• Ricardo Bonacorci

Peças teatrais: Tróilo e Créssida - Shakespeare desconhecido


A nova superprodução que o Teatro do SESI está exibindo é a peça "Tróilo e Créssida", de William Shakespeare. Curiosamente, este foi um dos poucos (e um dos maiores) fracassos da carreira do dramaturgo inglês. O público não viu com bons olhos esta comédia macabra em 1602, quando ela foi encenada pela primeira vez. Esta má recepção se repetiu ao longo dos anos. Por isso, ainda hoje, é raro alguém desejar produzi-la. Nos séculos XVIII e XIX, a peça permaneceu ignorada e distante dos palcos. Apenas no século XX, ela voltou a ser reapresentada, porém com bastante parcimônia. Não é à toa que "Tróilo e Créssida" seja uma das mais desconhecidas peças de Shakespeare.

Para reparar este equívoco histórico, Jô Soares e Maurício Guilherme resolveram adaptá-la. Com direção de Jô Soares e produção de Rodrigo Velloni, "Tróilo e Créssida" está em cartaz no Centro Cultural FIESP - Ruth Cardoso desde outubro. O elenco de 23 atores inclui grandes nomes da dramaturgia nacional: Maria Fernanda Cândido, Adriane Galisteu, Guilherme Sant'anna, Ataíde Arcoverde, Marco Antônio Pâmio e Fernando Pavão.

A trama de "Tróilo e Créssida" tem como cenário a Guerra de Tróia, mítica história de Homero que teria ocorrido entre os séculos XIII a.C e XII a.C. Este conflito foi protagonizado por gregos e troianos. Os gregos viajaram até Tróia para tentar recuperar sua rainha Helena (interpretada por Adriane Galisteu). A esposa do rei grego Menelau (Ando Camargo) tinha sido raptada por Páris (Kiko Bertholini), filho do rei troiano. Em uma viagem diplomática à Grécia, Páris se apaixonou pela beleza da rainha grega e não pensou duas vezes, sequestrando-a e levando-a para sua cidade-estado. A perda da esposa deixou Menelau enfurecido. Por isso, ele organizou um grande contingente de soldados e de armamentos das demais cidades gregas e partiu para Tróia para recuperar sua amada, que já estava vivendo nos braços do príncipe rival.

A peça de Shakespeare começa quando a guerra já tem sete anos de duração. O conflito parece interminável, desgastando tantos os soldados gregos que estão distantes de casa quanto a corte do palácio de Tróia, que convive com o incômodo dos tiros e das mortes no portão de sua residência.

Neste cenário sombrio, o príncipe Tróilo (Ricardo Gelli), irmão de Páris, se apaixona por Créssida (Maria Fernanda Cândido), uma moça dividida entre a razão e a paixão. A união dos jovens é intermediada por Pândaro (Guilherme Sant'anna), o ambicioso tio da moça que também é o narrador da história. Pândaro não possui escrúpulos e aceita entregar a sobrinha para os braços de Tróilo em troca de vantagens e regalias na corte. Contudo, a guerra irá colocar o amor idílico do jovem casal em xeque. Será que a paixão verdadeira entre eles irá sobreviver às maldades e às injustiças da vida bélica daquele momento histórico?

"Tróilo e Créssida" é realmente uma comédia-dramática muito sinistra. O tom pesado das intrigas e dos conflitos humanos começa com o cenário. O jogo de luzes e a sombra da iluminação remetem ao cinema noir. Além disso, todas as personagens possuem defeitos que tornam suas personalidades mais próximas dos vilões do que dos mocinhos. A maldade impera o tempo inteiro. Este talvez seja o grande motivo do desconforto da plateia do século XVII para com esta peça shakespeariana. O público não aceitou, naquele momento, uma trama onde a ganância, a maldade, a vaidade e a violência imperassem o tempo inteiro. Até para a plateia dos dias de hoje é difícil digerir uma história tão sombria.

Para quebrar este clima tão pesado, há personagens hilárias que fazem os expectadores chorarem de rir. As cenas dos bastidores da guerra são excelentes. Cada um dos lados possui um grande número de guerreiros incompetentes e com a cabeça na lua, fazendo com que o conflito se arraste por anos e anos. O clima de amizade e de companheirismo entre os adversários também rende ótimas risadas. Enquanto acompanhamos as intrigas palacianas em Tróia, podemos constatar as pitorescas preocupações dos soldados em seu dia a dia de trabalho.

O texto de Jô Soares e Maurício Guilherme é preciso e contundente. Ele consegue transformar várias passagens simples e corriqueiras em cenas divertidíssimas. Os atores também estão ótimos. A enxurrada de personagens não atrapalha em nenhum momento a compreensão da plateia. Como cada personagem possui características muito marcantes, eles são facilmente reconhecidos no meio da multidão no palco. Destaque para a comicidade de Guilherme Sant'anna, Ataíde Arcoverde e Felipe Palhares e para a dramaticidade de Maria Fernanda Cândido e Ricardo Gelli.

As mais de duas horas de peça passam sem que a plateia perceba. O único ponto mais crítico é o desfecho da história. Depois de entreter o público com uma enorme quantidade de cenas engraçadas e, muitas vezes, escrachadas, o conflito bélico chega ao seu clímax, assim como a história de amor entre Tróilo e Créssida. Neste instante, o humor desaparece e o que temos é uma avalanche de pessimismo. Todos os elementos sombrios da trama que estavam sendo represados encontram, enfim, uma desembocadura. Aí a plateia leva um "soco no estômago" (ou seria no coração?).

O gosto que o expectador sai do teatro é amargo. Não que a peça seja ruim (pelo contrário, ela é excelente), mas a mensagem final é triste e ameaçadora. Por isso, acredito que "Tróilo e Créssida" tenha sido tão renegada nos palcos do mundo inteiro por tanto tempo.

Esta peça está em cartaz de quarta a domingo às 20h30 no Teatro do SESI, no Centro Cultural FIESP - Ruth Cardoso, localizado na Avenida Paulista. Esta temporada irá até o dia 18 de dezembro. Apesar de não haver qualquer informação sobre a extensão de sua programação para 2017, é muito provável que tenhamos uma nova temporada ainda em janeiro. A entrada é gratuita e para retirar os ingressos é preciso chegar no dia do espetáculo com algumas horas de antecedência à bilheteria. Ela abre às 13h. Vale a pena pegar a longa fila. "Tróilo e Créssida" é uma peça inesquecível!

Veja o vídeo de divulgação da peça:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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