• Paulo Sousa

Contos: Histórias de Macambúzios - 9 - Aquilo que os Une


Domingo de sol em Macambúzios. Início de manhã, os passarinhos cantam alegremente em busca de minhocas no solo. O homem dorme tranquilamente, janelas abertas cuja luz a que dão passagem brilha e reflete nas paredes branquíssimas. Para alguém que é solteiro, sua cama é de tamanho exagerado, mesmo para aqueles de sono agitado.

Sinestesicamente, talvez pelo recente estímulo ao sistema endocanabinoide com THC, CBD e outros, seu sonho se mistura com a realidade em uma grande gama de sensações. Enquanto a luz do sol aquece seus pés descalços, corre por um gramado infinito e plano; logo que sente a brisa matinal a massagear seu rosto, todo seu cabelo vibra e dança com o vento forte e reconfortante que lhe chega; assim que o cheiro de orvalho se apresenta discretamente, rosas, margaridas e jasmins o secundam.

Entretanto, um cheiro desagradável começa a permear seu sonho. Mais à frente, avista um cavalo, que corre em círculos. Quanto mais se aproxima, mais o cavalo acelera e enlouquece. Sua fúria e torpor lhe dominam a cada revolução trotada, até que colapsa e cai morto na grama, enquanto o sonhador está quase para tocá-lo. Rapidamente, o cheiro de podridão emana do animal, que já começa a sentir o efeito dos vermes. O odor da cena é insuportável, nauseante, e ele acorda assustado e suado, abrindo os olhos e deparando-se com uma tragédia, que o fez questionar se dormia ou vivia.

Naquele domingo de sol em Macambúzios, Mano Metido acorda com duas cabeças de flamingo decapitadas no início do pescoço, que deitavam aos seus pés, e deixavam sua cama escarlate.

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Na segunda-feira, Patrício decide entrar sozinho em Macambúzios. O cafetão goza de certo respeito por ser o fundador da Vivanal, mas mesmo assim teme assaltos e sequestros, como o que aconteceu com Madalena, acredita. Sua amiga e prostituta está há muito tempo desaparecida, e foi com Mano Metido a última vez que a viu.

Como não estava acostumado a andar sozinho em Macambúzios, nem mesmo em suas fortuitas visitas à Vivanal, arranjou uma pistola automática com um segurança da Espelho do Mundo, para alguma eventualidade mais perigosa. Logo no início da cidade, avista uma casa depredada, com a porta arrombada e a janela estilhaçada. “Uma péssima primeira impressão”, admite. Continua seu caminho confiante, e apesar de tê-lo feito apenas uma vez na vida, lembra-se bem de cada ladeira que teve que passar.

Chegando à casa, viu que mais capangas a cercavam. Após muito tempo de conversa com eles, Patrício não conseguiu autorização para entrada, bem como informações sobre Madalena e Mano Metido. Foi coagido a pagar uns tostões para conseguir tirar algo útil dos leões de chácara, o que acabou fazendo.

“O Sr. Mano Metido não se encontra na residência”, disse um dos guardas. “Só está na casa sua sócia”.

“Serve!”

A sócia em questão estava muito ocupada no momento, e nem ouviu toda a pequena negociação. Na verdade, trabalhava com seu notebook no colo, sentada em um sofá branco como as paredes. Engana-se quem pensa que ela trabalhava em prol de seu patrão; ao contrário, programava um software a ser lançado em breve, quando entra na casa um homem belo, arrojado, cabelos morenos.

“Olá, me chamo Patrício. Eu trabalho na Vivanal, e gostaria de falar com Mano Metido.”

“Como você deve perceber, ele não está.”

Patrício reparou que toda a sala estava equipada com câmeras de segurança, e deve ter feito a óbvia interrogação do porquê o dono da cidade se preocuparia com eventuais roubos ou sequestros.

“Toda a casa está equipada com câmeras, que podem ser acessadas em tempo real de qualquer lugar do mundo”, disse a observadora Luíza. “Não tente nada, pois posso lhe encontrar.”

“Não, não vou tentar nada...”, assustou-se Patrício. “Na verdade, eu gostaria de saber da Madalena, pois ela não aparece na Vivanal por alguns dias.”

“Madalena, a puta?”, respondeu de forma atravessada a menina. “Ela ficou por aqui por uns tempos, e recentemente me deixou um bilhete.

