• Ricardo Bonacorci

Livros: Amor em São Petersburgo - O romance de Heinz G. Konsalik pelo Império Russo


Li, no começo de dezembro, um dos principais livros de Heinz G. Konsalik: "Amor em São Petersburgo" (Best Bolso). Konsalik foi o mais popular romancista alemão do final do século XX. Nascido na cidade de Colônia em 1921, ele trabalhou como dramaturgo, jornalismo e escritor. Até seu falecimento em 1999, escreveu quase 200 romances e infinitos contos. Suas histórias foram traduzidas para mais de 40 idiomas e seus livros venderam aproximadamente 100 milhões de cópias no mundo todo.

A vida e as principais obras de Heinz G. Konsalik foram marcadas pela Segunda Guerra Mundial. Ainda estudante universitário, o jovem Konsalik precisou abandonar os estudos para lutar junto às tropas alemãs na União Soviética. Gravemente ferido no conflito, voltou para a Alemanha e passou a trabalhar como escritor. Contudo, a experiência vivida no país comunista deixou marcas irreparáveis em sua personalidade e, por consequência, em seus romances. O vazio da paisagem russa e o estilo de vida soviético influenciaram sensivelmente suas tramas. As principais histórias de Konsalik se passam no gigantesco país do norte da Eurásia. A influência russa é tanta que o escritor ganhou o apelido de "Coloniano de Alma Russa".

Não é coincidência, portanto, que a trama de "Amor em São Petersburgo", um dos principais sucessos de Heinz G. Konsalik, se passe quase que integralmente na Rússia. Apesar de o protagonista ser um alemão, ele passa a história quase toda interagindo com russos e vivendo no país estrangeiro. "O Médico de Stalingrado" (Record), " O Expresso Transiberiano" (Record) e "O Médico da Czarina" (Record) são exemplos de outros títulos com esta mesma característica.

O enredo de "Amor em São Petersburgo" aborda a paixão entre o oficial alemão Gregor von Puttlach e a aristocrata russa Grazina Vladimirovna. Os dois se conhecem no baile de ano-novo de 1914 promovido pela família imperial russa em São Petersburgo. O problema deste relacionamento é que Grazina é filha de um importante general e conde local. O pai da moça não aceita que sua filha namore um estrangeiro. Além do problema familiar, a união dos jovens irá implicar em sérios problemas diplomáticos. A embaixada alemã em São Petersburgo não aceita que um funcionário do seu corpo diplomático promova instabilidade no seio da corte local, provocando a fúria de um importante conde russo e prejudicando as relações entre os dois países.

Para agravar ainda mais o cenário já adverso para os jovens amantes, 1914 foi o ano em que explodiu a Primeira Guerra Mundial. E justamente neste conflito, a Rússia e a Alemanha lutaram em lados opostos. Desta maneira, era inadmissível um oficial alemão ficar no país inimigo e conviver com a família de um general adversário. Além disso, o país do czar Nicolau II rapidamente entrou em uma guerra civil. O Exército Vermelho, liderado pelos bolcheviques que queriam instalar o comunismo, lutou contra o Exército Branco, que defendia o czar e a manutenção do Império Russo. Em poucos anos, a Rússia se tornou um local perigoso até mesmo para sua própria população.

É nesta condição totalmente sombria de guerra nos países vizinhos, de lutas internas pelo controle do governo russo e de disputas familiares, que Gregor von Puttlach e Grazina Vladimirovna tentarão ficar juntos. Nunca o termo "o mundo era contra uma história de amor" se fez tão pertinente como neste romance.

"Amor em São Petersburgo" começa ao estilo das histórias românticas do século XIX: mocinho e mocinha se apaixonam perdidamente ao primeiro olhar. Impossibilitado de ficar junto, o casal irá desafiar a todos em nome deste amor. Apesar deste início convencional, o romance consegue empolgar ao longo de sua narrativa ao se afastar das obviedades e explorar pontos interessantes do cenário construído ao redor dos protagonistas.

Muitas personagens são do tipo esférico (principalmente as mulheres), há várias e boas personagens secundárias (mais marcantes até mesmo que os próprios protagonistas), a trama possui muitas reviravoltas (influenciadas pelo cenário externo) e há algumas doses de humor (o duelo travado entre Gregor e o pai de Grazina pela honra da moça é hilário) e de ironia (o destino da mãe de Grazina é um exemplo marcante do quão irônica a vida pode ser). O constante deslocamento dos protagonistas pela Rússia também confere agilidade ao texto e ao enredo. Este romance é uma "road story", com a trama se passando em várias cidades da Rússia e da Europa, em uma contínua viagem para longe da guerra.

O principal ponto positivo de "Amor em São Petersburgo" é conseguir transmitir ao leitor o intrigado cenário político do fim do Império Russo. Os anos de 1914 a 1922 foram recheados de acontecimentos históricos na Rússia. Heinz G. Konsalik consegue colocar seus personagens nos eventos grandiosos deste período. À medida que acompanhamos o drama de Gregor von Puttlach e Grazina Vladimirovna, também conhecemos uma importante parte da história contemporânea. Konsalik é mestre em reconstruir o passado da Rússia. Há vários personagens reais, como o czar, a czarina, seus filhos e o curandeiro Rasputin. A união entre ficção e realidade é ainda mais próxima quando vários acontecimentos reais são presenciados pelas personagens criadas pelo autor.

É muito interessante ver como se comportam as personagens no meio do conflito da Primeira Guerra Mundial e da Revolução de Outubro de 1917. O final é excelente. Ao mesmo tempo em que consegue agradar ao público leitor ávido por um final feliz e romântico, Konsalik também é realista e pragmático em seu desfecho. Melhor que isso, impossível.

Também gostei do jeito de escrever de Konsalik. Apesar de trabalhar um romance com várias personagens e com um complexo enredo político, o escritor alemão consegue deixar tudo simples para o leitor. Sua escrita é objetiva e seu vocabulário é acessível, se parecendo muito com o estilo de Sidney Sheldon.

Gostei muito de conhecer um pouco o trabalho de Heinz G. Konsalik. E nada melhor do que fazer isso com um dos seus grandes sucessos. "Amor em São Petersburgo" é um livro muito bom.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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