• Ricardo Bonacorci

Filmes: Melhor é Impossível – 20 anos da comédia-romântica de Nicholson e Hunt


Assisti, no último sábado, ao filme “Melhor é Impossível” (As Good As It Gets: 1997). Esta comédia-romântica, que no ano que vem completará 20 anos, foi um grande sucesso de público e de crítica na época do seu lançamento. Além da atuação soberba do seu elenco, o que chama a atenção do público é uma coleção interminável de fatores: o roteiro envolvente que valoriza as principais partes da narrativa; as personagens diferentes e complexas que são retratadas ao longo da história; o humor politicamente incorreto que mistura inteligência e sarcasmo; um conflito para lá de original; e um par romântico que se não for o mais estranho do cinema, muito possivelmente é um dos mais esquisitos. Para completar, ainda há um cachorrinho extremamente fofo que amolece qualquer coração mais duro.

Pelo trabalho em “Melhor é Impossível”, Jack Nicholson e Helen Hunt, os protagonistas do longa-metragem, ganharam, em 1998, o Oscar e o Globo de Ouro como melhor ator e melhor atriz, respectivamente. Greg Kinnear, como ator coadjuvante, também foi indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro daquele ano por sua atuação neste filme. A produção também ganhou o Globo de Ouro daquele ano como melhor comédia e foi indicada ao Oscar nas categorias de Roteiro Original, Montagem e Trilha Sonora. Orçado em US$ 50 milhões, “Melhor é Impossível” faturou aproximadamente US$ 150 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 165 milhões no restante do planeta, sendo uma das melhores bilheterias da temporada de 1997/1998.

Dirigido, roteirizado e produzido por James L. Brooks, de “Laços de Ternura” (Terms of Endearment: 1983), “Nos Bastidores da Notícia” (Broadcast News: 1987) e “Espanglês” (Spanglish: 2004), “Melhor é Impossível” é até hoje o melhor trabalho do cineasta norte-americano de 76 anos de idade.

Curiosamente, foi com James L. Brooks que Jack Nicholson, um dos melhores atores de sua geração, conquistou duas de suas três estatuetas do Oscar (Nicholson trabalhou também em “Laços de Ternura”, o que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante).

No caso de Helen Hunt, foi a partir de seu desempenho nesta comédia-romântica de Brooks que as portas do cinema se abriram com mais intensidade para ela. Destaque da televisão ao longo da década de 1990 - a atriz ficou marcada como Jamie Stemple Buchman, a protagonista da série “Louco Por Você” (Mad About You) - Hunt precisou fazer a migração da TV para o cinema, algo nem sempre fácil e lógico para uma estrela dos seriados televisivos.

“Melhor é Impossível” se passa em Nova York e acompanha o dia a dia de Melvin Idall (interpretado por Jack Nicholson). Melvin é um escritor best-seller e milionário que vive recluso em seu apartamento. Ele sofre de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) e é um homem com muitos preconceitos: racista, homofóbico, machista e antissemita. Para completar, é misantropo, detesta animais e não faz questão nenhuma de esconder seu mau humor e suas grosserias das pessoas com quem interage.

Odiando todos ao seu redor (e sendo odiado, por consequência, por todo mundo), Melvin nutre uma especial ojeriza por seu vizinho, Simon Bishop (Greg Kinnear), um pintor homossexual. Simon e Verdell, o cachorrinho de estimação do vizinho gay, são alvos prioritários das maldades e da ira do escritor problemático. A única pessoa que parece aturá-lo é Carol Connelly (Helen Hunt), a competente e paciente garçonete do restaurante que Melvin frequenta diariamente.

A rotina de Melvin Idall sofre uma transformação acentuada quando Simon é internado em um hospital após ser espancado em um assalto à sua residência. Sem ninguém para cuidar de Verdell, Melvin é escalado para a missão. E, surpreendentemente, o escritor e o cachorrinho se tornam os melhores amigos. O bichinho acaba amolecendo o coração duro do até então homem ranzinza e intransigente. O problema maior ocorre quando Simon se recupera dos graves ferimentos e volta para casa. Melvin e Verdell, agora inseparáveis, precisarão viver outra vez longe um do outro. Para se aproximar do animalzinho que passou a amar, o escritor terá de fazer amizade com o vizinho até então odiado por ele.

