fixar em nossas mentes por muitos e muitos anos. Não há dúvida que estamos diante de um dos melhores autores da literatura mundial contemporânea.

No próximo mês, o Desafio Literário irá analisar Italo Calvino, um dos escritores italianos mais famosos do século XX. Acompanhe as novas atrações de novembro do Bonas Histórias!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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