Mas faz alguns dias que não a vejo.”

Patrício, que antes estava tenso, relaxou um pouco, pois ouviu que as chances de sua amiga estar viva são altas. Entretanto, sentiu que a jovem a sua frente não gostava muito dela.

“Madalena acabou me denunciando, o que culminou na morte de meu irmão”, disse Luíza. “Eu entendo que ela pode ter passado por torturas para confessar algo, e isso abranda a raiva que sinto.”

“Torturas? Eu quero saber imediatamente onde Madalena se encontra!”, vociferou Patrício, sem saber se Luíza falava sério ou apenas provocava, dúvida típica entre um homem comum e uma mulher instigante.

“Meu amigo, infelizmente, não sei onde ela está, e o Mano só volta amanhã. Sobre a tortura, é pouco provável que tenha acontecido, pois ambos tinham certas intimidades.”

O cafetão viu-se em uma encruzilhada, pois não sabia se poderia confiar na mulher à sua frente. Viu-se forçado a usar da oratória para verificar a autenticidade da moça, e ele sabia muito bem como se aproximar de uma mulher.

“Sinto muito pelo seu irmão, aliás”, disse. “Deve ter sido uma perda muito grande.”

“Sem dúvida, sinto muito a falta dele...”, e então Luíza, que se esforçava para conter as lembranças e manter sua postura séria, acabou a ter soluços convulsivos, que se tornaram rapidamente um choro copioso e sincero, chorado de boca aberta e olhar para baixo.

O homem a abraça em um gesto pouco calculado, e assim ficam calados durante alguns minutos. Luíza sente nos braços fortes e mais maduros de Patrício calor, conforto e segurança. Aos poucos, seu choro diminui, até que se transforma em esparsos soluços e um nariz escorrendo.

“Estou trabalhando em um software que é uma homenagem ao meu irmão. Chama-se iMissU, e irá me tirar dessa cidade de merda para viver uma vida menos violenta, conforme ele sempre me aconselhou”, finalmente falou a moça.

A história de sua vida acabou sendo contada por inteiro, com a morte de seus pais, sua amizade com Júlio e a escolha de seu nome.

“Interessante você receber o nome de uma heroína da cidade”, elogiou pretensiosamente Patrício.

“Pois é, e veja que ambas sofreram com perdas inestimáveis. Acho que o destino das Luízas de Macambúzios seja chorar até a morte”, respondeu. “Por isso construímos barreiras e softwares.”

Ambos sequer se dão conta do tempo que passaram juntos, e sequer que já representaram papéis diferentes um para o outro. Luíza, antes chantagista, vai revelando seus maiores segredos. Patrício, antes vítima, tenta usar de seu charme para alcançar a verdade, mas percebe que a moça é sincera e tem uma vida interessante.

Então, o cafetão conta sobre como conheceu Madalena, como fundou a Vivanal, e muitas outras histórias, exceto a chantagem que recebera, e que agora não tinha mais importância. Descobriu que muitas prostitutas eram vizinhas ou amigas de Luíza, e trocaram fofocas sobre elas.

O assunto tornou-se ameno e trivial, para logo depois se tornar libidinoso. Começaram a conversar sobre sexo, ele um expert, ela uma iniciante. Abriram um vinho, Luíza cheirou um pouco de cocaína, e o inevitável beijo aconteceu. Sincero por um lado, nem tanto para outro, se amassaram e rolaram do sofá, ficando deitados nus no chão da sala.

A segurança que Patrício lhe transmitia foi suficiente para Luíza oferecer sua virgindade, e o cafetão penetrou-a com calma, sem pressa, até que sua amante geek começa a pedir mais velocidade, força. Sem desatar os corpos, ela consegue levar ao nariz o que sobrou de um pino lá jogado, e começa a gemer e a pedir mais. Insaciável, Luíza grita e arranha Patrício pelas costas, que tem o orgasmo mais barulhento de sua vida.

Ficam mais algum tempo deitados, despreocupados, jogando conversa fora. Entretanto, já se fazia noite, em breve Mano chegaria, e Luíza não queria se encontrar com ele. Vestiram-se, arrumaram a bagunça, e fora constrangedor quando se despediram dos capangas na porta, que não contiveram o riso. Como um cavaleiro, Patrício fez questão de levar Luíza para casa, antes de descer a cidade.