Além disso, Carol precisa pedir demissão do restaurante para cuidar do filho doente. Sem ninguém para atendê-lo na hora da refeição (lembremo-nos que Melvin tem TOC e só quer ser atendido pela mesma garçonete), o milionário se prontifica a ajudar no tratamento do filho da moça. Ele faz isso com um único interesse: ter Carol de volta às mesas do restaurante. Sem comer há dias, ele anseia pelo atendimento da garçonete. Contudo, ela vê essa ajuda do escritor como uma investida sexual, o que a deixa furiosa.

Sem perceber, os relacionamentos com Simon, Verdell e Carol vão pouco a pouco transformando Melvin Idall. Em algumas semanas, o trio de amigos consegue resultados mais significativos no tratamento das esquizofrenias do escritor do que o antigo psiquiatra de Melvin tinha conseguido em anos.

“Melhor é Impossível” é um longa-metragem realmente muito bom. Na primeira metade, o que predomina é a comédia. As esquisitices e os preconceitos do protagonista são apresentados de maneira bem divertida, levando a plateia ao riso fácil. Na segunda metade do filme, o tom predominante é o dramático. Aí, o filme se torna um pouco mais lento e pesado, com os conflitos pessoais das personagens principais ganhando acentuado destaque.

Por melhor que seja a narrativa e a construção das personagens (leia-se: o roteiro do filme é espetacular!), não é possível elogiar esta produção sem citar a atuação primoroso do trio Jack Nicholson, Helen Hunt e Greg Kinnear. Se você acha que o melhor trabalho de Nicholson foi como Jack Torrance, em “O Iluminado” (The Shining: 1980), ou como Randle Patrick McMurphy, em “Um Estranho no Ninho” (One Flew Over the Cuckoo's Nest: 1975), você precisa assistir a “Melhor é Impossível”. Parece que este ator nasceu para interpretar personagens transloucados.

Além do ótimo roteiro, que consegue mostrar ao espectador o drama e a complexidade das pessoas retratadas de maneira objetiva e ao mesmo tempo sutil, e da premiada atuação dos atores principais, a direção de James L. Brooks é excelente. Tudo neste filme (trilha sonora, figurino, cenário, fotografia) parece se encaixar como uma luva na proposta da história.

Algo que talvez possa incomodar os adeptos atuais do politicamente correto (algo inexistente ou pouco praticado na década de 1990) é a avalanche de preconceitos que o protagonista nutre. No contexto do filme, não achei nada ofensivo ou que fuja do retrato de uma triste realidade (pessoas preconceituosas, infelizmente, sempre existiram, existem e existirão). O cinema apenas mostra isso. Mesmo assim, acho difícil que um roteiro como este fosse aprovado nos dias de hoje.

Para mim, o principal problema de “Melhor é Impossível” (entre os vários pontos elogiáveis da trama) é a quebra de ritmo entre a primeira e a segunda parte. Quem assiste ao longa-metragem esperando ver uma comédia-romântica pode se sentir frustrado na metade final, quando o que vemos é um drama psicológico tenso e profundo. A comédia, nesse momento, acaba ficando em último plano. Quem gostou de Verdell também sentirá a ausência do cachorrinho na maioria das cenas da segunda parte do filme.

Outro ponto controverso é a aproximação romântica de Melvin e Carol. O que o velho escritor viu na moça é compreensível, mas ainda não entendi como ela pôde se apaixonar por um homem tão repugnante como ele. A carência afetiva que ela sofria era tão grande assim? Ou ela viu algo nele que estava escondido na personalidade bruta dele? Teria sido a ajuda ao filho dela um fator decisivo para a criação de uma maior afeição por parte dela? Sei que essa discussão é longa e poderá não ter fim nunca. Independentemente das razões de Carol (isto é, se a paixão tem lá alguma lógica), o fato é que este é um dos casais mais estranhos do cinema.

“Melhor é Impossível” é um ótimo filme. Passados quase que vinte anos de seu lançamento, ele continua atual e emocionante. Quem é cinéfilo e gosta de conhecer os grandes sucessos do passado, esta é uma boa pedida.

Veja o trailer de “Melhor é Impossível”:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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