• Ricardo Bonacorci

Livros: Se um Viajante numa Noite de Inverno - Um Calvino maluco e original


Imagine um livro em que os protagonistas são os próprios leitores (eu, você ou qualquer um que abra as páginas desta obra). O autor não é apenas uma pessoa e sim várias, podendo assumir diferentes estilos narrativos. O tradutor, por sua vez, é um picareta que vive de falsificar seus textos e de confundir editoras e leitores. Para completar a confusão, não há uma história linear com começo, meio e fim. O romance é interrompido, geralmente na melhor parte, e em seu lugar surge uma nova trama totalmente diferente da anterior. A nova narrativa também será interrompida na metade e trocada por outra, em uma sequência alucinante. Isso parece impossível? Bem-vindo(a) à criação mais inovadora de Italo Calvino.

Li, nesta semana, "Se um Viajante numa Noite de Inverno" (Planeta DeAgostini). Este é um romance totalmente fora dos padrões convencionais (a começar pelo seu estranho e indefinido título). Esta obra foi publicada pela primeira vez em 1979, quando seu autor já era um importante nome do modernismo italiano. Rapidamente, o livro se tornou tema de debates e de críticas no mundo literário. Afinal, este é um romance metalinguístico. Ele fala, através de uma história amalucada, do ato de produzir e de ler uma narrativa. Portanto, o livro é ao mesmo tempo tema e ferramenta do romance.

De tão maluco que é, torna-se um pouco difícil explicar o enredo de "Se um Viajante numa Noite de Inverno". Mesmo assim vou tentar. No primeiro capítulo, um Leitor abre a nova história de Italo Calvino e, quando começa a se interessar por ela, é interrompido drasticamente. No segundo capítulo, há um romance chamado "Fora do Povoado de Malbork". O texto é de autoria do desconhecido polonês Tatius Bazakbal e também está incompleto. "Cadê a minha história original?", pergunta-se o Leitor. Um problema de impressão acabou misturando as duas obras em uma só.

Indignado, o Leitor vai até a Livraria para trocar o exemplar defeituoso. Chegando lá, encontra uma Leitora com o mesmo problema. Os dois conversam sobre suas impressões de leitura e trocam telefones. Coincidentemente, a dupla pede ao vendedor da Livraria para trocar a edição com problema de Calvino por uma nova do autor polonês. Eles acabaram gostando mais de "Fora do Povoado de Malbork" do que de "Se um Viajante numa Noite de Inverno".

Ao chegarem às suas casas, Leitor e Leitora descobrem que foram enganados novamente. O novo livro não tem nada a ver com aquele de Tatius Bazakbal já iniciado pela dupla. O que eles têm agora em mãos é "Debruçando-se na Borda da Costa Escarpada", um romance inacabado de Ukko Ahti, autor que escrevia em uma língua já morta. Fascinados pela nova história, Leitor e Leitora passam a procurar, juntos, uma tradução deste livro que contenha a sequência da nova trama. Contudo, outra vez eles se deparam com outro romance de outro autor. Quanto mais procuram os finais das narrativas lidas, mais eles conhecem novas histórias inacabadas de uma infinidade de escritores diferentes.

O interessante é que no momento em que os protagonistas do romance leem as histórias que caem em suas mãos, nós também as lemos (afinal, nós somos o Leitor ou a Leitora). "Se um Viajante numa Noite de Inverno" intercala os capítulos: ora temos a narrativa enfocando os acontecimentos e os sentimentos do Leitor e da Leitora e ora temos acesso aos livros que eles estão lendo.

A genialidade de Calvino está em abordar temas sensíveis à literatura por meio de uma ficção reflexiva, experimental e bem-humorada, que provoca o leitor em todos os momentos. Sem sombra de dúvida é um livro espetacular que causa reações variadas em seus leitores: inconformismo, ironia, diversão, confusão, etc. Impossível ficar indiferente ao seu conteúdo e ao seu formato provocador.

Apesar de "Se um Viajante numa Noite de Inverno" apresentar dez histórias diferentes e independentes entre si, não podemos considerá-lo como sendo um livro de contos. Afinal, essas tramas estão ligadas a um enredo maior e único (a procura do Leitor e da Leitura pelo final da história). Por isso, ele é classificado como sendo um romance.

Há vários motivos para justificar a grandiosidade desta obra. A ousadia narrativa de Italo Calvino é um bom ponto de partida. Misturar e alterar a ordem dos principais elementos de uma ficção (autor, leitor, trama, editor/editora, tradutor e estilo literário) pode parecer absurdo (e é!), mas o resultado final ficou excelente. Prova disso é que o final do livro é simples e impactante. Diria mais: não imagino um desfecho mais engraçado e contundente para esta obra.

É verdade que no meio do livro o leitor fica muitas vezes confuso sem entender direito o que está acontecendo. Entretanto, até isso é proposital. Quem nunca se sentiu assim em um livro convencional? Por que não ficar assim em uma trama totalmente sem pé nem cabeça?! A impressão que temos é que Calvino está brincando conosco. Sua ironia fina e sua habilidade de conduzir a trama para onde deseja (afinal, ele é o autor do romance) nos deixam perplexos (o que é um absurdo, pois somos os leitores e deveríamos imaginar que isso poderia acontecer).

Outro aspecto que deve ser citado é a variedade das histórias narradas no livro. Elas são totalmente diferentes em estilo uma das outras. Assim, Calvino produz, ele mesmo, os dez tipos de romances possíveis: romance nebuloso, romance da experiência densa, romance simbólico-interpretativo, romance político-existencial, romance crítico-brutal, romance angustiante, romance lógico-geométrico, romance pervertido, romance telúrico-primordial e romance apocalíptico. Trata-se de uma aula prática de Literatura da melhor qualidade.

As discussões dos personagens sobre o processo de escrita-leitura também empolga os amantes desta arte. A questão central é sobre a "Crise de Representação" que afeta a relação entre autores e leitores nos tempos modernos.

Com pouco mais de 260 páginas, "Se um Viajante numa Noite de Inverno" é um livro imperdível. Quem gosta de Literatura e adora uma trama desafiante, polêmica e original, não pode deixar de lê-lo. Fica a sugestão de leitura para este feriado!

Depois de conhecermos “Cidades Invisíveis” (Companhia das Letras), no dia 9, e "Se um Viajante numa Noite de Inverno", hoje, partiremos para a análise de "O Visconde Partido ao Meio" (Companhia de Bolso), o terceiro livro de Italo Calvino deste Desafio Literário. Esse próximo post será publicado no dia 17. Continue acompanhando os estudos literários do Blog Bonas Histórias de novembro.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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