Ambos dormiram bem naquela noite, apesar da tensão que suas vidas tinham vivido nos últimos tempos. Luíza, entretanto, sentia-se um pouco desconfortável, com a sensação de que esquecera alguma coisa na casa. “Deve ser comum nas primeiras vezes”, pensou.

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No mesmo dia, dois homens conversavam em uma pequena base policial no pé da cidade. Era uma sala vazia, apenas com uma mesa e duas cadeiras. Deveria ser usada para interrogatórios, mas o tenente-coronel responsável pela base preferia usá-la para traçar planos escusos e torpes.

“O Metido me procurou hoje pela manhã, e estava muito assustado com a história dos flamingos.”

“Eu sei, é uma prova de que sou muito competente no que faço.”

“É um cargo muito difícil, e sinto que ele não aguentará muito tempo. A hora do Metido acabou, e a sua chegou. Na verdade, eu estou pouco me fudendo para quem trabalha para mim em Macambúzios. Só lhe peço que não tente mentir, pois disso saberei”, disse Sampaio.

“Com certeza, cada um tem o que merece, e amanhã a justiça será feita em Macambúzios”, respondeu Júlio.

Certa feita, em uma de suas muitas prisões, Júlio foi interrogado por Sampaio. Acabaram tendo uma conversa franca, e ganharam uma simpatia mútua. Antes do enrustido começar a elaborar seu plano, procurou o tenente-coronel, que o ajudou com os detalhes que poderiam passar despercebidos. Após algumas semanas, tinham a certeza de que seria um assassinato perfeito.

“Saiba que a milícia não pode parar. Muita gente depende dessa porra para sobreviver. Você terá muita responsabilidade a partir de então.”

“Eu sei disso. Cansei de pequenos delitos, quero pensar grande. E também, aproveito para me vingar, pois ele matou uma namorada minha.”

“Matou? Não estou sabendo. Só vi que ele deu um tiro em Caubi Chavier, aquela bicha que cantava nos karaokês.” Sampaio não conseguia conter um sorriso de canto da boca.

“Nunca ouvi falar em Caubi Chavier, e se tivesse, eu mesmo o teria matado”, respondeu Júlio, tentando reprimir sua homossexualidade e exaltar sua homofobia.

“Bem, mas voltemos aos negócios”, continuou Sampaio, “hoje em dia o Mano cobra vinte por cento de comerciantes e moradores, e me passa quinze. Quero que você cobre trinta, e me passe vinte e cinco.”

“E as drogas?”

“Metade para mim, metade para ti.”

“Jogos?”

“Idem.”

“Putas?”

“Ibidem.”

“Televisão?”

“Tudo para mim, você não participará disso.”

Mesmo com uma divisão mais estoica para Júlio, ele aceita e acredita que o projeto é vantajoso. Conseguiria poder de barganha quando mostrar-se violento e tiver o poder de fato. Selam as mãos e acendem um charuto para comemorar os novos tempos.

“Júlio, agora falando sério”, disse solenemente Sampaio, olhando nos olhos de seu sócio. “Você vai entrar para a alta sociedade do crime. Precisa de um nome de bandido.”

“O que acha de Júlio Matador?”

“Não concordo, e como eu vou lhe colocar no topo de Macambúzios, tenho o direito de lhe dar o nome. Você é movido pela ganância, raiva e vingança, mas sente um enorme rancor pelo seu passado. Por isso, a partir de agora, você será chamado de Júlio Rancoroso.”

Mesmo sem gostar muito, o enrustido concorda com a explicação, e aceita.

“Durma aqui na base essa noite, não quero que você morra antes da hora. Amanhã, logo após o almoço, destacarei dez homens de meu batalhão, que trabalharão sob suas ordens, para que vocês assassinem finalmente Mano Metido e deem continuidade aos negócios.”, despediu-se Sampaio, fechando a porta.

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Mano Metido chegou em casa tarde da noite. Pela manhã, procurara Sampaio para lhe ajudar, mas não fora bem recebido. Teve que ouvir que era covarde, não mostrava mais a confiança de outrora. Isso o deixou abalado, e perambulou pela cidade durante o dia inteiro, sempre em lugares de pouca movimentação.

Seus capangas estranharam a chegada patrão àquela hora, ainda mais sozinho, e estavam loucos para contar sobre os gemidos de sua sócia. Entretanto, Mano estava aborrecido, e não deu atenção aos homens. Na verdade, estava petrificado de medo, e por isso mandara instalar as câmeras. Relacionava a morte de seus queridos flamingos como uma intimidação de Madalena, que sumira havia dias. Jurou matá-la caso a visse por aí.

