• Ricardo Bonacorci

Filmes: Boa Noite, Mamãe - O que faltou para ser o melhor terror do ano


"Boa Noite, Mamãe" (Ich Seh, Ich Seh: 2014) é a produção austríaca de 2014 que chegou aos cinemas do circuito internacional no início deste ano. O filme foi selecionado para ser o candidato do seu país ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2016 e recebeu vários prêmios internacionais desde seu lançamento. Considerado por muita gente como o melhor longa-metragem de terror dos últimos anos, "Boa Noite, Mamãe" teve a direção e o roteiro da dupla Veronika Fraz e Severin Fiala. Vi seu trailer no finalzinho de 2015 e fiquei muito ansioso pela sua chegada às telonas. Como não pude vê-lo em sua curta passagem pelos cinemas nacionais no primeiro semestre, o conferi agora.

O enredo de "Boa Noite, Mamãe" é sobre o drama familiar em uma isolada residência rural. Entre as bucólicas florestas e plantações de milho da Áustria, há uma mansão onde moram dois irmãos gêmeos de 9 anos de idade, Lukas e Elias (curiosamente, o mesmo nome dos seus atores: Lukas Schwarz e Elias Schwarz). A dupla se diverte brincando livremente pelo lago, pelo campo e dentro da casa. Sem a supervisão de nenhum adulto, as crianças esperam a volta da mãe (interpretada por Susanne Wuest) do hospital. Ela passou recentemente por uma cirurgia plástica no rosto e está para retornar ao lar a qualquer momento.

A volta dela acontece. Porém, a alegria inicial dos irmãos se transforma em apreensão. A mãe parece muito mudada. Sua cabeça está sempre coberta por faixas e ela tem várias atitudes estranhas. Elias e Lukas passam a duvidar que aquela mulher sinistra é mesmo sua verdadeira mãe. Por isso, os filhos iniciam uma investigação para compreender o que está acontecendo em sua casa. Esta investigação será levada às últimas consequências pelas crianças, em uma mistura de desespero fanático com crueldade desumana.

"Boa Noite, Mamãe" é um bom filme de terror, nada mais do que isso. Esqueça, portanto, aquelas resenhas críticas que o apontam como sendo a grande novidade deste gênero nas últimas décadas. O meu julgamento, talvez, tenha ficado um pouco prejudicado porque o assisti com elevadas expectativas. Isso, sem dúvida nenhuma, acaba influenciando na opinião final. Admito que fiquei muito decepcionado com o que presenciei ao longo dos 100 minutos desta produção. Conclui que se trata meramente de um longa-metragem acima da média. Algo bom, mas muito abaixo da pretensão da crítica mais otimista.

Curiosamente, o grande problema deste filme está em seu começo. Geralmente, os filmes de terror têm sérias dificuldades para produzir um bom desfecho. Seus inícios são tradicionalmente bons, mas não conseguem sustentar aquele clima aterrorizante por muito tempo, descambando para uma solução banal ou ridícula - lembremo-nos do recente "Boneco do Mal" (The Boy: 2016).

Falo isso porque "Boa Noite, Mamãe" foi desenvolvido para surpreender o expectador em dois momentos. Contudo, na primeira cena do filme, matei a charada que levaria a primeira tensão (não há nada mais frustrante que isso!). Acabei, assim, ficando impressionado apenas com a segunda reviravolta da trama, que acontece no final. Ou seja, o filme começou fraquinho, foi melhorando e chegou a um excelente clímax. O desfecho, além de surpreendente, exige da plateia muito sangue frio para suportar cenas terríveis de torturas física e psicológica.

Como descobri o enigma inicial na primeira cena? Fiz isso por que sou um Sherlock Holmes cinematográfico ou possuo uma inteligência acima da média? Não! A experiência adquirida em produções como "O Sexto Sentido" (The Sixth Sense: 1999) e "Os Outros" (The Others: 2001) foi suficiente para elucidar o primeiro mistério da trama. Acredito que quem tenha o mínimo de experiência em filmes de terror, irá chegar rapidamente à mesma conclusão que eu. Ela é um tanto óbvia, preciso informar. Desta maneira, a primeira parte do filme poderia ser mais sutil. Se você não tiver a infelicidade de descobrir antecipadamente parte do segredo do enredo, acredito que possa gostar muito mais de "Boa Noite, Mamãe".

Assisti ao filme com minha irmã no final de semana retrasado. Ela não acreditou quando disse em menos de um minuto de filme: "Matei a charada". Como ela insistiu muito para eu contar, desvendei o mistério para ela. Assim, minha irmã também não achou graça na primeira metade do longa-metragem, pois viu as cenas sem a surpresa e o impacto necessários. Desculpe-me, maninha! Da próxima vez, não abro a boca nem sob tortura.

A segunda reviravolta do filme, por sua vez, é incrível! Ela ocorre no terço final da produção. A dúvida que as crianças têm sobre a veracidade da identidade da mãe é a mesma que temos, o que aumenta cada vez mais nossa angústia (e das crianças). Ora achamos que a mãe é verdadeira, ora deduzimos que há algo realmente errado com ela. Neste ponto, "Boa Noite Mamãe" ganha em qualidade. A reação dos gêmeos é assustadora. Eles levam suas suspeitas até as últimas consequências, jogando para longe o conceito de amor filial e de fragilidade infantil. A questão que o filme levanta é: o que é mais forte, a relação entre os gêmeos ou deles para com sua mãe? Só não falo mais para não estragar a surpresa.

O final é indiscutivelmente incrível (para quem é fã do gênero terror, obviamente). Até agora não sei se o desfecho é alegre ou triste. Eu o considerei sinistramente alegre, enquanto minha irmã o achou tragicamente triste. Esta é a qualidade de uma boa produção cinematográfica: produzir sensações distintas no expectador, dependendo de sua interpretação.

Nesta parte final, é bom você estar preparado para cenas fortes e de horror visceral. Não se surpreenda se você precisar virar o rosto da tela em várias oportunidades. Aqui temos um pouco de "Jogos Mortais" (Saw: 2004), "O Albergue" (Hostel: 2005) e "Doce Vingança" (I Spit on Your Grave: 2010). A vantagem de "Boa Noite, Mamãe" sobre seus similares é que aqui não sabemos precisar que sãos os vilões e as vítimas do embate amalucado entre mãe e filhos.

A melhor definição que tenho para este filme é: "Boa Noite, Mamãe" é uma mistura de "Sexto Sentido" com "Jogos Mortais". Assim, chego à conclusão que se trata de um filme bom e perturbador. Porém, ele está muito longe de ser o melhor longa-metragem dos últimos anos em sua categoria. Nisso, ele decepciona quem esperava encontrar muitas novidades e uma história verdadeiramente inovadora.

Veja o trailer de "Boa Noite, Mamãe":

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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