• Ricardo Bonacorci

Livros: Palomar - Os contos filosóficos de Italo Calvino


Depois de analisar duas novelas ("Cidades Invisíveis" e "O Visconde Partido ao Meio") e um romance ("Se um Viajante numa Noite de Inverno") de Italo Calvino neste Desafio Literário, chegou à vez de ler um livro de contos do italiano. "Palomar" (Companhia das Letras) é a última obra publicada em vida pelo autor. Lançado em 1983 na Itália, este livro precedeu em dois anos o falecimento de Calvino.

"Palomar" reúne 27 pequenas histórias independentes entre si. Elas não possuem uma ordem pré-definida, sendo possível lê-las aleatoriamente. O que as une é o fato de todas possuírem um mesmo personagem principal: Sr. Palomar (que dá título à publicação). Cada conto é a reflexão do protagonista sobre um determinado tema. O livro é dividido em três partes: "As Férias de Palomar", "Palomar na Cidade" e "Os Silêncios de Palomar". Cada uma destas fases possui três capítulos, que por sua vez possuem três contos cada um.

Na primeira parte da obra, Palomar está de férias. No primeiro capítulo, ele está na praia. Depois, ele fica no jardim de casa cuidando das flores e analisando os insetos. No terceiro capítulo, ele contempla o céu e pensa na vastidão do universo.

A segunda parte do livro é pautada pelas experiências e reflexões do protagonista na cidade grande. Os cenários principais são Roma e Paris. No primeiro capítulo, Palomar está no terraço da sua residência. Nos outros dois capítulos, ele faz compras e visita um zoológico.

A terceira e última parte da obra é aquela onde o protagonista fica em silêncio meditando sobre temas filosóficos da vida. No primeiro capítulo, ele apresenta suas impressões de algumas viagens feitas no passado. Depois, fala de aspectos do relacionamento humano. No terceiro capítulo desta seção, Palomar fala da vida e da morte de maneira geral.

"Palomar" é um livro difícil. Ele traz várias pequenas histórias de cunho filosófico sobre a vida moderna. Enquanto relata banalmente cenas do cotidiano, a personagem principal fica divagando sobre questões que a atormentam. Ou seja, é preciso prestar muita atenção nas analogias e metáforas feitas o tempo inteiro pelo autor. Por isso, não tenha pressa em avançar até o próximo conto. Leia pausadamente e de forma concentrada cada página.

Nesta obra, não se narra nada de especial. Apenas se descrevem cenários, situações e pensamentos do seu protagonista. Esta parece ser uma característica típica de Calvino (isso também aconteceu em "Cidades Invisíveis" e em muitas partes de "Se um Viajante numa Noite de Inverno"). Os contos de "Palomar" são essencialmente descrições de cenários, personagens, objetos e animais. Raramente narra-se algum episódio ou acontecimento de maneira direta e linear.

É assustador fazer tal constatação, mas em "Palomar" não há qualquer ação (não espere encontrar uma história com enredo e personagens convencionais). O que há são reflexões sobre a vida, sobre o mundo natural e sobre as relações humanas. Desta forma, é comum o leitor se cansar rapidamente com essa leitura. Isso aconteceu comigo, admito. Ainda bem que a obra é bem enxuta, não chegando a ter mais do que 80 páginas. Li o livro neste domingo de manhã em menos de três horas.

Se o leitor não ler atentamente os contos e não refletir sobre as divagações do protagonista, é possível que não se entenda nada. A chave para a compreensão das histórias de Calvino é entrar em seu mundo irônico e bem-humorado. O primeiro conto, por exemplo, deve ser encarado como um desafio a quem o lê. Nele, o autor narra, por três páginas, as impressões de Palomar sobre as ondas do mar. Nada mais do que isso. Um leitor menos corajoso fecharia o livro neste momento para nunca mais abri-lo. Afinal, qual a graça de se ver a análise detalhada das ondas do mar? Nenhuma! Acredito que esta tenha sido a intenção de Calvino. "Quero ver se você vai continuar depois disso", deve ter pensado o italiano.

No livro inteiro, praticamente estamos sozinhos com o Sr. Palomar. Sua esposa, a filha, uma banhista, um amigo e um vendedor aparecem pontualmente. Dos 27 contos, só me lembro de três diálogos. Definitivamente, esta não é uma obra em que se contam as histórias das pessoas (até do protagonista não sabemos quase nada). "Palomar" é um livro filosófico que retrata as considerações existencialistas de uma pessoa (do Sr. Palomar, o alter ego de Italo Calvino).

Uma característica marcante das obras de Italo Calvino é a ironia fina. Sabendo disso, leia os contos procurando a sacada espirituosa e engraçada do autor. Este talvez seja o livro em que o leitor precise mais de bom humor para seguir na leitura. Se ele levar tudo muito a sério, não conseguirá chegar nem na metade das poucas páginas desta publicação.

Repare nas analogias das conversas entre Sr. Palomar e Sra. Palomar com as conversas do casal de pássaros na praia. Analise o quanto um camaleão andando pelo jardim da sala é mais interessante do que um programa transmitido pela televisão. Reflita sobre o ponto de vista do queijo na banca da feira: é ele quem escolhe o comprador ou é o comprador quem escolhe o produto? E veja o paradoxo do homem que observa o céu estrelado enquanto é observado por uma multidão de pessoas. "Palomar" só terá graça se você buscar um sentido divertido para estas questões.

Outro elemento típico de Calvino são as frases longas. Há frases que ocupam dez, doze, quinze linhas. O leitor precisa de fôlego para lê-las e, principalmente, para compreendê-las. Não se assuste com tais frases-parágrafos. Encare-as também como brincadeiras do autor. Na certa, ele duvida da sua capacidade de concentração.

Se Italo Calvino tivesse escrito esta obra em primeira pessoa, poderíamos dizer que "Palomar" seria um livro de crônicas. Como ele criou uma personagem para descrever seus pensamento e impressões sobre a vida e os relata em terceira pessoa, dizemos que esta publicação é uma obra de contos.

Dos quatro livros que li até aqui de Italo Calvino, este foi o único que não gostei. Admito que não tenho estufa conceitual nem maturidade para apreciar as divagações filosóficas do autor. Quem sabe um dia, eu as tenha. No atual momento, prefiro mesmo uma boa história com começo, meio e fim. E, de preferência, sem rompantes reflexivos tão profundos.

O quinto e último livro de Italo Calvino que vamos comentar neste Desafio Literário de novembro é "Por que Ler os Clássicos" (Companhia de Bolso). O post com todos os detalhes sobre esta obra será publicado no Bonas Histórias no dia 25. Confira!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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