Acordou muito cedo, com o sol ainda nascendo. Não teve sonhos, mas suores fortes e apneias. Qualquer pequeno estalar de móveis, desses que acontecem quando nada mais pode ser ouvido, eram suficientes para acordar o maior traficante e miliciano de Macambúzios. Estranhou o fato de Luíza não ter aparecido para trabalhar, embora seu notebook estivesse lá, mas estava cansado de mulheres que desaparecem sem motivo aparente.

Após passar dois dias de medo e estagnação, resolveu que era a hora de verificar se o dinheiro guardado em sua casa não fora roubado, o que é uma imensa ofensa para um traficante de grande porte. Para sua surpresa, duzentos mil reais tinham sumido, e claro, Mano logo culpou Madalena de ser a ladra.

Juntou todos seus doze capangas e o grupo se dispersou para procurar a prostituta sumida. “Todos devem se armar muito e procurar Madalena por todas as ladeiras. Também invadam casas para procurá-la. Para sabermos quais casas já foram revistadas, vamos marcar os umbrais das portas de vermelho”, gritou Mano Metido, comprometido a uma operação de guerra.

A manhã de terça-feira foi de muita tensão na cidade. Casas foram invadidas sumariamente, pessoas torturadas em busca de uma vã informação. Até a sede da Vivanal fora saqueada e depredada, mesmo sem nenhum sinal de Madalena. Quando o sol já estava a pino, Mano Metido parou para refletir, e repassou os últimos dias em que conviveu com Madalena. Lembrou-se de Patrício, cafetão vítima de chantagem, mas também se lembrou de Salomão, o judeu que chegara e não dera mais notícias desde então.

Decidiu ir até a casa do afrossemita, pois seu sexto sentido assim lhe indicou. Para sua satisfação, ao se aproximar do local, avistou a prostituta descendo muito rápido a Ladeira Oswaldo Cruz. Mano não podia perder a oportunidade, espero-a se distanciar um pouco da casa, e lançou-lhe uma pedra por trás, na altura das costas, que a fez cair. Rapidamente soltou alguns fogos, avisando que pegara a presa. De arma em punho, correu para chutá-la.

“Filha da puta!”, vociferou. “Você matou meus flamingos e roubou meu dinheiro! Agora vai morrer sem direito a nada!”

“Se quiser me matar, que faça agora!”, ordenou a corajosa prostituta. “Não tenho medo de ti, e Deus guarda para mim um lugar em Seu reino.”

Nesse momento, Mano destrava sua arma e aponta para a mulher, esperando matá-la à queima roupa.

“Porque você me roubou o dinheiro? Por acaso está de conchavo com alguém?”

“Não estou. Roubei para financiar minha história de amor. Triste de você, que nunca amou de verdade.”

Aquelas palavras balançaram Mano Metido. A única mulher por quem ele se aproximou fora justamente Madalena. Lembrou-se, então, que já fora alguém que não assassinava, não se metia com drogas, armas ou putas. Pensava que essa antiga pessoa, chamada Emmanuel, tivesse morrido, mas quando mirava na mulher à sua frente, duvidava um pouco.

Madalena fecha os olhos e começa uma oração. “Exaltar-Te-ei, Senhor, porque Tu me exaltaste; e não fizeste com que meus inimigos se alegrassem sobre mim; Senhor meu Deus, clamei a Ti, e Tu me saraste; Senhor, fizeste subir a minha alma da sepultura, conservaste-me a vida para que não descesse ao abismo.”

“Cale-se mulher! Hoje você não sairá viva de Macambúzios!”

“Cantai ao Senhor, vós que sois Teus santos, e celebrai a memória da sua Santidade; porque Tua ira dura só um momento, e no Teu favor está a vida. O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã; eu dizia na minha prosperidade ‘não vacilarei jamais.’”

Havia muito tempo que Mano não suava frio daquele jeito, e não hesitava. Internamente, comemorou que seus capangas ainda não tivessem chegado, o que aumentaria a pressão sobre o assassinato que se tornara complicado. Ele sabia que não era o momento para reflexões sobre moral e ética, mas um sentimento de clemência por Madalena acabou ganhando força.

