• Ricardo Bonacorci

Filmes: Assassin's Creed - Os games invadem os cinemas


Houve um tempo em que a indústria cinematográfica era muito maior do que a indústria de games. Naquela época, muitos jogos eram criados a partir de sucessos vindos da telona. Lembro, por exemplo, que na minha infância, joguei muito "Indiana Jones e a Última Cruzada" no Master System, videogame da Sega na década de 1980 e 1990. O jogo, obviamente, foi inspirado no longa-metragem de George Lucas, Steven Spielberg e Harrison Ford (OK, percebi que estou ficando velho...).

Agora, a realidade é oposta. Muito maior, o mercado de games é quem serve de inspiração para as produções cinematográficas. O primeiro personagem dos videogames a virar protagonista no cinema foi o encanador italiano Mário Bros, em "Super Mario Bros" (1993). A partir dos anos 2000, exatamente quando a relevância das duas indústrias se inverteu, uma enxurrada de filmes nascidos dos games invadiu as salas de cinema. "Lara Croft – Tomb Raider" (2001), "Resident Evil" (2002), "House of the Dead" (2003), "Alone in the Dark" (2005), "BloodRayne" (2005), "Silent Hill" (2006), "Hitman" (2007), "Prince of Persia" (2010), "Red Faction – Origins" (2011), "Zombie Massacre" (2012) e "Kane & Lynch" (2013) são alguns destes exemplares. Muitos destes títulos ganharam várias sequências, comprovando o sucesso comercial que tiveram. Apesar do êxito nas bilheterias (principalmente entre os numerosos fãs dos games), estas produções se assemelham entre si na baixa qualidade. Nenhum destes longas-metragens conseguiu empolgar os cinéfilos e os apreciadores do bom cinema.

O caso mais recente da tendência de adaptar ótimos jogos eletrônicos em péssimos filmes é "Assassin's Creed" (2016), lançado esta semana nos cinema de todo o país. Inspirado em uma das franquias de maior sucesso dos jogos eletrônicos, o filme traz para as telas o enredo criado pela Ubisoft. Ao longo dos seus dez anos de vida, as nove versões do game "Assassin's Creed" já venderam mais de 100 milhões de unidades em todo o planeta.

Querendo aproveitar-se deste sucesso, o estúdio Fox produziu um longa-metragem com um enredo baseado na história de Callum Lynch, o protagonista de "Assassin's Creed". A promessa do estúdio norte-americano era terminar, de uma vez por todas, com a sina que os clássicos dos games sofrem nos cinemas. Para isso, não poupou investimentos. Além de abrir a carteira, a Fox selecionou um diretor de primeira linha, desenvolveu um roteiro com liberdade criativa em relação ao do jogo e escalou um time de atores experiente e com qualidade já comprovada. O sucesso da crítica, desta vez, não seria algo tão complicado, acreditava-se. Será mesmo?

O orçamento de Assassin's Creed ficou na casa dos US$ 130 milhões. A direção é do australiano Justin Kurzel, do excelente "Macbeth - Ambição & Guerra" (Macbeth: 2015). Michael Fassbender, da série "X-Men" e de "Bastardos Inglórios" (Inglourious Basterds: 2009), e Marion Cotillard, de "Piaf - Um Hino ao Amor" (La Môme: 2007), são os principais atores em cena. A dupla já havia trabalhado junta com Kurzel. Em "Macbeth - Ambição & Guerra", Fassbender e Cotillard formavam o casal de protagonistas e deram um show de interpretação.

Na versão cinematográfica de Assassin's Creed, Callum Lynch (interpretado por Michael Fassbender) é um presidiário norte-americano aguardando, na prisão de seu país, a execução da sentença recebida pelos crimes praticados. Ele havia sido condenado à morte pela Justiça dos Estados Unidos. Contudo, após a aplicação da injeção letal, ele acorda em uma sala misteriosa, em Madri. A Doutora Sofia (Marion Cotillard) explica ao antigo presidiário que ele fora salvo da morte pela sua equipe de trabalho. Como gratidão, ele é agora obrigado a participar de um projeto científico coordenado pela doutora. Nesta experiência, Sofia levará o rapaz para o passado medieval. Com o auxílio de uma máquina, Callum Lynch será transportado para a Espanha do século XV em meio à ebulição social provocada pela Inquisição.

