• Ricardo Bonacorci

Livros: Cidades Invisíveis - A obra-prima de Italo Calvino


Neste final de semana, li o mais famoso livro de Italo Calvino. "Cidades Invisíveis" (Companhia das Letras) é um dos clássicos da literatura mundial. Publicada originalmente em 1972, esta novela recebeu vários prêmios internacionais. O próprio autor considerava esta a sua obra mais profunda. "Se meu livro Cidades Invisíveis continua sendo para mim aquele em que penso haver dito mais coisas, será talvez porque tenha conseguido concentrar em um único símbolo todas as minhas reflexões, experiências e conjecturas", disse Calvino na década de 1980.

Nesta narrativa curta de 150 páginas, o explorador veneziano Marco Polo descreve para o imperador Kublai Khan as cidades mais exóticas pertencentes ao seu vasto território. Os dois personagens são reais (viveram no século XIII), porém a trama é toda ficcional.

Kublai Khan é um homem poderoso e seu império engloba grande parte do planeta. Vivendo em seu suntuoso palácio, o imperador se sente entediado. A grande alegria do monarca é quando o seu explorador favorito, Marco Polo, retorna para a capital do reino e descreve suas descobertas. O veneziano, para delírio de Kublai Khan, apresenta em detalhes as cidades mais incríveis que conheceu em suas viagens pelos quatro cantos do mundo.

As narrativas de Polo são recheadas de fantasias, magias e surrealismo. As histórias trazidas são tão pitorescas que o imperador desconfia que seu explorador esteja mentindo. Contudo, as descrições das cidades são tão poéticas e com uma beleza filosófica tão acentuada, que Kublai Khan ignora a veracidade dos relatos e continua pedindo incansavelmente novas histórias para Marco Polo. Impossível não fazermos aqui uma comparação com "Mil e Uma Noites", livro árabe do século IX (em que Xerazade conta noite após noite uma longa história para Xariar, rei da Pérsia, que tem o hábito de matar as mulheres depois de passar a noite com elas).

"Cidades Invisíveis" é um livro curto (como são as novelas), sendo possível lê-lo de uma só vez (li em pouco mais de quatro horas). Cada capítulo é a descrição sucinta de uma cidade ou um diálogo breve entre Marco Polo e Kublai Khan. Cada capítulo tem, em média, pouco mais de uma página. Por isso, esta obra se parece muito com um livro de contos ou crônicas.

Para ser sincero, o começo da leitura é um tanto truncado. "Cidades Invisíveis" é uma obra estritamente descritiva, algo incomum de encontrarmos nos principais livros ficcionais. Marco Polo fica explicando as características de cada cidade visitada. Ele fala de suas geografias, das suas particularidades e dos hábitos de seus cidadãos. Por isso, não há muita graça, a princípio, em seus relatos. Não há muito incentivo para prosseguirmos na leitura de uma história que não avança.

No meio do livro, porém, acontece algo surpreendente. O leitor percebe que Marco Polo e Kublai Khan não estão falando de cidades e sim da alma humana. As cidades são metáforas dos comportamentos humanos. Não é à toa que todos os locais descritos possuem nomes femininos: Zora, Fedora, Maurília, Ipazia, Ercília, Eutrópia, Olinda, Bersabéia, Ândria e Laudômia.

A beleza deste livro está exatamente aí! Quando percebemos a profundidade filosófica das descrições, acabamos nos apaixonando por ela. Não apenas aceleramos a leitura como temos vontade de retornar para os capítulos iniciais para acharmos peças que ficaram escondidas da nossa primeira leitura.

As cidades fantasiosas de Marco Polo revelam aspectos da alma humana escondidos de nós mesmos. Este é um livro em que a significação está mais nas entrelinhas no que no sentido objetivo das frases. Quem não tem sensibilidade para compreender as mensagens subliminares na certa não achará graça nenhuma nesta novela. Quem possuiu sensibilidade literária tem uma probabilidade maior de se fascinar com esta leitura.

Por isso, não leia velozmente esta obra. Também é aconselhável rele-la de tempos em tempos (foi o que fiz agora: esta é a minha segunda leitura). Calvino foi extremamente conciso em suas palavras e em sua trama. Este é um livro para ser degustado lentamente (com uma leitura atenta e detalhada) e repetidamente. Só assim poderemos captar boa parte da mensagem do autor.

"Cidades Invisíveis" está dentro da lista dos dez melhores livros que li em minha vida. Com propriedade, ele é considerado um clássico da literatura mundial. Agora que tive noção da qualidade absurda de Italo Calvino, estou mais motivado para prosseguir na leitura dos demais livros do italiano. Se suas outras obras tiverem 10% da qualidade de "Cidades Invisíveis", meu Desafio Literário de novembro será excelente.

E por falar nisso, o segundo livro de Italo Calvino que vamos analisar neste Desafio Literário é "Se um Viajante numa Noite de Inverno" (Planeta DeAgostini). O post sobre esta obra estará disponível no Blog Bonas Histórias no dia 13.

Boa leitura para todos nós!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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