A moça continuou: “Tu, Senhor, pelo Teu favor fizeste forte a minha montanha, mas Tu encobriste o Teu rosto, e fiquei perturbada; a Ti, Senhor, clamei, e ao Senhor supliquei; que proveito há no meu sangue, quando desço à cova? Porventura Te louvará o pó? Anunciará ele a Tua verdade?; ouve, Senhor, e tem piedade de mim, sê o meu auxílio; Tornaste o meu pranto em folguedo, desataste o meu pano de saco, e me cingiste de alegria; para que a minha glória a Ti cante louvores, e não se cale, Senhor, meu Deus, eu Te louvarei para sempre.”

O sol forte do meio dia queimava a pele molhada do traficante, que claudicante, aplicou uma coronhada na testa de Madalena, seguida por inúmeros socos e chutes. Ela só chorava e cobria inutilmente o rosto com as mãos.

Quando a fúria terminou e deixou os músculos de Mano fatigados, este deu um passo à trás, e pediu para que Madalena fugisse dali rapidamente, antes que o próprio mudasse de ideia. Enquanto ela descia a ladeira correndo, Mano voltou à sua casa cabisbaixo. Encontrou alguns de seus homens no caminho, e aguardou para que todos se reunissem sob a porta para falar alguma coisa.

“Foi apenas um alarme falso, ela não deve estar na cidade. Cessem a busca, mas fiquem aqui em frente de plantão. Eu vou dormir um pouco.”

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Patrício acordou um pouco antes do meio dia. Com uma leve dor de cabeça do vinho, fez a barba como de costume. Não estava completamente frustrado com o dia anterior, pois acabou tendo uma bela transa com uma garota ainda não iniciada, algo raro para um balzaquiano. Entretanto, não conseguira encontrar Madalena, e isso o incomodava muito.

Cansado e sem comer, Patrício novamente vai a Macambúzios com a pistola automática que conseguira com um segurança da Espelho do Mundo. A cada passo sente um peso enorme nas costas, fatigadas pela chantagem e pelo sumiço. Novamente, na base da cidade, admira a casa com a janela quebrada e com cheiro ruim.

Quando pensava em como aquela destruição fora acontecer, surge descendo ofegante aquela que tanto procurava. Chorando e sangrando muito, Madalena abre os braços pedindo conforto para Patrício.

“Meu amigo, que bom lhe encontrar”, diz a mulher.

“Madalena, por onde você andou?”, perguntou o homem com entonação de exclamação. “Que bom que você está viva!”

“O Mano acabou me prendendo na casa dele, mas conheci um homem muito honesto e gentil. Vou fugir daqui com ele!”

“E esses machucados, quem fez isso contigo?”

“O Mano me encontrou agora, me espancou, mas não teve coragem de me matar”, disse. “Não se preocupe, o que não mata fortalece.”

Patrício abraça sua amiga forte, e chega a estranhar, pois é a primeira vez que isso acontece. Percebe que seus olhos se enchem de lágrimas, de ódio e de antecipação da saudade, e tira quase todo o peso que carregava.

“Patrício, cansei de minha vida aqui”, diz Madalena. “Vou partir para a Etiópia, em busca de recomeçar minha história. Estava indo para a boate, pois não poderia partir sem antes me despedir de você, meu único amigo. Mas ainda bem que lhe encontrei antes.”

Após muitos minutos de afagos e votos de felicidade, Madalena vai embora, para longe de Macambúzios, para nunca mais retornar. Patrício, por sua vez, permanece em pé, pensativo, e quando termina de assimilar tudo que aconteceu, volta a subir a cidade, mas ao contrário de sua motivação anterior, já encerrada, parte para matar Mano Metido, aquele que lhe manipulou e espancou sua amiga e melhor funcionária.

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Como se pode ver, Macambúzios teve uma manhã cheia. E como se poderá ver, uma tarde também. Entretanto, Luíza perdera tudo isso em seu sono. O vinho, o pó e o sexo primevo a fizeram dormir até o crepúsculo. Nem mesmo a gritaria da busca por Madalena a fez tirar a cabeça do travesseiro.

Isso aconteceu porque eram gritos de raiva e ordem, aos quais Luíza se acostumara. Mas um grito que ecoava em seu coração era o da perda de um ente querido, e ao menor sinal de um, levantou-se e foi observar a viela na qual morava.