Sua missão nestas viagens ao passado é descobrir onde está a Maça do Éden. O artefato bíblico é alvo de intensas disputas entre duas sociedades secretas milenares: a Ordem dos Assassinados, entidade pagã, e a Ordem dos Templários, ligada à Igreja Católica. A Doutora Sofia quer se apossar da Maça do Éden para interromper a violência histórica causada pelos seres humanos. Como efeito colateral do estabelecimento da paz, todos os homens e mulheres do planeta perderão o livre-arbítrio. Os Templários são a favor desta medida. Os Assassinos, por sua vez, lutam pela liberdade da humanidade, apesar desta condição representar alguma violência eventual por parte dos indivíduos.

Em meio às acirradas e sangrentas discutas entre as duas ordens, realizadas tanto na Idade Média quanto no século XXI, Callum Lynch precisará escolher para qual lado lutar.

"Assassin's Creed" é um filme visualmente muito bonito, fazendo referências, obviamente, ao mundo dos games. Percebe-se, em todo momento, o cuidado com a fotografia, com o figurino e com os efeitos especiais. Cerca de 80% das cenas tiveram o auxílio ou a complementação de recursos computacionais. O roteiro parece, em um primeiro momento, muito interessante. Quem assiste ao trailer (foi o meu caso), fica empolgado para conferir a intrigada trama. Até mesmo aqueles que não são conhecedores ou fãs da série na plataforma dos jogos eletrônicos (novamente, este é o meu caso), vão querer correr para a sala de cinema assim que assistirem ao trailer.

Contudo, o filme decepciona. E muito! Infelizmente, não foi desta vez que teremos uma produção trazida dos games que empolgue a plateia nos cinemas (que não seja fã do jogo). O que mais incomoda neste longa-metragem é o excesso de lutas banais (quem gosta de pancadaria pode até gostar um pouco do filme). As batalhas, apesar de esteticamente bem feitas, tornam-se rapidamente repetitivas e muito infantis. Não é errado afirmar que mais da metade das cenas é de luta ao estilo Jaspion (o herói japonês que ficava matando facilmente o exército inimigo, sem nunca conseguir pegar o grande vilão).

A impressão que se tem durante a sessão é que você está assistindo seu filho ou seu sobrinho jogando videogame na TV de casa, algo tão interessante quanto conferir o vídeo de casamento da sua cunhada.

Para piorar, a boa proposta do roteiro se torna confusa e muito simplória. Os personagens (com exceção dos protagonistas) também não são bem pontuados na trama, não conseguindo cativar a plateia.

Assim, o período de uma hora e meia do filme se torna um tormento. Não se sinta mal se você dormir durante a sessão. A moça que estava sentada ao meu lado dormiu mais de uma hora. E olhe que a sala de cinema onde estávamos era uma das menos confortáveis de São Paulo (Centerplex do Shopping da Lapa). Confesso também que passei boa parte do longa-metragem lutando contra um cochilo que teimava em me pegar. Por sorte e com muita habilidade da minha parte, consegui vencê-lo (os méritos foram meus, não do filme).

Muito provavelmente, "Assassin's Creed" será um dos maiores desperdícios do ano. Investir mais de uma centena de milhões de dólares e subaproveitar o incrível talento de profissionais do naipe de Justin Kurzel, Michael Fassbender e Marion Cotillard em uma produção tão fraca é para se lamentar. O filme só é indicado para quem tem problema de insônia. Se este é o seu caso, corra agora mesmo para a sala de cinema mais próxima de você. Ele será um santo remédio!

Veja o trailer de "Assassin's Creed":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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