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Livros: A Moreninha - O primeiro romance brasileiro por Joaquim Manuel de Macedo


A Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo

Li, no último final de semana, o livro "A Moreninha" (Ática) de Joaquim Manuel de Macedo. Esta obra, lançada inicialmente em folhetins pelos jornais em 1844, representou o primeiro romance genuinamente brasileiro da história. Um ano antes, Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa havia publicado "O Filho do Pescador", apontado também como marco inicial da prosa romântica no país. Porém, os acadêmicos e os críticos literários preferem atribuir à obra de Macedo este pioneirismo. "O Filho do Pescador" é uma história pouco articulada e muito confusa, sem o necessário refinamento que um bom romance necessita.

O enredo de "A Moreninha" gira em torno de um grupo de estudantes de medicina do Rio de Janeiro. Filipe, Augusto, Leopoldo e Fabrício são jovens burgueses do século XIX que passam seus dias entre as atividades da faculdade e os flertes com as mocinhas da corte carioca.

Joaquim Manuel de Macedo

Um dia, enquanto os amigos conversam animadamente sobre suas conquistas amorosas, Filipe lança um desafio a Augusto. Augusto era tido como um namorador incorrigível (na linguagem feminina dos dias de hoje, "um galinha") e não parecia ser capaz de amar uma mulher por mais de três dias. Assim, ele ficava trocando de namorada como quem troca de roupa. Ciente desta característica do amigo, Filipe faz uma aposta com ele. Se Augusto viajasse com o grupo para a ilha onde a avó de Filipe morava e conhecesse sua irmã e suas primas, ele voltaria perdidamente apaixonado por umas delas. Augusto bate o pé e afirma que jamais se apaixonaria de verdade por alguém. Quem perdesse a aposta precisaria contar aquela história em um romance.

Desta maneira, o quarteto de amigos viaja, em um feriado prolongado, para a ilha onde a família de Filipe morava. Lá o grupo passa alguns dias com Dona Ana, a proprietária do lugar e avó de Filipe, sua família (netas) e amigos. Todos os eventos promovidos pelos jovens têm como motivo o flerte entre rapazes e moças. Nestes encontros, Augusto conhece Carolina, irmã caçula de Filipe.

Apelidada de Moreninha, Carolina é uma mocinha de quinze anos totalmente endiabrada. Descrita como travessa, inteligente e persistente na obtenção do que deseja, ela não consegue, em um primeiro momento, despertar qualquer sentimento mais nobre no coração de Augusto. O contrário também parece verdadeiro. Contudo, à medida que o estudante de medicina e a menina moradora da ilha passam a conviver mais intensamente naquele feriado, um sentimento especial começa a despertar entre eles.

A Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo

Vendo que corria o risco de se apaixonar pela primeira vez na vida, Augusto revela um segredo de sua adolescência que pode frustrar qualquer tentativa sua de se casar. Aos treze anos de idade, ele prometera se tornar marido de uma menina mais jovem que conhecera em uma viagem com sua família. O problema é que ele não sabia o nome desta moça e jamais a tinha visto depois da promessa de casamento. A partir deste ponto, Augusto irá se dividir entre as lembranças do passado e o sentimento atual por Carolina.

"A Moreninha" é um livro rápido e gostoso de ler. Ele tem 140 páginas e é possível lê-lo em duas noites (foi o que fiz). Trata-se daquele tipo de literatura chamada de "água com açúcar", como muitas obras românticas são. Quase toda a trama se passa na ilha e tem como protagonistas os hóspedes da família de Filipe e a própria família do rapaz. Apenas umas poucas cenas (no início e no final do romance) se passam no Rio de Janeiro, onde o grupo de estudantes mora.

A linguagem usada por Joaquim Manuel de Macedo é simples, ágil e coloquial. O autor incorpora, em sua narrativa, ditos populares da sua época. Além disso, ele atira o leitor para o centro da ação, em uma construção quase metalinguística. O narrador é onisciente e os diálogos entre as personagens têm um tom quase teatral.

Cena do filme A Moreninha

Dois recursos interessantes são usados por Macedo em "A Moreninha" para dar mais requinte a história. O autor utiliza-se de flash-back para contar o passado de Augusto. Ele também incorpora ao longo da trama outros gêneros literários como a poesia lírica e a música.

Os protagonistas, como são típicos do Romantismo, são personagens planas e há uma clara divisão maniqueísta entre eles. Suas constituições são simples para dar espaço à narrativa das ações. Até mesmo Augusto, que é descrito no início como namorador e pouco afeito às paixões verdadeiras, possui características de herói romântico e não de um anti-herói realista. As personagens secundárias, por sua vez, são representações do quadro social da época. Os estudantes de medicina são transcritos como alegres, boêmios e namoradores. As mocinhas são, por sua vez, fúteis, faladeiras e almejam unicamente um casamento feliz.

Além disso, "A Moreninha" tem outros elementos explicitamente românticos: as personagens apaixonam-se loucamente, poucas cenas ou gestos são capazes de despertar os sentimentos mais passionais dos jovens, o sofrimento é a consequência natural do amar (quanto mais se ama, mais se sofre) e os impedimentos para a felicidade dos namorados são gigantescos. Para completar, o final é sempre feliz e perfeito para os protagonistas. Como eu já sabia o desfecho desta trama, obviamente não me surpreendi, mas é possível que muitos leitores possam ficar impressionados com as últimas páginas do livro.

Busto de Joaquim Manuel de Macedo

Há quem diga que este romance possui elementos autobiográficos. Joaquim Manuel de Macedo formou-se em medicina, mas nunca exerceu a profissão. Teria Augusto ou alguns dos seus colegas do romance traços do escritor? Jamais saberemos. O que é fato consumado é que Macedo preferiu trabalhar como jornalista e depois como romancista após sua graduação. O sucesso imediato de "A Moreninha" ajudou-o nisso. A partir da fama conquistada com seu primeiro romance, ele produziu dezenas de outras obras românticas, com destaque para "O Moço Loiro" de 1845 e "A Luneta Mágica" de 1869.

"A Moreninha" é um bom livro romântico. Quem deseja se aventurar pelos costumes da burguesia do século XIX e tem interesse em conhecer os primórdios do romance nacional, na certa irá gostar desta leitura.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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