“Meu neto!”, ouvia ao fundo. “Mataram meu neto! Quero que me levem também!” Não foi difícil distinguir que dona Turmalina, desesperada e a prantos copiosos, lamentava a perda de Mano Metido. Ela se aproximou do choro, que não era distante, e viu a senhora sendo amparada por vizinhas e amigas de bingo.

“Primeiro perdeu um amigo, agora o neto. É uma época de muito luto, ela precisa de força”, disse a Luíza uma outra avó, que trouxera a filha e o neto para prestar solidariedade, referindo-se ao Sr. Ernesto e a Mano Metido, respectivamente.

Luíza teme que fora Júlio quem cometera o assassinato, e volta para sua casa assustada. Ao deitar-se novamente em sua cama, como que para esperar as coisas se acalmarem, tem um insight. Percebe que Patrício, o homem com quem transara na noite anterior, também poderia ser o assassino, com raiva pelo sumiço de Madalena.

Passou a olhar o teto fixamente, percorrendo com a lembrança todos os eventuais passos que Júlio e Patrício poderiam ter feito até matar Mano Metido. A dúvida só crescia, e a perturbava muito, pois no primeiro caso poderia sair da cidade em paz, com a morte do irmão vingada e sem inimigos vivos; entretanto, a segunda opção seria trágica, pois poderia ter dormido com um assassino, que ainda em fúria poderia até matá-la, julgando-a cúmplice do sumiço.

A dicotômica incerteza lhe preenchia tanto a mente que somente após uma carreira se deu conta que perdera a virgindade, e sentia-se aliviada por isso. Mas como nunca é finalmente o fundo do poço, outra ideia fixa a toma de supetão. Esquecera-se completamente das câmeras na casa de Mano, que filmaram sua primeira experiência sexual e o eventual assassinato.

Vendo que seu notebook estava no quartel general do tráfico, veste a primeira roupa que encontra e parte para encontrá-lo. No caminho, descobre que todos os capangas de Mano também foram mortos, mas ninguém sabia ao certo quem cometera o extermínio. Alguns céticos, inclusive, duvidavam da veracidade dos fatos, alegando que Mano poderia estar vivo, pois o cadáver não fora visto por ninguém.

Ao se aproximar da casa, vê uma multidão observando de longe, com medo de chegar perto. Corajosa, Luíza abre a porta, que está destrancada. O que vê são dez cadáveres empilhados no canto da sala, e o cadáver de Mano Metido ao lado, sozinho. Rapidamente tranca a porta, para que ninguém se assuste mais ou a incrimine, e examina visualmente os corpos. O cheiro da sala é muito forte, e ela acaba vomitando após uma breve tontura.

Os dez corpos têm marcas de tiros. Alguns com muitas, outros com poucas. Conhecia todos eles, que se revezavam como leões de chácara em frente à casa. O do topo, inclusive, rira na noite anterior, quando Patrício a levou para casa, e tinha os dentes todos quebrados por um disparo. “Peixe morre pela boca”, pensou Luíza.

O cadáver de Mano Metido jazia completamente desfigurado, com o braço esquerdo por cima do notebook de Luíza, já de coloração barrenta de tanto sangue coagulado. Mesmo com muita ojeriza, ela liga a máquina para ver o que fora filmado. E o que ela viu, segue.

Mano chega em casa furioso, e tranca-se sozinho. Deixa sua arma em um canto da sala e senta-se no sofá. Aos poucos, sua respiração diminui, e adquire um ar pensativo e cansado. Sozinho, olha para o chão, olhos fixos, sem indicar no quê estava pensando.

Então, ouve-se uma infinidade de tiros do lado de fora, alguns que até quebraram as janelas. Ele se levanta, mas confuso por seus pensamentos, esquece-se de sua arma, e abre a porta. É recebido com um revólver na cabeça, carregado por um homem de farda, que lhe pede para entrar na casa. Outros dez também entram, os últimos carregando os corpos quentes e ainda moribundos de capangas inimigos que estavam do lado de fora, e fecham a porta. Mano ajoelha-se, e percebe que os onze estão fortemente armados.

“Muito prazer, meu nome é Júlio Rancoroso”, inicia o líder conhecido de Luíza. “Vim aqui porque cansei de bater em travestis e roubar carteiras.”

Mano não acredita no que vê, e espantado, apenas abre a boca, sem pronunciar nenhuma palavra. Os onze matadores também permanecem em silêncio, divertindo-se com a falta de traquejo de Mano para com um iminente assassinato. Essa cena dura longos minutos, até que finalmente o acossado fala.

“Não o conheço, e quem são esses outros?”

Júlio Rancoroso toma o ar para responder, mas subitamente ouve-se a campainha tocar. O silêncio continua na sala, afinal, visitas não seriam bem vindas àquela hora. Pelo olho mágico, vê-se um homem comum, com boas roupas. “Alguém abre a porra da porta e bota esse playboy pra dentro”, diz Júlio.

Um capanga abre a casa de supetão e com a arma em punho, aplica um mata-leão em Patrício, e obriga-o a entrar na casa. Em uma revista, consegue pegar a pistola automática do cafetão. “Depois a gente vê o que faz com esse cara”, sentencia o novo traficante, querendo retomar o assunto principal.

“Como eu ia dizendo, esses são meus homens, exceto o playboy, e nós viemos aqui para começarmos nosso trabalho.”

Luíza não consegue acreditar em seus olhos. Há poucas horas a sala na qual estava fora invadida por seu ex-cunhado, seu amante e outros dez homens armados. Estava aliviada, pois no final das contas não precisou servir de isca para nada, embora ainda considerasse estar correndo sérios riscos.

Antes de voltar sua atenção para o diálogo passado, ela ouve alguns copos caindo próximos a ela. Pausa o vídeo, e percebe que um armário tombara, e se mexia, e emitia um grito contido, estridente e irreconhecível. Seu coração foi até a boca, mal conseguia respirar tamanho susto e agonia que sentia.

Luíza estava sem coragem para abrir o armário, e com muita vontade de sair correndo, deixando tudo para trás. Entretanto, sentia que tinha um dever consigo a cumprir, e mesmo com alguém se debatendo e gemendo preso em um armário próximo, continuou o vídeo.

Mano estava tremendo de medo, chorando e pedindo para que fosse libertado, que nunca mais voltaria a Macambúzios, que poderia trabalhar para a facção. Mas suas súplicas não adiantaram, Júlio não era homem de hesitar, e naquela vez não seria diferente. Ele destravou a arma apontando diretamente para a testa de Mano Metido.

“Como eu quero me lembrar desse momento para sempre, lhe dou o direito de dizer suas últimas palavras”, disse Júlio Rancoroso.

Mano, então, percebeu como tudo aquilo fora planejado. Ele sabia que um criminoso menor de sua cidade não teria capacidade para envolver polícia e tantas armas sem seu conhecimento. Sentiu-se traído. “Por favor, quero que mande o tenente-coronel Sampaio para a puta que o pariu.”

“Seu pedido será atendido”, e com isso, dispara o gatilho que explode a cabeça do homem que provou as injustiças da sociedade, tentou contorná-las usando-as, mas acabou fazendo sua própria através de assassinatos como o que estava recebendo. Em seguida, os dez capangas descarregaram toda a munição em um corpo já inerte e desfigurado.

“É o fim da era Mano Metido, e o início da era Júlio Rancoroso”, bradou o novo líder. “Comigo aqui, Macambúzios ficará uma cidade um pouco mais vertical! É como eu sempre digo, cada um tem o que merece!” E todos, menos Patrício, ainda dominado, riram muito.

O corpo é colocado ao lado da pilha de seus capangas, e sem perceber, o braço desfiado acaba caindo em cima do notebook. A atenção de todos, agora, volta-se para Patrício, que empalidecera e tremia muito. Júlio passa a arma por sobre a roupa do cafetão, ainda quente, e o ameaça.

“Eu posso lhe matar agora, mas preciso saber quem você é.”

“Meu nome é Patrício, sou dono da Espelho do Mundo e da Vivanal”, responde aterrorizado. “Vim aqui procurar por Madalena, minha amiga, mas já estou de saída.”

“Esse nome não me é estranho. Por acaso é aquela prostituta que cuida da fundação dos filhos das putas?”

“Sim, a própria!”

“Cara, você tem sorte”, diz Júlio Rancoroso, guardando sua arma. “Essa putinha é amiga da minha ex-cunhada. Por isso mesmo, ela é quem vai decidir se te mato ou não.”

Então, os capangas dão uma coronhada na nuca de Patrício, que desmaia, e o amarram, amordaçam e prendem no primeiro armário que veem. Depois, saem da casa rapidamente.

Assustada, Luíza joga seu computador para longe e abre o armário, desamarrando e desamordaçando Patrício. Ambos se olham incrédulos, sem nada dizer, até que a respiração ficasse um pouco mais controlada.

“O que você faz aqui?”, perguntou Patrício. “Acabaram de matar o Mano, e eles vão voltar para me matar também!”

“Eu sei disso, as câmeras filmaram tudo”, respondeu a menina com a vã tentativa de acalmar o homem. “Eu conheço o Júlio, é meu ex-cunhado, e a minha escolha é que ele não lhe mate.”

“Mas como? Você não me avisou de nada?”

“Eu não sabia de nada, também fiquei surpresa.”

Ambos já estavam mais calmos, e se abraçaram. Luíza contou a Patrício a história de Júlio, sua homofobia, seu homossexualismo enrustido e o amor que sentia pelo seu irmão morto. O homem ouviu tudo com calma, mas uma dúvida começou a atormentá-lo.

“Mas se você filmou o assassinato de Mano, também filmou nossa noite ontem, não foi?”, perguntou. “Por favor, apague aquilo, já tive muitos problemas com a exposição de minha intimidade.”

O pedido pegou Luíza de surpresa, que demorou a responder. Também temia que eventuais investigações, mesmo as costumeiras fajutas, descobrissem seu vídeo. “Vou apagar tudo.”

E então ela apaga não só a gravação pornô, mas também o assassinato. Não queria guardar nenhuma lembrança daquela história, e só pensava em sair de Macambúzios e viver desenvolvendo seus aplicativos. Entretanto, sabia que para ter outra vida completamente livre, não poderia deixar nenhuma dívida para trás.

Após longa despedida de Patrício, votos de felicidade e saúde, e a certeza de que nunca mais se encontrariam novamente, Luíza dá por encerrada sua vida em Macambúzios. Como acabou provando um pouco de seu próprio veneno, retira seu dinheiro das Ilhas Virgens Britânicas, e em seguida apaga todos os vídeos dos punheteiros, sem publicar nenhum, finalizando o lucrativo esquema de chantagem.

Fez esse gesto de desprendimento e moral sem saber que livrava assim o homem que lhe tirara o hímen, e que dias antes levara Madalena para conversar com Mano Metido justamente por estar sendo chantageado por Luíza Poli, cujo irmão acabou morto em decorrência.

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“Eu vou sentir sua falta”, diz Júlio Rancoroso, abraçando Luíza. “Vai ser chato mandar em tudo aqui sem você.”

Já está de noite, e os capangas fardados estão colocando os corpos em sacos de lixo preto, a serem queimados. Tenente-coronel Sampaio também está na casa, pois fora avisado logo em seguida ao extermínio.

“Essa milícia agora vai dar muito dinheiro”, diz. “A única que coisa que você precisa mudar aqui, Rancoroso, são essas paredes brancas, que sempre achei uma merda.”

“Fique tranquilo, eu já sei o que o que fazer com elas”, respondeu Júlio.

Luíza estava muito cansada, e com certeza não se sentia bem em meio a cadáveres, traficantes, assassinos e milicianos. Levou Júlio para fora da casa a fim de se despedir.

“Bem, então é isso. Desejo sucesso para você e, por favor, não vá morrer como seus antecessores.”

“Não vou. Sucesso com seu programa. Aliás, como ele vai funcionar?”

“Ele se chama iMissU, e ficará pronto em poucas semanas. Será um aplicativo para celulares, tablets e notebooks que permite compartilhar músicas em karaokê. Qualquer usuário disponibilizará suas músicas para outros cantarem, incluindo declarações de amor, poemas ou vídeos virais. Já virá com as músicas que meu irmão compôs e cantava por aí.”

“Quem diria, talvez ele estivesse certo quando falava para sairmos daqui.”

“Não penso nisso agora.”

Luíza da então um abraço em Júlio Rancoroso, sem saber quando o verá novamente, e parte para sua nova vida. Já o novo traficante espera alguns minutos à porta, quando o saco que leva o cadáver de Mano Metido passa. Ele pede para deixá-lo no chão, e o abre para ver pela última vez a desfigurada e rubra face do ex-dono da cidade. Orgulhoso, dá um grito muito alto, antes de entrar para seu lar.

“Cada um tem o que merece!”

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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